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quinta-feira, janeiro 23, 2014

Salvador Dalí, sempre atual

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,salvador-dali-sempre-atual-,1121553,0.htm

Julia Talarn e Hèctor Mariñosa/ Barcelona - EFE
Dalí morreu em 23 de janeiro de 1989 - Reprodução
Reprodução
Dalí morreu em 23 de janeiro de 1989
O gênio de Salvador Dalí continua atual depois de 25 anos da sua morte e suas obras continuam surpreendendo e atraindo o público, que no ano passado abarrotou o Museu Rainha Sofía e o Centro Pompidou, em Paris, para contemplar sua grande retrospectiva. Dali morreu em 23 de janeiro de 1989 em sua cidade natal, Figueres (Girona, Espanha). A personalidade e a trajetória do artista sempre gerou controvérsia, pois são muitos os que ainda lembram da sua simpatia e o seu apoio ao regime franquista e a comercialização das suas obras e da sua imagem durante os últimos anos da sua vida. 

Apesar disto, para a diretora do Centro de Estudios Dalinianos e curadora da exposição no Museu Rainha Sofia, Montse Aguer, Salvador Dalí em geral é “bem avaliado”, embora ela acredite que vai demorar ainda para “captar a importância de um artista interessado em temas tão distintos, o que o transformou num “personagem difícil de estudar e compreender”. “O importante é que falem de você, mas que falem bem”, lembra Montse Aguer, citando uma das frases preferidas do pintor. 

Segundo ela, hoje “quase todo mundo fala bem de Dalí” e o tempo fará com que a sociedade dê mais valor à sua projeção como artista e pensador. “25 anos não são nada na história da arte”, assinalou. Neste sentido, o crítico e historiador de arte Daniel Giralt-Miracle, disse que Dalí foi uma figura “plurivalente” que teve a repercussão política que desejava: “Sua vontade era ter pessoas a favor e pessoas contra”. E o fato de, 25 anos após a sua morte, ainda provocar discussão, significa que “ele planejou bem”. 

Se Dali desejava ter repercussão junto ao público, as últimas cifras mostram o entusiasmo que ainda provoca sua obra surrealista, uma arte que tem o dom de não envelhecer e que transformou o artista num autêntico fenômeno da cultura de massa. Na última retrospectiva de Salvador Dali, de 22 a 25 de março do ano passado, o Centro Pompidou, em Paris, pela primeira vez na sua história, precisou abrir suas portas 24 horas diariamente nos últimos dias da exposição, que recebeu 790.090 visitantes. Esta foi a segunda exposição mais vista na história do museu, superada apenas por uma outra, do próprio Salvador Dali, numa outra retrospectiva também no Centro Pompidou em 1979, vista por 8840.662 pessoas. 
 

A “febre” para contemplar a exuberante imaginação do artista passou depois para o museu Rainha Sofia, onde em quatro meses atraiu 732.229 visitantes. Foi a exposição mais visitada na história de Madri. Paralelamente, o número de visitas aos museus da Fudação Gala-Salvador Dali em Figueres, Púbol e Portllitat, na região da Gironda (todos na Catalunha) bateu recordes no ano passado, tendo chegado a 1.580.517 visitantes, muitos vindos de todos os cantos do planeta. 

Para Montse Aguer, apesar de a arte de Dali se inscrever nas correntes do século passado, ela continua “muito atual” porque o artista tinha “uma capacidade de antecipação” e também de “provocação”, e por isso atrai tanto o público adulto como jovens e até crianças. Mas a figura de Salvador Dalí superou nos últimos anos a sua produção artística, e os múltiplos aspectos da sua vida ainda despertam interesse, como prova o surgimento constante de livros que analisam sua produção, seu pensamento, ou sua biografia, e entre os últimos publicados está Querido Salvador querido Lorquito, que reúne toda a correspondência entre Dalí e Federico García Lorca. 

Salvador Dalí será homenageado esta semana em seu povoado natal de Figueres e em Cadaqués, onde residiu grande parte da sua vida, com oferendas de flores e diversas atividades que lembrarão o mais universal artista catalão. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

terça-feira, novembro 05, 2013

Rafael Zabaleta: El expresionismo español

http://trianarts.com/rafael-zabaleta-y-el-realismo-expresionista-espanol/


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Rafael Zabaleta

Rafael Zabaleta Fuentes nació en Quesada, Jaén, el 6 de noviembre de 1907.
Su estilo varió desde el  sombrío de su primera época, al  rutilante que le condujo a un  con influencias claramente picassianas.
Esta evolución se observa partir de 1950, adquiriendo el estilo que le confiere su identidad.
La colección más importante de sus obras se encuentra en el Museo Zabaleta, de su ciudad natal.
Actualmente sus cuadros se exponen hoy en los más prestigiosos museos del mundo, entre otros en las ciudades de Buenos Aires, New York, Tokio y España.
Zabaleta declaró literalmente que “su apoyo en el arte más inmediato al suyo lo basó en Paul Cezanne, Vincent Van GoghHenri Matisse y Pablo Picasso o que sus intereses se vinculaban a la Escuela de París, “la mejor palestra del mundo”.
En 1951 su ciudad natal le nombra Hijo Predilecto.
En 1960 presenta en el pabellón español de la XXX Bienal de Venecia una serie de 16 óleos y diez dibujos, en la que sería su muestra más importante.
Murió el 24 de junio de 1960, en su localidad natal.
*Esta entrada fue publicada el 24 de julio de 2010. Ha sido actualizada y ampliada el 6 de noviembre de 2013.

sábado, outubro 19, 2013

Mujeres pintoras: La prerrafaelita Eleanor Fortescue-Brickdale

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Eleanor Fortescue-Brickdale

Nació en Upper Norwood, Surrey, Reino Unido en 1872.
Estudió inicialmente en la Escuela “Crystal Palace School of Art”, en la que tuvo como maestro a Herbert Bone. Más tarde, en 1896, ingresó en la Royal Academy de Londres.
Comenzó a exponer muy pronto en la Academia y en la Galería Dowdeswell, donde realizó varias muestras individuales.
Durante su estancia en la Royal Academy, fue influenciada por  John Liston Byam Shaw, a su vez protegido de John Everett Millais, pintor que seguía los pasos y la técnica de John William Waterhouse y Byam Shaw.
En 1902 ingresó en el Royal Institute of Oil Painters, siendo la primera mujer en lograrlo
Abrió  un taller en 1911, en la que impartía  clases, además de pintar.
La obra de Eleanor, en su mayoría se centró en  temas literarios, con frecuencia, basados en poemas, leyendas o cuentos populares. El significado de estas temáticas, fue muy debatido en sus primeras exposiciones.
Fue una de las últimas exponentes del Movimiento Prerrafaelita y Neo-Prerrafaelita, en base a su técnica meticulosa y sus colores vivos y luminosos, en realidad, nació años después de que los miembros originales del citado movimiento se hubieran separado y seguido caminos distintos.
Como casi todos ellos, sus temas fueron escena de ambiente medieval, con de ropas y entorno de dicha época. La flora y la fauna que incluye en casi todos sus cuadros, fueron estudiados y ejecutados hasta en los mínimos detalles, asumiendo la máxima Preafaelita de “fidelidad a la naturaleza”.
Un crítico de le época diría a este respecto: “La habitación se ilumina con ella, como si fuera lanzado fuera de las joyas de vivir”.
Además de sus óleos y acuarelas, realizó vidrieras para diversas iglesias e ilustró algunos libros para niños de música y poesía, sus ilustraciones para “Idilios del rey de Tennyson”, son una auténtica delicia.
Así mismo durante la Primera Guerra Mundial realizó varios carteles publicitarios para la contienda.
Fue una acérrima cristiana, donando muchas de sus obras a distintas iglesias.
Sus obras más conocidas son “El huésped no invitado” y “Ginebra”.
Murió el 10 de marzo de 1945.
*Esta entrada fue publicada en este blog el 18 de marzo de 2012. Ha sido actualizada y ampliada con más de 40 nuevas obras el 19 de octubre de 2013.

terça-feira, outubro 08, 2013

A abertura da participação brasileira na Feira do Livro de Frankfurt na tarde desta terça (8) foi marcada por um discurso forte do escritor Luiz Ruffato, no qual ele defendeu que o país nasceu sob a égide do genocídio, que a chamada democracia racial do país foi feita com estupros e que no Brasil reinam a impunidade e a intolerância.
A fala do romancista, feita na sala principal do evento alemão, diante de 2.000 pessoas, entre eles lideranças políticas alemãs e o vice-presidente da República, Michel Temer, ressaltou ainda os 37 mil assassinatos anuais do país, os 550 mil presos e a alta taxa de analfabetismo.
Antes de concluir, Ruffato disse que nos últimos anos o país vem vivendo alguns avanços e salientou o "poder transformador da literatura", exemplificando com sua trajetória: ele disse que é filho de uma lavadeira analfabeta e de um pipoqueiro semianalfabeto.

Feira do Livro de Frankfurt

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Michael Probst - 8.out.2013/Associated Press
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Visitantes descansam em redes e escutam histórias no pavilhão brasileiro na Feira de Frankfurt
Seu discurso, de cerca de dez minutos, foi ovacionado e aplaudido de pé por alguns dos presentes, entre eles o diretor do Sesc-SP Danilo Santos Miranda e escritores brasileiros, como o romancista Paulo Lins e o poeta Age de Carvalho.
No encerramento das cerimônias, depois do discurso de políticos como o Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, que elogiou a fala de Ruffato e pediu lugar permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU, o vice-presidente Michel Temer fez um discurso que foi concluído com vaias.
Começou chamando a ministra da Cultura, Marta Suplicy, de "ministra da Educação" e fez declarações elogiosas a sua participação na constituinte, que resultou na Constituição de 1988.
Em seguida falou de sua relação com a literatura. "Jamais abandonei a literatura. As leituras aguçaram meu raciocínio. Graças a isso cheguei a este palco", disse, antes de fazer propaganda de seus próprios poemas, publicados recentemente no livro "Anonima Intimidade" (Topbooks). "Não recebi elogios, mas também não recebi críticas."
*
Leia a íntegra do discurso do escritor Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt:
"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século 19, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo.
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."




sábado, julho 13, 2013

Blockbuster do Renascimento chega a São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1310394-blockbuster-do-renascimento-chega-a-sao-paulo.shtml

13/07/2013 - 03h06

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Numa versão reducionista da história, Florença criou o desenho e Veneza, a cor. Mas entre uma e outra simplificação, o Renascimento, movimento que mudou para sempre as artes visuais, na verdade se desdobrou numa ampla gama de escolas e estilos.
Foram dois séculos de renovação estilística que tiraram o mundo das trevas da era medieval e propagaram a luz da filosofia humanista --o mesmo facho luminoso, claro e preciso que recobre as figuras e construções das primeiras telas renascentistas.
Na mais cara mostra de artes plásticas do país neste ano --R$ 6,5 milhões de orçamento e obras avaliadas em R$ 600 milhões--, o Centro Cultural Banco do Brasil abre hoje em São Paulo um recorte de obras desse período, que vão de 1423 a 1573, num arco de 150 anos da produção de mestres como Michelangelo, Leonardo Da Vinci, Ticiano, Bellini, Rafael e Botticelli.

Exposição "Mestres do Renascimento", no CCBB

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Divulgação
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"Juízo Universal, Pentecostes e Pregação de São Pedro, Ascensão de Cristo", tríptico de Fra Angelico, faz parte da mostra "Mestres do Renascimento", em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo
Estão lá, no quarto andar do museu, alguns dos primeiros experimentos dessa corrente, a ideia de perspectiva clara e absoluta, que esquadrinhava o mundo de acordo com preceitos matemáticos e geométricos muito precisos.
Num afresco de Botticelli, santo Agostinho é retratado estudando, a biblioteca atrás dele recriada em mínimos detalhes e seu rosto aceso, vivo.
"É uma luz claríssima, que toca todos os objetos no quadro", descreve Alessandro Delpriori, um dos curadores da mostra. "Esse é um bom modelo da escola florentina."
De fato, a terra onde Filippo Brunelleschi projetou a cúpula da catedral da cidade, serviu de berço para o movimento, com a nobreza querendo refundar ali uma nova Atenas, uma cidade movida à luz do rigor matemático.
Nos estudos de Michelangelo para dois portais romanos, isso fica claro pelo resgate que faz das estruturas da arquitetura antiga. São colunas gigantescas, inabaláveis.
Fra Angelico, florentino que trabalhou em Roma a serviço da Santa Sé, mostra bem a transição do período gótico, de figuras toscas e suntuosos fundos dourados, à claridade espartana da geometria.
É talvez nesse ponto que Rafael seja uma figura de transição. Sua perspectiva sem falhas não afoga a beleza da figura humana, muito menos sua carnalidade. É no vermelho profundo do manto e no rosto de doçura sublime de seu "Cristo Abençoando", de 1506, que o pintor de Urbino revela sua abertura às outras escolas renascentistas.
Editoria de Arte/Folhapress
COR E 'SFUMATO'
De certa forma, o rigor de Florença vai dando lugar a um derretimento dos traços e uma overdose de tons cada vez mais vibrantes na rota em direção ao norte, chegando ao ápice da cor em Veneza.
Na "Anunciação" de Giovanni Bellini, de 1489, as cores são estridentes. Embora o ambiente atrás das figuras siga as leis da geometria, é a intensidade da cor que parece importar. Também o tecido anguloso das roupas do anjo lembra papel amassado, de forte luminosidade, aceno a pintores nórdicos e flamengos, de traços mais duros.
Também no norte, em Milão, terra de Da Vinci, esse diálogo com os pintores nórdicos foi mais intenso, com a diferença que o autor da "Mona Lisa" soube reinventar a representação da paisagem com o "sfumato", técnica que dava a impressão de uma luz mais difusa, com personagens envoltos na atmosfera.
Embora sua "Leda e o Cisne", que está na mostra, ainda não tenha esse efeito, artistas do norte como Ticiano também souberam mergulhar personagens nessa luz mais natural, como se soprados por uma brisa solar.

sexta-feira, junho 21, 2013

Antonio Bandeira, Cais noturno

http://www.blogdoims.com.br/ims/antonio-bandeira-cais-noturno-%E2%80%93-por-ana-candida-de-avelar-fernandes/

Por Ana Cândida de Avelar


Antonio Bandeira
Cais Noturno, 1962/1963
Óleo sobre tela
97 x 162 cm


Em Cais noturno (1962/1963), pinceladas vermelhas e amarelas são aplicadas sobre um fundo negro. Uma camada de tinta branca produzida pelo derramamento de tinta das bordas para o centro, provavelmente ao inclinar a tela em diferentes direções, mostra-se, desse modo, destituída da gestualidade da pincelada. O efeito não é de espontaneidade, como nos gotejamentos de Jackson Pollock, mas de planejamento e ação contida. Sobrepondo-se às camadas mencionadas, estabelece-se uma grade azul descontínua e de traçado irregular – intuitiva até – que não estrutura propriamente a composição. Em alguns momentos, as linhas azuis horizontais e verticais ultrapassam o limite da tela estendendo-se pela moldura; um procedimento também utilizado por outros artistas visando integrar o suporte ao trabalho. Apesar do caráter abstrato da composição, é evidente a referência à paisagem noturna – pontos luminosos se projetam devido às cores vibrantes em meio ao efeito de profundidade criado pelo uso do preto.
Na época em que esse trabalho é produzido, Bandeira já havia vivido em Paris por muitos anos, desde meados de 1940, participado de várias Bienais de São Paulo e de Veneza, exposto em diversos museus e galerias no Brasil e no exterior, em mostras tanto coletivas como individuais. Muitos críticos se interessaram por seu trabalho – Antonio Bento, Clarival do Prado Valladares, Lourival Gomes Machado, Mário Pedrosa. Mesmo Waldemar Cordeiro, líder do grupo concreto Ruptura, escreve sobre a pintura de Bandeira. É considerado, portanto, um artista consagrado.
Durante o período inicial da estada de Bandeira na França, quando o pintor chega a Paris com uma bolsa de estudos oferecida pelo governo francês (no Brasil, seu trabalho tendia a uma figuração de sabor expressionista, com certo teor dramático), assiste às aulas da Escola Nacional Superior de Belas Artes, mas abandona essa instituição interessado em estudos menos tradicionais, frequentando então a Académie de la Grande Chaumière.
Nessa primeira temporada, permanece em Paris entre 1946 e 1950, período em que se desenvolve e se difunde a abstração expressiva, frequentemente interpretada como uma resposta ao clima de pessimismo generalizado decorrente das duas grandes guerras que prevalecia na Europa desse momento. A leitura mais comum desse abstracionismo não geométrico e gestualizado entende essa pintura como uma negação das possibilidades de construção da forma.
Todavia, a obra de Bandeira, entre outros artistas daquele momento, se estabelece entre a “dissolução e a construção” ou entre “a fluidez e a solidez”, nas palavras de Ruben Navarra. Embora o crítico paraibano estivesse se referindo à produção figurativa anterior do artista, a ideia de reunir qualidades opostas com o sentido de expressão versus estrutura serve perfeitamente para indicar que o uso da grade em conjunto com a mancha, como acontece em Cais noturno, opera no intervalo ou na interseção entre o construtivo ou abstrato-geométrico e a abstração lírica. Ao mesmo tempo, demonstra como esses polos supostamente dicotômicos podem se encontrar, embora os discursos de época sugiram a oposição entre racionalidade e expressão ou subjetividade. Árvores contra construção (1951) parece indicar que Bandeira, desde então, embora inicialmente apenas nas obras em papel, domina conscientemente o uso simultâneo dessas linguagens formais, associando uma grade gráfica, delineada delicadamente, a manchas sutis, decorrentes da utilização do guache bastante diluído.
Bandeira não estava sozinho nessa via intermediária; na realidade ele exemplifica produções de muitos artistas que atuavam no limite entre essas posturas formais. As posições mais radicais de alguns artistas abstratos eram, muitas vezes, estratégias retóricas ou momentâneas, a serviço da defesa de um grupo e conquista de espaço no meio artístico. Basta observar como, nesse segundo pós-guerra e até a primeira metade do decênio de 1960, inúmeros artistas transitaram entre vários procedimentos da abstração, mostrando interesse por experimentar diferentes linguagens não-figurativas.
Quando Bandeira chega ao continente europeu, o alemão Wols, pintor atualmente considerado paradigmático da vertente expressiva, estava estabelecido na França e já desenvolvia uma pesquisa nesse sentido. O trabalho de Wols habita um intervalo entre abstração e figuração, optando por formas aparentadas com elementos orgânicos, porém inidentificáveis. Tais formas são geralmente centralizadas e geradas por grossas camadas de tinta, o chamado impasto, que recebem incisões de um instrumento pontiagudo provocando a extração de parte da matéria acumulada.
Embora seja recorrente na bibliografia sobre Bandeira a referência à amizade com Wols, sugerindo uma aproximação entre o trabalho de ambos, que existe apenas em raros momentos, basta um simples cotejamento entre as obras para se notar que a maioria das pinturas do brasileiro assume soluções distintas daquelas do pintor alemão. Se essa convivência teve conseqüências, talvez não tenham sido tão aparentes nas escolhas formais desses artistas. No entanto, é provável que, por intermédio de Wols, um artista respeitado no meio artístico parisiense do pós-guerra, Bandeira tenha transitado entre círculos de artistas interessados pela abstração lírica, pois é evidente, tanto nos trabalhos como nos escritos que deixou, seu domínio do debate acerca do abstracionismo expressivo que se configura naquele momento.
Segundo alguns comentadores, Wols, Bandeira e o pintor e poeta Camille Bryen teriam formado o grupo Banbryols, que acabaria com a morte precoce de Wols. A existência desse grupo já foi questionada, porém, se o cotejo se der entre a obra de Bandeira e Bryen, surgem diálogos formais possíveis. Bryen opera, por vezes, com estruturas similares às grades de Bandeira, entretanto estas sofrem mais intervenções, resultando no quase desaparecimento das estruturas e num efeito mais enfático de dispersão.
Mais especificamente, também é possível aproximar o modo de abstração de Bandeira daqueles desenvolvidos por Roger Bissière e Alfred Manessier, figuras centrais do abstracionismo parisiense nos anos 1930, portanto, antes do que viria a ser denominado “informal”, um tipo de abstração mais gestualizada desenvolvida e difundida após 1945. Bissière havia ministrado aulas na Academia Ranson, em Paris, incentivando artistas mais jovens, como Manessier, Maria Helena Vieira da Silva e Jean Le Moal, a desenvolver uma abstração expressiva a partir da natureza. É evidente o compartilhamento de uma estrutura semelhante na produção de todos eles e, se observadas de perto, não deixam de ecoar composições de Paul Klee.
Em 1941, a exposição Jovens pintores da tradição francesa apresenta obras de Manessier, Le Moal e Jean Bazaine, entre outros, visando assim marcar essa pintura como uma nova manifestação da arte nacional – reafirmando o caráter “francês” da produção abstrata contemporânea. Outro dado curioso acerca de Manessier e Bazaine é a relação com o catolicismo, que, ao mesmo tempo que permeia o interesse pela abstração, buscando um afastamento da iconografia tradicional em direção a novas formas, favorece uma resposta otimista à situação do pós-guerra.
Bandeira certamente tomou contato com essa produção bastante popular na época em que se transfere para a capital francesa. Em pinturas do final dos anos 1940, ele trabalha paisagens geometrizadas, antecedentes mais próximas da abstração estruturada em grades, que passa a produzir nos primeiros anos de 1950. A figuração não é abandonada por completo, mas permanece como assunto e base para organizar a composição.
A percepção de Navarra sobre a simultaneidade do construtivo e do informal – que sugere pelo termo “dissolução”, no sentido de forma dissolvida, irregular, sem contornos precisos – ressoa na escrita do cronista Rubem Braga, que descreve a produção de Bandeira como um “construtivismo sem dureza” cuja “disciplina da composição não estraga o frescor da invenção lírica”. A grade é uma constante nos trabalhos dos anos 1950, atuando como um anteparo das formas que parecem prestes a se dispersar.
Nos anos que se seguem a Cais noturno, Bandeira alterna o uso intensivo da grade, que cobre praticamente toda a tela tornando-se elemento principal e de fato estruturando o espaço – A grande cidade (1964) e Cidade (1964) – com a dispersão das linhas, acompanhada de respingos concentrados em algumas áreas do trabalho quase que encobertando completamente o que restou das linhas verticais e horizontais – L’arbre s/bleu (1965).
“Ordenado, mas como as estrelas.” A frase de Padre Antônio Vieira, apropriada pelo historiador e crítico Luiz Marques para discutir a obra de Bandeira, ilumina o paradoxo que encerra a obra do pintor: nos toques pontuais e comedidos do pincel, alinhavado pelo uso atento da estrutura e de uma geometria mais livre, mostra-se o convívio entre construção e expressividade. A ausência de rigidez dos trabalhos, enfim, possibilita vislumbrar como as coisas no mundo se organizam de forma flexível, sem tanto rigor, mesmo quando previamente planejadas.
Ana Cândida de Avelar é doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pela ECA/USP

quarta-feira, maio 22, 2013

Cada época inventa seu próprio Wagner, afirma historiador

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1283151-cada-epoca-inventa-seu-proprio-wagner-afirma-historiador.shtml

22/05/2013 - 18h02

DA DEUTSCHE WELLE


"Eu odeio Wagner. Mas de joelhos." A frase do compositor e regente americano de origem judaica Leonard Bernstein encerra o livro "Richard Wagner und die Deutschen - Eine Geschichte von Hass und Hingabe" ("Richard Wagner e os alemães - Uma história de ódio e devoção", em tradução livre).
Para o autor Sven Oliver Müller, nada melhor do que essa ambivalente confissão de amor para sintetizar os sentimentos despertados pelo compositor, poeta e pensador alemão --não só em sua terra natal, como em todo o mundo culto.
No entanto, o historiador --que dirige um grupo de pesquisa sobre música e emoção no Instituto Max Planck-- concentrou-se em traçar um histórico do fenômeno Wagner na vida pública e na sociedade da Alemanha. O resultado, como avaliou durante uma entrevista coletiva em Berlim, é "metade ciência, metade crônica de cultura".
Trinquart/Associated Press
O compositor alemão Richard Wagner (1813-1883)
O compositor alemão Richard Wagner (1813-1883)
PROIBIDO FICAR INDIFERENTE
"Com outros compositores, as pessoas dizem: 'É, gosto do Mozart... Bach, eu às vezes acho meio chato...'", exemplifica Müller. Mas quando se trata do criador de "O Anel do Nibelungo", tal grau de equanimidade está fora de cogitação. Wagner sempre polarizou emoções --em vida, desde as primeiras óperas; porém mais ainda nos 130 anos transcorridos desde sua morte.
Assim, o prólogo do livro --ou "ouverture", como o autor prefere denominá-lo-- intitula-se "A Morte em Veneza e o Nascimento de um Gênio". Sven Müller anuncia: "A pessoa de Wagner, sua obra e o wagnerismo podem ser considerados parte integrante da história alemã entre 1883 e 2013. Neste sentido, a carreira póstuma do compositor é uma expressão dos desdobramentos políticos e culturais na Alemanha."
Nos cinco "atos" seguintes, Müller acompanha sistematicamente a trajetória do gênio músico-literário através dos grandes capítulos da História do país: o Império Alemão (epigrafado "Muitos inimigos, Muita Honra"), a República de Weimar ("Orgulho Ferido"), o nacional-socialismo ("Glorificação e Compulsão"), a Alemanha dividida ("Crime e Castigo"), e após a reunificação ("Razão e Sensualidade").
UMA PESSOA "FUNDAMENTALMENTE RUIM"
E por falar em polarização, ao apresentar à imprensa seu ensaio de 350 páginas, o pesquisador natural da cidade de Siegburg e atuante em Berlim não tenta afetar neutralidade científica: o objeto de seus estudos era um ser humano abominável.
Melômano confesso, Müller lê "de vez em quando" biografias de compositores, e afirma não ter encontrado, até hoje, um caráter tão abjeto quanto o de Richard Wagner. Culto, brilhante, charmoso, envolvente, ele também era, afirma o historiador, uma pessoa "fundamentalmente ruim", em todos os aspectos imagináveis: oportunista, desleal, arrogante, prepotente, megalomaníaco, egocêntrico, interesseiro, mulherengo, frívolo, perdulário, explorador - a lista é longa.
Os episódios da biografia wagneriana que sustentam tais imputações são bem documentados. O fato de que só sob ordem judicial ele pagava os inúmeros empréstimos com que mantinha uma vida de luxo insano; o modo traiçoeiro como difamava seus colegas e apoiadores, de Giacomo Meyerbeer e Felix Mendelssohn ao futuro sogro Franz Liszt; ou como explorou as inclinações homossexuais de Ludwig 2º da Baviera, a fim de conquistá-lo como mecenas.
Notória também a forma como traiu sua primeira mulher, Minna, com a esposa do benfeitor Otto Wesendonck, que o sustentava e o recebera na própria casa. Com sua segunda mulher, Cosima, Wagner manteve um romance e chegou a ter dois filhos --enquanto ela ainda era casada com Hans von Bülow, fiel regente das obras wagnerianas.
Por último, mas não menos relevante, foi a mutação de Wagner, paulatina, porém radical, de anarquista convicto em 1848, a monarquista e nacionalista em 1870, sempre seguindo o faro das fontes mais certas de dinheiro e outros favores.
NAZISTA A POSTERIORI?
Adolf Hitler adorava a música de Wagner, e o regime nazista não hesitou em se apoderar dela como instrumento de manipulação das massas. Para piorar, a admiração do líder pela obra do músico foi generosamente retribuída pelos herdeiros de Wagner, em nível pessoal, e o Führer era não só convidado de honra dos festivais de ópera de Bayreuth, como hóspede frequente na propriedade da família --para as crianças, o "Tio Wolf".
Essa associação --tão inextricável quanto retroativa-- com o regime nazista projeta uma sombra tão espessa que, até hoje, fecha os ouvidos e olhos de muitos para qualquer mérito musical, dramatúrgico ou literário na obra de Wagner. Em Israel, ela segue sendo tabu quase absoluto --e, segundo a previsão de Müller, permanecerá assim por um bom tempo.
Em 1999, Joachim Köhler radicalizou essa fatídica conexão no livro "O Hitler de Wagner: O Profeta e seu Executor" ("Wagners Hitler: Der Prophet und sein Vollstrecker"). O título é bem explícito: segundo o autor, o Terceiro Reich não teria sido possível sem a influência do compositor, e Adolf Hitler foi, no fundo, mais uma personagem wagneriana, como Siegfried, Tahhhäuser ou Lohengrin. A polêmica tese ainda causa furor, mesmo mais de uma década depois de lançada.
ANTISSEMITISMO OPORTUNISTA
Sobre Richard Wagner e o antissemitismo muito já foi dito e escrito. Previsivelmente, o tema ocupou papel central durante a entrevista coletiva com Sven Müller na capital alemã. Não se discute: Wagner era antissemita. Quem tenha qualquer dúvida, basta dar uma olhada em seu escrito "O Judaismo na Música", de 1850-69.
No entanto, o historiador ressalva: maldizer os judeus era perfeitamente "cool" entre a sociedade europeia do século 19. E não se esqueça: Wagner sempre esteve cercado de judeus, entre benfeitores e colaboradores dedicados --como o regente Hermann Levi.
Portanto, mais do que expressão de uma convicção sociológica ou de um ódio pessoal cego, o libelo em questão seria, antes, um testemunho do oportunismo característico do compositor, de seu talento para perceber, sintetizar, exagerar as tendências do momento - e se aproveitar delas. "Wagner sempre foi mainstream", resume Müller.
Nada disso, é óbvio, torna "O judaísmo na Música" menos pernicioso. Basta considerar como fez escola sua tese de que os judeus podiam ser excelentes intérpretes ou imitadores, mas jamais verdadeiros artistas criadores. Várias décadas mais tarde, esses argumentos de cunho racista continuariam servindo de munição crítica contra grandes compositores de origem judaica, como Gustav Mahler ou Arnold Schoenberg.
O GÊNIO REPOLITIZADO
O título do breve último capítulo do livro de Müller --seu "finale", na terminologia operística-- é uma pergunta: "Os traços de Wagner se perdem no século 21?". A resposta do historiador é um decidido "não". Pois os alemães provaram que o querem como parte de sua herança cultural, a todo custo. E a habilidade do gênio de polarizar, de provocar emoções exacerbadas, permanece em plena potência.
Não só por seus titânicos méritos artísticos, como graças a suas inconciliáveis contradições internas e a sua adaptabilidade camaleônica --justamente aquelas características que o faziam e fazem tão indigesto, como contemporâneo e como personagem histórica.
Por outro lado, na Alemanha pós-reunificação nota-se uma gradativa despolitização de Richard Wagner, aponta Sven Oliver Müller. Ou melhor: há ondas alternadas de despolitização e repolitização --como mostrou o súbito episódio de 2012, em torno do barítono russo Evgueni Nikitin e a tatuagem de suástica, em Bayreuth. Porém a tendência geral é à normalização de Wagner --que o historiador espera jamais seja completa, pois isso significaria também perder noção dos horrores do nacional-socialismo.
"Os mitos de Wagner e o mito Wagner não só seguiram sendo narrados na história alemã, como também transformados, reinterpretados e variados, de forma a servir aos interesses e valores dos autores. [...] Os papéis públicos designados a Wagner acompanharam, em grande parte, as transformações da sociedade alemã --e triunfaram ou fracassaram com ela". Em outras palavras: "Cada sociedade inventa para si o seu próprio Wagner".