"É CLARO QUE, COMO TODO ESCRITOR, TENHO A TENTAÇÃO DE USAR TERMOS SUCULENTOS: CONHEÇO ADJETIVOS ESPLENDOROSOS, CARNUDOS SUBSTANTIVOS E VERBOS TÃO ESGUIOS QUE ATRAVESSAM AGUDOS O AR EM VIAS DE AÇÃO, JÁ QUE A PALAVRA É AÇÃO, CONCORDAIS?" CLARICE LISPECTOR - "A HORA DA ESTRELA"
segunda-feira, julho 23, 2012
A TV do futuro
A velha TV da sala, com sua centena de canais, agigantou-se e está sendo transmitida para táxis em movimento, celulares no metrô e, no futuro próximo, em HD e quem sabe em 3D para qualquer tela.
Acabou a televisão que conhecíamos até pouco tempo atrás. E, com essas e outras mudanças de tecnologia, mudam os modos de produção, os modos de distribuição e assim mudarão os conteúdos deste planeta chamado audiovisual.
No futuro, tudo será tela. Agora, no Natal de 2012, o grande presente popular será um tablet. A segunda tela estará ligada nas redes sociais -enquanto assistimos ao show do Roberto, comentando as músicas com os nossos amigos da web.
Ou será que a própria tela da sala vai se dividir, metade TV e metade internet, num show de interatividade?
Os programas ao vivo serão o coração da TV do futuro, como diz o Boni? E a regulamentação de faixa etária? Como ficará, se as telas tendem para a vida sem fronteiras? O que é "conteúdo impróprio" para tempos onde se nasce no Youtube?
Existirá programação regional de TV? Quem contará o que acontece no meu bairro? Como competir com a "qualidade do mundo"?
E as histórias encantadas em novelas, filmes e minisséries? Devem continuar, claro, afinal uma boa história é o começo e o fim de tudo.
Mas as obras de ficção deverão ser fortes "on demand". E aí como fica a publicidade de trinta segundos que é o que ainda sustenta a TV? Vai virar "product placement" (inserção de produtos nos programas)? "Branded content" (conteúdos vinculados às marcas)? O comércio nas telas tende para o merchandising?
Se estaremos em interatividade e conteúdo transmídia, como ficarão as narrativas? E, falando em futebol, a Copa de 2018 vai ser transmitida pela Apple? Faz sentido, certo?
Serão muitas fontes de informação e entretenimento. Quem assistirá tanta notícia? E como ficarão os direitos autorais de quem cria, se temos tudo tão fácil para download gratuito? Novas formas de encriptar o conteúdo surgirão? Ou a invenção pirata será sempre mais rápida?
O mercado será o dono do conteúdo? As marcas terão canais próprios com conteúdos significativos? O que é significativo?
O desejo de mercado pode se unir ao objetivo social? Quem cobrará isso? O público, o Estado? Como farão isso? E a educação via TV?
Hoje, a pergunta que sempre me ocorre é: por que não vemos a TV correr riscos? Será que as agências de publicidade, aliadas às emissoras tradicionais de TV, conseguirão atrasar a revolução audiovisual por muito mais tempo? As empresas de telefonia virão destoar o coro dos contentes produzindo conteúdo interativo em escala industrial?
A TV continuará sendo a detentora da maior fatia de publicidade por quanto tempo? A internet já está em segundo, crescendo. Como ficará a medição de audiência de um programa que pode ser exibido em tantas telas em tempos diferentes? É isso o que o mercado e a torcida do Flamengo querem saber. Rápido!
E o poder? Como ficará a política e a representatividade cidadã com tantas telas? Revelar-se-á de quem são as mãos sujas da corrupção? A punição online é iminente? Enfim, onde está a inovação? O que virá depois do Youtube, do Twitter e do Facebook? Estamos como dinossauros estupefatos diante da certeza da queda de um asteroide em nosso planeta de audiovisual.
Caraca! Onde estamos e para onde estamos indo? Está claro que sem foco no desenvolvimento social teremos só tecnologia e mercado. Não haverá sonho, seja lá o que isso for. Mas, sem isso, para que então?
Ah! Eu casei neste domingo. Uma pequena celebração em família. Não foi transmitida para lugar nenhum.
TADEU JUNGLE, 54, diretor de cinema e TV, é sócio do Grupo Ink, produtor de audiovisual
JOÃO RAMIREZ, 32, é diretor-executivo da produtora digital Colmeia
segunda-feira, novembro 21, 2011
O erro de Foucault
foram importantes no "último Foucault"
Luiz Felipe Ponde
Você sabia que o pensador da nova esquerda Michel Foucault foi um forte simpatizante da revolução fanática iraniana de 1979? Sim, foi sim, apesar de seu séquito na academia gostar de esconder esse "erro de Foucault" a sete chaves.
Fico impressionado quando intelectuais defendem o Irã dizendo que o Estado xiita não é um horror.
O guru Foucault ainda teve a desculpa de que, quando teve seu "orgasmo xiita", após suas visitas ao Irã por duas vezes em 1978, e ao aiatolá Khomeini exilado em Paris também em 1978, ainda não dava tempo para ver no que ia dar aquilo.
Desculpa esfarrapada de qualquer jeito. Como o "gênio" contra os "aparelhos da repressão" não sentiu o cheiro de carne queimada no Irã de então? Acho que ele errou porque no fundo amava o "Eros xiita".
Mas como bem disse meu colega J. P. Coutinho em sua coluna alguns dias atrás nesta Folha, citando por sua vez um colunista de língua inglesa, às vezes é melhor dar o destino de um país na mão do primeiro nome que acharmos na lista telefônica do que nas mãos do corpo docente de algum departamento de ciências humanas. E por quê?
Porque muitos dos nossos colegas acadêmicos são uns irresponsáveis que ficam fazendo a cabeça de seus alunos no sentido de acreditarem cegamente nas bobagens que autores (como Foucault) escrevem em suas alcovas.
No recente caso da USP, como em tantos outros, o fenômeno se repete. O modo como muito desses "estudantes" (muitos deles nem são estudantes de fato, são profissionais de bagunçar o cotidiano da universidade e mais nada) agem, nos faz pensar no tipo de fé "foucaultiana" numa "espiritualidade política contra as tecnologias da repressão".
E onde Foucault encontrou sua inspiração para esse nome chique para fanatismo chamado "espiritualidade política"?
Leiam o excelente volume "Foucault e a Revolução Iraniana", de Janet Afary e Kevin B. Anderson, publicado pela É Realizações, e vocês verão como a revolução xiita do Irã e seu fascínio pelo martírio e pela irracionalidade foram importantes no "último Foucault".
As ciências humanas (das quais faço parte) se caracterizam por sua quase inutilidade prática e, portanto, quase impossibilidade de verificação de resultados.
Esse vazio de critérios de aplicação garante outro tipo de vazio: o vazio de responsabilidade pelo que é passado aos alunos.
Muitos docentes simplesmente "lavam o cérebro" dos alunos usando os "dois caras" que leram no doutorado e que assumem ter descoberto o que é o homem, o mundo, e como reformá-los. Duvide de todo professor que quer reformar o mundo a partir de seu doutorado.
Não é por acaso que alunos e docentes de ciências humanas aderem tão facilmente a manifestações vazias, como a recente da USP, ou a quaisquer outras, como a dos desocupados de Wall Street ou de São Paulo.
Essa crítica ao vazio prático das ciências humanas já foi feita mesmo por sociólogos peso pesado, em momentos distintos, como Edmund Burke, Robert Nisbet e Norbert Elias.
Essa crítica não quer dizer que devemos acabar com as ciências humanas, mas sim que devemos ficar atentos a equívocos causados por essa sua peculiar carência: sua inutilidade prática e, por isso mesmo, como decorrência dessa, um tipo específico de cegueira teórica. Nesse caso, refiro-me ao seu constante equívoco quanto à realidade.
Trocando em miúdos: as ciências humanas e seus "atores sociais" viajam na maionese em meio a seus delírios em sala de aula, tecendo julgamentos (que julgam científicos e racionais) sem nenhuma responsabilidade.
Proponho que da próxima vez que "os indignados sem causa" ocuparem a faculdade de filosofia da USP (ou "FeFeLeCHe", nome horrível!) que sejam trancados lá até que descubram que não são donos do mundo e que a USP (sou um egresso da faculdade de filosofia da USP) não é o quintal de seus delírios.
Agem com a USP não muito diferente da falsa aristocracia política de Brasília: "sequestram" o público a serviço de seus pequenos interesses.
No caso desses "xiitas das ciências humanas", seus pequenos delírios de grande "espiritualidade política".
sexta-feira, setembro 09, 2011
VIVA A TECNOMACUMBA!
Caetano Veloso tem algumas perguntas a respeito de Rita Ribeiro:
“Quem é essa cantora que tem a emissão lisa (sem vibratos) mais impressionante que ouvi em muito tempo? De quem é essa voz encorpada e delicada, de quem são esses glissandos seguros e de grande efeito experimental sem sombra de vulgaridade?”.
A própria Rita ofereceu respostas brilhantes a esses questionamentos na quinta-feira (8), quando São Luís do Maranhão comemorou seus 399 anos. E não poderia ter recebido presente melhor.
A programação estabelecida pela Prefeitura tucana, se não foi espetacular, teve o mérito de ser aprovada pelo público que compareceu em massa à Praça Maria Aragão. Os pontos altos da festa sem dúvida foram as apresentações do grupo Vamu di Samba, do Coral São João e, claro, da Tecnomacumba.
Rita Ribeiro iniciou seu banho de talento de forma magnífica, acompanhada pelas caixeiras do Divino Espírito Santo da Casa Fanti Ashanti. Devido ao espaço delimitado na lista de atrações, a intérprete – como ela mesma afirmou – não teve condições de levar ao palco o melhor da cultura maranhense na homenagem feita a Upaon-Açu naquela noite.
Mas na sequência Rita simplesmente destruiu. Não sou especialista no assunto, mas senti que a aparelhagem que ela e sua banda utilizaram não estava cem por cento. Pelo menos não comprometeu. O público foi cativado logo de cara, com “Moça Bonita” – pontuada pelas risadas de pomba-gira da cantora. Caetano novamente, agora sobre o trabalho de Rita: “O repertório é uma antologia de composições sobre o tema das religiões africanas no Brasil - sempre emolduradas por cantos saídos diretamente dessas práticas religiosas”. Por e essas e por outras ela foi indicada ao Grammy.
Fomos brindados, por exemplo, com “Iansã”, e todos nós cantamos junto com ela o refrão “Iansã, cadê Ogum?/ Foi pro mar!/ Mas Iansã, cadê Ogum?/ Foi pro mar”. Os mais velhos na certa recordaram-se da interpretação de Clara Nunes, e os jovens mais antenados ao panorama musical apreciaram essa evocação das raízes africanas, sempre muito presentes na cultura maranhense, tanto quanto a batida cadenciada das caixeiras do Divino.
Rita Ribeiro conquistou de vez o povo presente na praça com a excelente “Filhos da precisão”, de Erasmo Dibel. Um reggae que foi aprovado por unanimidade e com louvor e me fez pensar em um poeta menor que publicou em versos sua declaração de amor a São Luís em um jornal daqui da cidade (não este, graças a Deus), e no meu entendimento não poderia ter saído com infelicidade maior ao condenar o epíteto de “Jamaica Brasileira”, associado à capital maranhense. Todo mundo tem direito de expressar as próprias opiniões e nós, formadores das mesmas, devemos defender esse direito até a hora da nossa morte. Tenho apenas uma observação a fazer. Quando Rita deu início a “Fuzileiros de elite”, de Josias Sobrinho, cheguei à seguinte conclusão:
Quem disse que São Luís não pode ser a Jamaica Brasileira está redondamente equivocado. Nossa capital é uma espécie de balaio, no qual todas as vertentes musicais e artísticas podem e devem conviver harmoniosamente. Ora, no show em questão teve espaço até para a “Garçom”, que consagrou o ótimo Reginaldo Rossi.
Só para provar que é no pé do lajeiro que a Rita Ribeiro mora.
segunda-feira, julho 18, 2011
OS DEGRAUS DA FAMA
A propósito de que venho eu com esta análise? Bom, é que outro dia li na “Revista da TV” a palavra “subcelebridades” relacionadas a duas das espetaculosas panicats – Juliana Salimeni e Nicole Bahls -, que recentemente se estranharam no Twitter e por isso foram afastadas temporariamente do “Pânico”.
Nunca assisti a esse programa. Pelo que sei dele, usa e abusa do besteirol para fazer graça e amealhar os preciosos índices de audiência. Mas não como negar uma estratégia do caramba adotada pelos seus criadores: colocar no palco mulheres belíssimas, muito gostosas e, mais importante, seminuas. A ideia deve ter sido esta: fazer as teúdas e manteúdas rebolarem à vontade para atenuar os efeitos das bobagens despejadas no juízo do telespectador.
Pois essas benditas “panicats” acabam de ser rebaixadas a subcelebridades. Ou seja, são famosas, mas nem tanto. Podem ser classificadas (até pela questão do corpaço que apresentam) como “fenômenos”. Nesse caso, não como deixar de lembrar do pintor norte-americano Andy Warhol, um dos primeiros artistas que trabalharam com produtos de larga aceitação popular, como, por exemplo, garrafas de Coca-Cola.
Disse Warhol: “Um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”. Ainda que ninguém precise de uma bola de cristal para prever o óbvio ululante, essa profecia começou a se confirmar com maior contundência quando apareceu na televisão o primeiro reality show. Ou seja, os 15 minutos iniciais de Andy extrapolaram para o tempo de duração de um Big Brother.
Uma crítica comum feita a essas pessoas que tem uma noção por vezes equivocada de sua própria importância na seara midiática é que elas não primam pela inteligência. Nem pelos dons artísticos que porventura possam apresentar. Não posso concordar com ela. Uma Vênus platinada que posa para a “Playboy” ou a “Sexy” não se limita apenas a seios e bumbuns siliconados ou a um abdômen sarado. Pode ser que não tenha capacidade de escrever contos, peças, crônicas, romances e novelas. Mas pode muito bem se mostrar brilhante em alguma área do conhecimento.
Também não posso concordar com reflexões segundo as quais a explosão desses fenômenos se deve a uma “queda de valores da sociedade atual”. Até porque todos os grupos sociais minimamente bem-informados ou capazes de formar opinião ao longo da história observaram criaturas que buscaram a glória instantânea e na sequência estilosa desapareceram ou então procuraram modificar seu ramo de atuação para permanecer em evidência por mais 15 minutos.
Agora, o problema dessas subcelebridades é que a maioria não consegue se manter depois da atração de que fizeram parte. Quem sabe o que faz hoje em dia um desses “brothers” eliminado logo na fase inicial do programa? Em boa parte dos casos, só vamos ter notícias desses indivíduos infelizmente quando aparece no telejornal a notícia de que faleceram – como no caso do André Caubói, assassinado com um tiro na nuca no interior de São Paulo.
Ou como diram os Titãs: “Quinze minutos de fama/ Mais um pros comerciais/ Quinze minutos de fama/ Depois descanse em paz”.
terça-feira, junho 21, 2011
ESSAS PALAVRAS...
Porque o grande lance, aqui e agora, é comentar um pouco a respeito das impressões que algumas palavras causam em seus falantes e dizentes. Querem um bom exemplo? “Indefectível”. Está mais para um problema da Vigilância Sanitária do que uma palavra (ou vocábulo, vá lá...) propriamente dita.
Vejam o caso da “calúnia” do trecho citado no parágrafo inicial. Parece querer encostar o dedo indicador no seu nariz. “Isso é uma calúnia, seu sem-vergonha!”. É praticamente uma declaração de guerra.
E quanto às palavras que hoje encontram-se encarceradas nos dicionários e não encontram uso nos tempos atuais, emeessiênicos, feicebuquianos e orqutantes? “Tertúlia” deve ter comemorado 200 anos antes do último eclipse. Uma reunião de parentes e amigos hoje em dia pode ser definida como “cachaçada”. Ou então “qualquer motivo que mais de dois encontram para devorar um pato”.
“Garatuja” tem oito patas, três antenas, se reproduz assexuadamente e tenta roer as páginas dos livros quando pensa que ninguém está olhando. “Boquirrasgado”, então, é praticamente um atentado ao pudor. Já quanto a “larápio” todo cuidado é pouco. Esta palavra está sempre pronta a tomar seu relógio na Rua Grande ou então a puxar sua carteira enquanto você está tirando fotos de vilas juninas.
Agora, fico pensando nas palavras com sentido psicológico-psiquiátrico diferente daquele que conhecemos. Vejam o caso de “carrasco”. Para mim, soa mais como se eu estivesse tentando tirar uma espinha presa à minha garganta. Como se vê, longe da imagem negativa atribuída a certos patrões que a gente tem na vida.
“Gostosa” sai da boca toda cheia de saliência, repleta de terceiras intenções. Agora veja como essa “potência” das palavras é estranha e um tanto quanto meio doida: a própria “saliente” já não me leva a pensar em safadezas. Muito pelo contrário. Só me lembra de como os mais atrevidos eram devidamente castigados, quando éramos crianças pequenas lá no Bairro de Fátima. Vai entender.
“Mefítico” é para quem tem problemas com gases. Com “vergastar” a preocupação com chicotadas e pancadas semelhantes tem de ser redobrada. Mas para quem gosta de um pouco de sadomasoquismo é mão na roda.
Portanto, meus caros amigos, cuidado com as palavras. Elas podem ter dupla ou mesmo tripla (duvido, Ironara!) face. Não esqueçam os versos da bonita composição de Vanessa da Mata: “As palavras fogem/ Se você deixar/ O impacto é grande demais/ Cidades inteiras nascem a partir daí/ Violentam, enlouquecem ou me fazem dormir/ Adoecem, curam ou me dão limites/ Vá com carinho no que vai dizer”.
Ou, nas palavras do digníssimo escritor Sergio Fonseca: “Andei perdendo palavras por aí. Talvez por falar em excesso elas me faltem agora. As que saíram aos gritos duvido que voltem. Escaparam e deixaram vítimas durante a fuga. Uma pena. Mas em esforço de guerra dizem que perdas são justificáveis”.
terça-feira, junho 07, 2011
O SEMÁFORO E O ATRASO
Um exemplo local: enquanto crianças de escolas particulares em São Paulo levam para a sala de aula smartphones e notebooks, pobres estudantes do interior maranhense nem com a escola para estudar contam – são colocadas de qualquer maneira em casas inapropriadas para o trabalho estudantil e supervisionadas pelos professores que mais recebem no mundo péssima remuneração.
E para continuar no Maranhão (porque a gente tem que criticar primeiro o que acontece no nosso quintal para falar mal do que ocorre no quintal alheio), fiquei sabendo que o município de Bacabeira enfim recebeu seu primeiro semáforo.
Os sinais do atraso estão por toda parte. Saúde, então, devia ser sinônimo de caso de polícia. Um cirurgião daqui de São Luís, após a morte de um paciente no Socorrão I, lá no Centro, denunciou as péssimas condições estruturais em que atuava. O óbito da pessoa que tentara salvar deveu-se ao absurdo de não existir compressas limpas (ou não haver compressas de jeito nenhum) no hospital. Aí, em vez de apoiar o profissional e darem o sinal verde para reformas tanto no Djalma Marques quanto na nojeira do Socorrão II, próximo à Cidade Operária, autoridades tentam desacreditar o profissional, na vã e tola tentativa de varrer os problemas para debaixo do triste tapete burocrático. Com o diria aquele personagem: “Que lástima!”.
Enquanto isso, em Brasília, tivemos a queda do chefe da Casa Civil do governo da Dona Dilma. Caso estivéssemos em um país em que as instituições e o eleitor fossem tratados com o devido respeito, qual era a do Palocci? Entregaria o cargo à presidenta quando a bola de neve da polêmica estivesse no nascedouro e responderia às denúncias tranquilamente que pipocaram tanto pelos lados da oposição quanto da base aliada. Como ao que me consta ele não enriqueceu ilicitamente, bastará a Palocci aguardar a poeira assentar para promover seu retorno à vida pública. Afinal, aqui no Brasil nada pode ser tomado como definitivo. Vejam o caso do Collor.
Discrepâncias maiores a gente vê nas telenovelas. E que são bem ruinzinhas, diga-se de passagem. Outro dia mesmo, vi uma perua correndo atrás de um garotão em uma lancha que só os muito ricos neste país podem ter. O que me faz recordar de uma cena rápida do filme “Carandiru”, na qual um presidiário enfurnado em sua pequena e abafada cela conseguia assistir, mesmerizado, a uma belíssima Claudia Raia, exuberantemente nua, caminhando em um cruzeiro altamente luxuoso. E assim o povão vai vivendo, consumindo todo santo dia, das seis às 10 da noite, uma ilusão voltada para uma determinada classe social – aquela mesma, que torce o nariz para feijoada e pagode e ainda acha que os nordestinos são os grandes problemas desta nação.
E aos trancos e barrancos – aturando valas, crateras, esgoto a céu aberto e engarrafamentos irritantes e martirizantes -, entre uma greve e outra, a nossa pobre humanidade vai caminhando. E se querem saber, o fato de Bacabeira só agora ganhar seu primeiro semáforo é dos males o menor e só ilustra o grande dito popular segundo o qual “antes tarde do que nunca”.
terça-feira, maio 10, 2011
O OUTRO LADO DA MOEDA
Para o “Novo Dicionário Aurélio”, cultura é “o conjunto complexo dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico, e que se manifestam em praticamente todos os aspectos da vida: modos de sobrevivência, normas de comportamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações materiais, etc.”.
“Normas de comportamento” é bem a expressão que desejamos abordar. Como se sabe, a relação entre indivíduos em uma sociedade vai do céu ao inferno em questão de pouquíssimo tempo. Lembro agora de uma situação ocorrida dentro de um ônibus da linha Operária/São Francisco. Após conversarem de maneira bastante exaltada durante a viagem, duas mulheres prepararam-se para descer na Cohab. O que aconteceu: uma delas puxou o cordão da cigarra no momento em que o carro havia saído da parada em que elas queriam ficar. Crentes de que o motorista iria abrir as portas para a dupla, moçoilas continuaram a bater-papo. Quando viram que o ônibus continuava em movimento, estouraram: xingaram o condutor com um repertório capaz de causar inveja ao marinheiro mais tarimbado e, uma por vez, dedicaram-se a quase arrancar o cordão.
Nos últimos dias, essas normas foram devidamente analisadas por este vosso escriba em situações superficialmente díspares, no entanto semelhantes do ponto de vista moral e cívico.
O noticiário televisivo informou a quem pudesse se interessar pelo desvio de recursos da merenda escolar que fez dezenas de crianças encherem a barriga com um sem-número absurdo das piores porcarias. Um dia depois, ficamos sabendo que, na Assembléia Legislativa do Pará, pessoas humildes eram involuntariamente usadas por meia dúzia de três ou quatro vagabundos em um esquema de corrupção que possibilitava o pagamento de salários de até R$ 10 mil a funcionários fantasmas.
Apesar das provas irrefutáveis que comprovam ambos os crimes e da identificação nominal dos principais líderes desses esquemas absolutamente covardes, nenhum dos chefes assumiu a autoria. Despejaram notas na imprensa afirmando que nada tinham a ver com tamanhas fraudes.
Agora, aqui exponho o outro lado dessa moeda. Lá no Japão, cidadãos indignados compareceram a uma audiência pública na qual foram “enquadrados” os donos da usina nuclear afetada pelo tsunami. De acordo com as acusações, não foram dadas à população moradora do entorno da usina as garantias de que elas seriam devidamente assistidas pelos executivos da usina. Estes ouviram as reprimendas sem proferir uma palavra sequer. Afinal, tinham toda a culpa no cartório e todas as evidências mostravam que eles haviam falhado em cumprir com tudo aquilo que haviam assegurado às pessoas que juraram proteger.
Permaneceram em silêncio por pouco mais de meia hora. Em seguida, envergonhados, curvaram-se, com os rostos quase tocando o chão – em um pedido de desculpas também feito sem a necessidade de palavras.
Nos tempos dos samurais, a fim de restaurarem a própria honra, esses homens teriam facilmente cometido seppuku. Aqui no Brasil, pelo jeito, falta a alguns homens públicos a honradez necessária para reconhecer seus deslizes.
terça-feira, maio 03, 2011
O PEQUENO POETA
Muito já se escreveu e outras tantas linhas ainda serão escritas a respeito da vida e da arte de José Francisco das Chagas. E todas celebrarão o mestre de “Os canhões do silêncio” como o maior e o melhor de todos os poetas maranhenses. É óbvio que poderia fazer parte do panteão dos grandes bardos nacionais – onde se encontram Drummond, Vinícius, Jobim, Cecília, João Cabral. Mas a poesia deste nosso Maranhão velho de guerra, como a sua música e o seu futebol, não nasceu para ultrapassar o Estreito dos Mosquitos.
É óbvio que José Chagas tem seus motivos para deixar ao Deus-dará uma viúva de poeta vivo – que é como a partir de agora todos observaremos a poesia destas terras timbiras. Mas acredito que ele tenha se precipitado, nessa decisão. Afinal, como se sabe, Upaon-Açu (São Luís presente) comemorará no dia 8 de setembro de 2012 quatro centúrias. Quatrocentos anos nos quais sua população diuturnamente ouvia à noite tambores do Congo, gemendo e cantando dores e saudades, a evocar martírios, lágrimas, açoites, que floriram claros sóis da liberdade.
Pois esta cidade, às vésperas de ser conhecida como uma castigada quatrocentona, merece dos nossos homens de letras um tratamento poético ou ficcional à altura de tão importante acontecimento. Por essa razão, imagino que José Chagas poderia “parir sem ser mãe” (de acordo com a frase absolutamente perfeita de José Eugênio Soares a respeito da arte da escrita) uma outra obra monumental, feita das mesmas preciosidades verbais ou mais valiosa ainda que “Os canhões...”. É claro que tantos dos nossos menestréis deverão fazer o mesmo. Espera-se muito nesse sentido de Nauro Machado, de algo tão belo quanto a “Litania da velha”, de uma vertente carregada pelos ecos da sensibilidade de Dagmar Desterro.
Fernando Braga, este grande filósofo contemporâneo, me diz, por intermédio de seu excelente ensaio a respeito de “O cirurgião de Lázaro”, de Nauro, que a “poesia como expressão verbal glorifica-se por sua extensão a explorar alogicamente os símbolos e signos representativos da linguagem humana, utilizada em fins estéticos, a procurar amparo e densidade, harmonia e sutileza em suas diversas peculiaridades conotativas, a distanciarem-se quando possível, e a cada vez mais, da elocução comum”.
Jean Cocteau, por sua vez, afirma que “a poesia é uma religião sem esperança”.
Chagas pode lhe fornecer, seguramente, algumas definições próprias a respeito do fazer poético. Logo ele, que um dia afirmou que jamais conseguiu determinar de onde é que lhe saía a vontade de versejar, quando não existia, entre seus familiares, nem em seu ambiente paraibano, quem se interessasse pelas “coisas da literatura”.
Seja como for, se a decisão do poeta se mantiver – e na verdade ele não tem por que recuar, uma vez fincada essa resolução em bases sólidas -, São Luís sentirá falta dos versos de quem mais a enalteceu, em seus quase 400 anos. E, para encerrar estas considerações a respeito de versos e perdas, fiquemos com um depoimento do mais maranhense dos bardos que nasceram em solo paraibano:
“Pessoalmente posso afirmar que valeu a pena. Para mim mesmo vale, porque, bem ou mal, pude exprimir o que eu sinto, com o instrumento que me foi dado. Nunca me preocupei, no caso, com lucro material nem em assumir essa ou aquela posição. Sempre achei que o pior não é a gente não ganhar nada com a poesia. O mais grave é a poesia não ganhar nada com a gente. Esse é que é o verdadeiro drama do pequeno poeta”.
terça-feira, outubro 19, 2010
LIVROS ESSENCIAIS
Há alguns dias, deparei-me com o volume 1 da “Coleção Super Essencial” – da revista Super Interessante, publicada pela Editora Abril. O título dessa edição especial é justamente “101 livros que mudaram a humanidade”. Do alto da minha experiência de leitor inveterado e formador de biblioteca (a minha, logicamente), posso dizer que tenho meus pontos de discordância e de concordância a respeito do que vi.
Depois de um cara ou coroa básico, resolvi começar pelas discordâncias. Logo de cara, talvez escandalize os mais puritanos: para mim, “Dom Casmurro” não pode ser relacionado como uma das obras que modificaram a espécie humana. A justificativa dos autores da revista: “Machado de Assis criou personagens-símbolo na literatura mundial (o livro foi traduzido para 19 idiomas) e é um dos marcos do realismo na literatura brasileira. O escritor explora todas as nuances psicológicas de seus personagens, que carregam traços ao mesmo tempo de heroísmo e fragilidade e sentimentos contraditórios, como amor e ódio”. Marco do realismo na literatura brasileira? Perfeito. Quanto às “nuances psicológicas”, não foi melhor do que Henry James – considerado sua contraparte européia. Mesmo a eterna dúvida da infidelidade de Capitu jamais me pareceu forte o suficiente para se colocar na lista de “grandes enigmas humanos”.
Outra obra cuja presença na lista do especial discuto com veemência: “Frankenstein”. Explicação da revista: “Surgido após um período de grande avanço das ciências, o movimento romântico foi em boa parte uma reação à idéia do Universo concebido como máquina. ‘Frankenstein’ foi a mais contundente crítica a esse novo cientificismo, que tudo desejava explicar e dominar”. Meu ponto de vista: apesar desse viés que já se aproxima do que um dia viria a ser entendido como “linguagem moderna”, o (ótimo) romance de Mary Shelley é radicalmente uma história de terror. Mas não é a história de terror. Esse papel atribuo tranqüilamente a “Drácula”. Além de conter o tal cientificismo abordado por Shelley, ainda é uma história de amor por excelência – de amor eterno, sobrevivente às maresias do tempo.
Passemos às concordâncias. Preciso dizer que a revista acertou em cheio com “Dom Quixote”? É a grande comédia da história da literatura. O grande romance de aventuras. O grande drama. A mescla perfeita entre maneirismo e barroco. O deslocamento da trama do patético para o burlesco. Vejo também na lista “On the Road – Pé na Estrada”, de Jack Kerouac. A obra-prima da famosa “Geração Beat”, cujos participantes foram por assim dizer os ancestrais do movimento hippie. Afinal de contas, os poetas, escritores e artistas que dela fizeram parte simplesmente um dia “pegaram a viola, colocaram na sacola e foram viajar”. E nessa aventura de girar pelos Estados Unidos por estradas por eles até então desconhecidas, foram criando aqui e acolá sociedades alternativas, nas quais os limites impostos eram os estabelecidos pela criatividade de elementos como Allen Ginsberg e o próprio Kerouac.
No fim das contas, entre acordos e desacordos, tenho a lamentar o esquecimento de obras basilares para a literatura mundial. Como deixar de lado “Cem anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez? Ou então “Os irmãos Karamázov”, de Dostoiévsky? Colocaram “Dom Casmurro” na lista. Muito bem. Mas eu acharia melhor a inclusão de “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Escolheram “Orlando”, de Virginia Woolf. Pois eu preferia ver no lugar desse livro qualquer dos romances de Jorge Amado. Tenho certeza de que você aí tem as suas preferências.
Qual foi o grande livro que alterou seu jeito de ser e de refletir antes de modificar esta vã humanidade?
domingo, agosto 15, 2010
O preço de uma vida no Afeganistão
Jochen-Martin Gutsch
O exército alemão pagará US$ 5 mil (R$ 8,85 mil) de indenizações para cada família que perdeu um integrante num ataque aéreo ordenado pela Alemanha no Afeganistão. Mas o gesto aparentemente generoso é apenas o capítulo mais recente de uma disputa bizarra sobre o quanto vale a vida de um civil no Afeganistão.
É uma tarde quente de terça-feira em Kunduz, mais de oito meses depois de um bombardeio fatal ordenado pela Alemanha contra dois caminhões sequestrados que ficaram preso [s] no leito de um rio. Karim Popal, sentado de pernas cruzadas no chão, conta a seus interlocutores que a Alemanha pretende pagar 4 mil euros (cera de US$ 5.280, ou R$ 9.120) para cada civil morto no incidente de 4 de setembro de 2009.
“Quatro mil euros de indenização”, diz Popal, olhando para o grupo. A sala cheira a carpete, homens, pés e a poeira da rua que entra pela janela.
Popal, que diferentemente de seus ouvintes está usando meias, está cercado por 15 homens vestidos com roupas tradicionais afegãs. Eles são anciãos do vilarejo de Chahar Dara, o distrito em torno de Kunduz. A maioria delas é cliente de Popal.
“Quatro mil euros é muito pouco”, diz um homem no grupo.
Popal concorda com a cabeça.
Os 15 homens olham para Popal. Quatro mil euros. Eles sabem que ele é seu advogado, e que ele está ao seu lado, mas de certa forma esperavam mais.
“Uma quantia razoável”
Mais ou menos no mesmo momento em Berlim, um homem forte e de cabelo curto está no Ministério da Defesa alemão. “Acho que 4 mil ou 5 mil euros são uma quantia razoável para o país”, diz ele.
O homem forte usa um colete de couro marrom, jeans e sandálias. Ele parece um atendente de bar. Ele só concordou em falar à reportagem sob a condição de permanecer anônimo. Ele passou meses negociando um acordo de indenizações com Karim Popal e outros advogados. Não houve acordo, apenas ideias diferentes sobre o que deveria ser uma indenização apropriada.
“O padrão de vida no Afeganistão é um fator chave”, diz o homem forte, recostando-se em sua cadeira. “Estamos falando de uma cultura estrangeira, e é importante não causar inveja lá.”
Desde essa conversa, o Ministério da Defesa estabeleceu um número. Na última quinta-feira, ele anunciou que cada família das vítimas receberia US$ 5 mil. Isso significa que o maior erro militar do Bundeswehr vai custar ao governo alemão apenas US$ 500 mil.
Por enquanto, este foi o último movimento numa disputa de meses por apenas uma questão: quanto vale a vida humana? Mais especificamente, quanto vale a vida de um afegão? A questão é fonte de uma disputa entre o Ministério da Defesa alemão e as famílias das vítimas, que são representadas por uma equipe de advogados alemães que trabalham com Popal.
Solução nada realista
Quando Popal estava sentado no chão naquela tarde de terça-feira em Kunduz, falando com os anciãos do local, quando ele ainda acreditava que podia fazer algo por eles, ele disse: “vou pedir US$ 33 mil para cada pessoa morta. Escreverei para o tribunal na Alemanha, o tribunal regional em Bonn. E daí vamos ver o que acontece.”
Os anciãos concordaram. Era difícil avaliar o que eles estavam pensando. Eles são fazendeiros analfabetos, e nenhum deles nunca foi para a Alemanha. Agora ficaram sabendo que havia um tribunal alemão que poderia chegar a um veredicto sobre o caso deles. Não parecia uma solução realista para eles. Parecia mais um filme no qual fazendeiros afegãos, numa improvável reviravolta do destino, processavam o governo alemão por danos.
“Não sei se vamos conseguir”, diz Popal, olhando para suas meias. “E também pode levar algum tempo. Talvez um ou dois anos. Não sei.”
Nenhum caso
Meia hora mais tarde, Popal estava sentado nos degraus da entrada do Hotel Kunduz, acendendo um cigarro. Ele estava hospedado num quarto simples do hotel, mobiliado com pouco mais do que uma cama, um banheiro e uma televisão quebrada. No dia seguinte, Popal planejava se encontrar com o resto de seus clientes e convencê-los a apoiar o processo.
Será que ele tem alguma chance de ganhar um caso como este?
“As chances são boas”, diz Popal. “Eu diria de 60%.”
No Ministério da Defesa em Berlim, o homem forte sorri. “Não estamos terrivelmente preocupados com um processo ou um julgamento”, diz ele.
Por que não?
O homem diz que ele tem uma opinião legal preparada. A conclusão, diz ele, resumindo, é que o processo não terá sucesso. Os familiares sobreviventes das vítimas não têm um caso contra o Bundeswehr. O homem forte dá de ombros, como se dizendo: desculpe, mas é assim.
O fim da guerra limpa alemã
Há opiniões certamente diferentes entre os especialistas legais. O fato é que nunca houve uma ordem decisiva do tribunal na Alemanha, de acordo com a atual lei alemã, de que indivíduos podem entrar com processos por danos contra países em guerra.
Kunduz é o maior caso de Popal. Para o Ministério da Defesa, é um enorme pesadelo, tanto político quanto em termos dos problemas de imagem que ele criou. Se há uma coisa que o incidente trágico deixou claro é que não existe mais uma coisa como uma guerra limpa da Alemanha no Afeganistão.
Por ordens do coronel alemão Georg Klein, jatos norte-americanos F-15 lançaram duas bombas de 220 quilos na noite entre 3 e 4 de setembro de 2009. As bombas destruíram dois caminhões tanques que haviam sido sequestrados por guerrilheiros do Taleban. Muitas pessoas morreram naquela noite, incluindo civis que tinham ido ao local para sifonar gasolina dos caminhões. O número exato de mortos ainda não está claro até hoje. De acordo com o governo afegão, 30 civis foram mortos. A Cruz Vermelha Internacional diz que foram 74, a Anistia Internacional fala em 83 e a Organização Internacional para a Migração (IOM) diz que foram cerca de 95. Popal diz que 113 civis foram mortos.
Discrepâncias de lado, é inquestionável que o bombardeio em Kunduz aquela noite tenha sido o ataque mais sangrento que soldados alemães ordenaram desde a 2ª Guerra Mundial. Mas hoje, meses depois, parece que o incidente está sendo subestimado e retratado como uma ofensa menor. Um caso de US$ 5 mil, por assim dizer.
Um ano de espera
Em 4 de setembro, completará um ano desde que as bombas foram lançadas em Kunduz. Foi um ano no qual os mortos foram enterrados nos vilarejos, um ano em que os sobreviventes esperaram que algo acontecesse na Alemanha. Foi um ano em que as autoridades alemãs não encontraram uma forma de reagir, de forma rápida e apropriada, ao erro fatal do coronel alemão. E foi um ano no qual Kunduz se tornou um precedente para a forma como a Alemanha lida com as mortes de civis na guerra.
Depois de receber um telefonema alarmante de Kunduz em 4 de setembro, Popal foi o primeiro advogado a responder às vítimas. Popal tem 53 anos e é dono de um pequeno escritório de advocacia na cidade de Bremen, no norte da Alemanha. Ele é especializado em questões de asilo e imigração, talvez porque algumas áreas da lei afetem sua própria vida. Popal nasceu no Afeganistão e foi criado em Cabul. Seu pai foi governador e ministro das finanças do antigo rei afegão. Em 1978, depois do golpe comunista, Popal deixou o Afeganistão e foi para a Alemanha, onde se tornou um advogado na cidade relativamente tranquila de Bremen. Não parecia que Popal voltaria a desempenhar um papel no mundo da política.
Talvez ele tenha sentido que era seu dever assumir o caso. Com certeza isso o deixava orgulhoso. Era maior do que Bremen, o tipo de caso com o qual os advogados sonham. E quem seria o melhor homem para o trabalho senão ele? Um germânico-afegão resolvendo um problema germânico-afegão?
Mas ficou claro que Popal havia tropeçado num escândalo político, que ele acreditava que podia contornar com as ferramentas da lei. Mas tudo logo se transformou num jogo de poker, ou talvez numa partida de boxe.
Falta de identificação
Popal voou para Kunduz várias vezes no outono. Ele montou uma equipe de investigação que incluiu um ex-membro provincial do parlamento, uma ginecologista, um mulá e o chefe do distrito de Chahar Dara. A tarefa deles era fazer a lista das vítimas. Mas os mortos já estavam enterrados há tempos, e não existem certidões de nascimento ou de óbito no Afeganistão. Muitos dos moradores do vilarejo não têm nenhum tipo de identificação. E como eles iriam determinar quem era civil e quem era um guerrilheiro do Taleban? A equipe de Popal reuniu toda documentação que pode encontrar: títulos de eleitor, carteiras de motorista, fotos de família e declarações de testemunhas. As famílias das vítimas o nomearam como procurador. A maioria assina documentos com a impressão digital.
Enquanto ele estava em Bremen, entre duas viagens a Kunduz, Popal recebeu um e-mail de um advogado em Berlim. O advogado, cujo nome era Markus Goldbach, escreveu que queria participar do caso, junto com dois colegas experientes. Sabendo que ele poderia usar essa ajuda, Popal contatou Goldbbach, e em breve havia quatro advogados cuidando do caso de Kunduz: Popal, Goldbach, o advogado de Frankfurt Oliver Wallasch e o advogado de Berlim Andreas Schulz.
Parecia bom
Em 3 de dezembro, o ministro da Defesa Karl-Theodor zu Guttenberg dirigiu-se ao parlamento alemão, o Bundestag, e disse que o ataque tinha sido “militarmente desproporcional”. Em 7 de dezembro, o governo alemão anunciou que pretendia recompensar as famílias dos civis mortos. O homem forte do Ministério da Defesa contatou Popal e sua equipe de advogados para propor uma negociação.
O caso parecia bom para Popal e seu grupo, e eles esperavam conclui-lo rapidamente.
Mas não foi isso o que aconteceu. Começou uma disputa que continua a afetar o caso ainda hoje. Isso é surpreendente, porque se trata de um caso que toca em temas muito importantes: a política mundial, o Afeganistão, o Bundeswehr e a guerra. E no entanto, no fim das contas, o ritmo foi estabelecido por algo extremamente mundano: incompatibilidade entre os advogados.
“Tudo o que tínhamos que fazer era chutar a bola para o gol”
“Havia uma oportunidade de ouro naquele momento”, diz Andreas Schulz, um dos advogados. “O Estado alemão, por meio de Guttenberg, havia admitido seus erros e portanto sua responsabilidade. O governo alemão estava sob uma pressão imensa. Para alguém que buscava reparação, era chutar o pênalti. Tudo o que tínhamos a fazer era chutar a bola para o gol.”
Shulz falou à reportagem sentado no jardim do elegante hotel Schlosshotel Grunewald em Berlim. É um dia quente de verão e ele usa um chapéu colorido e shorts. Seu Porsche preto conversível está estacionado ao sol do lado de fora da entrada do hotel. “Popal não conseguia lidar com o meu estilo. Ele se sentia inferior, como um pequeno advogado afegão que estava sendo menosprezado. Seu alemão não era perfeito, sua firma de advocacia era pequena e seu orçamento apertado”, diz Schulz, sorrindo.
Schulz e Popal se separaram quando Schulz disse numa entrevista a um jornal que “gostava” do número de US$ 500 mil por vítima. Popal terminou a colaboração dos dois via mensagem de texto. US$ 500 mil – aquele não era mais o mundo de Popal, não era mais seu caso.
Abordagem norte-americana
Talvez a melhor forma de explicar a disputa entre os dois homens seja dizer que Popal assumiu uma visão idealista e romântica do caso, enquanto Schulz preferiu a abordagem norte-americana. Popal imaginava uma compensação na forma de projetos de ajuda. Schultz queria fazer um trabalho que fosse financeiramente vantajoso para todas as partes envolvidas.
Depois disso, Popal procurou um parceiro que compartilhasse suas convicções. Ele encontrou esse parceiro em Bernhard Docke, advogado de Bremen que havia ficado famoso por representar Murat Kurnaz, um residente alemão que foi detido em Guantanamo Bay.
“Eu fui ingênuo. Mergulhei nesse caso sem uma estratégia”, diz Popal hoje. É verão, e caiu a noite em Kunduz. O barulho de um jato pode ser ouvido à distância, e em algum lugar na escuridão os norte-americanos estão caçando os membros do Talebã. Popal joga seu cigarro e acende outro. O caso ainda é dele. E ele insiste que é um caso importante: fazendeiros afegãos contratando um advogado para contestar as consequências da guerra. Quando foi que isso já aconteceu?
De acordo com a ONU, 2.412 civis morreram no Afeganistão em 2009, a maioria como resultado de ataques do Talebã. Mas o número também inclui cerca de 600 pessoas que morreram durante operações das tropas estrangeiras e das forças de segurança domésticas. Os sobreviventes costumam receber alguns milhares de dólares por seus parentes mortos, e a quantia depende de quem lançou a bomba ou atirou. Os norte-americanos costumam pagar US$ 2 mil. Os alemães chegaram a pagar até US$ 30 mil. Esses são pagamentos voluntários que não reconhecem nenhuma obrigação legal. Isso também faz parte de uma guerra que foi feita num contexto praticamente sem lei.
Parte da vida
No caso de Kunduz, as vítimas finalmente foram reconhecidas. Os sobreviventes estão exigindo seus direitos. Eles estão apelando para um governo, por assim dizer, tomando uma atitude legal. Eles têm advogados que vão a julgamentos. O caso de Kunduz é uma tentativa de aplicar a lei numa guerra.
Popal articulou tudo isso, mas às vezes ele se pergunta se vale a pena. O caso se tornou uma parte fundamental de sua vida agora, e Kunduz é agora a missão de Popal. O país de sua infância precisa se reconciliar com o país que ele escolheu para viver.
Popal foi mais absorvido pelo caso à medida que os meses se passaram. Em determinado momento, ele perdeu seu senso de perspectiva e suas dúvidas, que no fim das contas o tornavam vulnerável.
Quando questionado sobre o número de mortos, Popal se refere à sua lista e insiste que é a única acurada. Mas nenhuma lista como esta, não importa como seja compilada, pode ser mais do que uma tentativa de chegar a uma verdade aproximada levando em conta as condições no Afeganistão. Quando questionado sobre quantos guerrilheiros do Talebã estavam entre as vítimas do ataque aéreo, ele diz que havia cinco – como se esse número pudesse ser verificado. E quando questionado sobre chances num julgamento, ele responde “80%”.
“Primeiro minhas motivações eram humanitárias”, diz ele. “E ainda as tenho, é claro. Mas agora também quero mostrar que posso vencer esse caso.”
Enviada por DeusPara o Ministério da Defesa da Alemanha e seu forte negociador-chefe, a situação em janeiro deve ter sido enviada por Deus. O Ministério da Defesa esperava um trabalho fácil, uma vez que lutava contra uma equipe legal que estava em conflito e se desfazendo, liderada por Popal, um homem que lutava por sua reputação.
As negociações continuaram até março. Ninguém tinha experiência com um caso de indenização dessa magnitude. Popal e seu novo parceiro, Docke, propuseram projetos que poderiam fornecer um meio de vida para os sobreviventes, a maioria mulheres e crianças. Foram discutidos os custos dos projetos, os locais e os costumes afegãos.
No final de uma reunião em 19 de março, os dois lados concordaram em caracterizar suas intenções como “diálogos construtivos” e marcaram outra reunião. Em 30 de março, Docke recebeu um fax do Ministério da Defesa informando que as negociações foram terminadas. Ao mesmo tempo, o Ministério da Defesa começou a alimentar alguns jornalistas com informações. De repente, vários veículos da mídia passaram a informar que Docke e Popal haviam pedido uma taxa de 200 mil euros durante as negociações.
“Fiquei totalmente surpreso”, diz Docke. “Não houve nenhuma indicação de que as negociações seriam interrompidas. E nós nunca pedimos uma taxa de 200 mil euros.”
“Incomum e inapropriado”
No Ministério da Defesa em Berlim, o homem forte balança a cabeça indignado. Duzentos mil euros, diz ele – este é um pedido incomum e inapropriado. Então ele se serve de café e pega alguns biscoitos de um prato. “A situação com seus clientes não era clara”, diz o homem, comendo um biscoito. “De repente as famílias de 30 vítimas apareceram e pediram negociações diretas de indenização com o Bundeswehr. Foi então que percebemos quais interesses os advogados estavam de fato defendendo.”
Docke diz que informou imediatamente o ministério que nenhum de seus clientes havia desistido. “Tenho que perguntar a mim mesmo”, disse ele, “quem eram essas famílias de vítimas que apareceram de repente depois de meio ano.”
Perdendo o gás
O tempo passou. O verão chegou em Kunduz, e a guerra continuou. Na Alemanha, o caso parecia estar perdendo o gás.
Mas o governo alemão não pretendia oferecer uma assistência rápida com o mínimo de burocracia possível?
“Como você pode ajudar as pessoas rapidamente e sem burocracia se as famílias das vítimas contratam advogados e os advogados estabelecem o ritmo?”, pergunta o homem forte, reclinando-se em sua poltrona.
O caso teve mais uma virada crítica em julho. O homem forte estava de volta às negociações com os advogados das vítimas. A suposta demanda de uma taxa de 200 mil euros por parte dos advogados e a “situação obscura em relação aos clientes” - resumindo, todas as coisas que haviam levado o Ministério da Defesa a suspender as negociações a apenas três meses – de repente se tornaram irrelevantes.
“Conversas construtivas”
Popal e Docke, desmoralizados e tensos, não estavam mais diretamente envolvidos nas negociações. Em vez disso, eles estavam sendo representados por dois outros advogados com experiência em casos contra o Bundeswehr, Remo Klinger e Reiner Geulen, assim como Wolfgang Kaleck, um advogado de direitos humanos e secretário-geral do Centro Europeu pelos Direitos Humanos e Constitucionais. Os homens agora faziam parte da equipe legal de Popal.
As negociações continuaram durante todo o mês de julho. Mais uma vez, falou-se em “conversas construtivas” e projetos, incluindo a construção de um hospital em Kunduz. As equipes se encontraram três vezes. Enquanto isso, o Bundeswehr estava ocupado trabalhando na compensação dos sobreviventes no Afeganistão, sem consultar ninguém.
Os funcionários do Bundeswehr prepararam uma lista de 102 pessoas com direito à indenização, e então se encontraram com as famílias das vítimas e negociaram com elas. Cada família recebeu a oferta de um pagamento em dinheiro de cerca de 4 mil euros ou US$ 5 mil. Foram abertas contas no Banco de Cabul em Kunduz, e muitas das famílias das vítimas aceitaram a oferta do Bundeswehr. Elas precisavam do dinheiro. Depois de todas as investigações, listas de mortos e negociações sem sucesso dos últimos meses, elas estavam prontas para aceitar qualquer indenização.
A última palavra?
As negociações continuaram em Berlim, e um encontro foi marcado para 10 de agosto. Os advogados não ficaram felizes com a forma como as negociações estavam sendo conduzidas. Parecia possível chegar a um acordo.
Mas em 5 de agosto, o Ministério da Defesa informou os advogados que, por “motivos humanitários” e “sem o reconhecimento de uma obrigação legal”, havia chegado a um acordo com as famílias das vítimas. Os jornais, agências de notícias e redes de televisão noticiaram que o caso de Kunduz havia finalmente chegado a uma conclusão.
Parecia a palavra final.
Se alguém nesse caso pode ser visto como um vencedor, pode bem ser o homem forte do Ministério da Defesa. No começo do cano, ele e seus advogados ainda estavam negociando a ajuda do Ministério da Defesa. Agora o Bundeswehr pagará US$ 5 mil – não por cada vida que foi perdida, mas para cada família de uma vítima ou de várias vítimas. Em outras palavras, todas as famílias receberão a mesma indenização, não importa quantos familiares perderam no bombardeio de Kunduz. E o custo disso para o Bundeswehr? Meio milhão de dólares.
Nada mal para um negociador chefe.
Só um arranhão
No passado, a Alemanha chegou a pagar US$ 20 mil para a família de uma mulher afegã que foi morta num checkpoint, e US$ 33 mil por um menino afegão morto. O preço aparentemente caiu desde então. Isso foi em parte resultado da pressão dos aliados da Alemanha na Otan. Antes, os alemães eram vistos como aqueles que inflacionavam os preços no Afeganistão. O bombardeio de Kunduz, o trauma de guerra alemão, seu grande caso, é agora um caso de US$ 5 mil. Pode-se dizer que foi só um arranhão em tempos de guerra.
O bombardeio de Kunduz e os pedidos de indenização das famílias das vítimas podem terminar num tribunal alemão em breve. Se isso acontecer, juízes alemães, a milhares de quilômetros de distância da guerra, poderão ser obrigados a decidir quanto vale a vida que foi extinga [extinta] pela ordem de um coronel alemão. Karim Popal diz que pretende entrar com um processo por danos.
Tudo está preparado, diz Popal.
Tradução: Eloise De Vylder
segunda-feira, junho 28, 2010
A América Latina de Oliver Stone
Larry Rohter
Nos filmes sobre John F. Kennedy, Richard M. Nixon e George W. Bush, Oliver Stone deu asas à sua imaginação e foi frequentemente criticado por fazer isso. Agora, em “South of the Border”, que estreou na sexta-feira, ele se voltou para Hugo Chávez, o controverso presidente populista da Venezuela, e seus aliados reformistas da América do Sul.
“Pessoa que são com frequência demonizadas, como Nixon, Bush, Chávez e Castro, me fascinam”, disse Stone numa entrevista esta semana durante uma turnê para promover o filme, que retrata Chávez como um líder benevolente, generoso e corajoso que foi injustamente difamado. “É uma coisa recorrente”, ele acrescentou, que pode sugerir “um apego psicológico aos perdedores” de sua parte.
Diferentemente de seus filmes sobre presidentes norte-americanos, “South of the Border” de 78 minutos tem a intenção de ser um documentário e portanto tem um outro padrão. Mas está contaminado pelos mesmos problemas de acuidade que os críticos levantaram sobre seus filmes, desde “JFK”. Considerados em conjunto, os erros, declarações equivocadas e detalhes omissos podem minar o retrato de Chávez feito por Stone.
Os problemas de Stone com o filme começaram cedo, com seu relato sobre a ascensão de Chávez. Segundo “South of the Border”, o principal oponente de Chávez em sua campanha inicial à presidência em 1998 era “uma ex-miss Universo loira de 1,84 metro chamada Irene Saez, e portanto “a disputa ficou conhecida como a eleição entre a Bela e a Fera”.
Mas o principal oponente de Chávez não era Saez, que ficou em terceiro lugar com menos de 3% dos votos. Era Henrique Salas Romer, um inexpressivo ex-governador estadual que ficou com 40% dos votos.
Quando esta e várias outras discrepâncias foram apontadas para Stone na entrevista, suas atitudes variaram. “Sinto muito por isso, e peço desculpas”, disse ele sobre a eleição de 1998. mas ele também reclamou que estavam “pegando no pé” e “procurando cabelo em ovo” e disse que não era sua intenção fazer um programa para C-Span nem empreender o que ele chamou de interrogatório “cruel e brutal” sobre Chavez ao estilo de Mike Wallace sobre Chávez que a BBC transmite este mês.
“Estamos lidando com o quadro mais amplo, e não paramos para entrar numa série de críticas e detalhes de cada país”, diz ele. “É uma introdução a uma situação na América do Sul que a maioria dos norte-americanos e europeus não conhece”, acrescentou, por causa de “anos e anos de jornalismo negligente.”
“Acho que tem havido tanto desequilíbrio que somos definitivamente uma resposta a isso”, disse.
Tariq Ali, historiador e comentarista britânico-paquistanês que ajudou a escrever o roteiro, acrescentou: “Não é nenhum segredo que nós apoiamos o outro lado. É um documentário opinativo.”
As críticas iniciais de “South of the Border” foram mornas. Stephen Holde do The New York Times chamou-o de “uma exaltação provocativa, embora superficial, do socialismo na América Latina”, enquanto a Entertainment Weekly o descreveu como “propaganda política ingênua”.
Algumas informações equivocadas que Stone, que costuma pronunciar o nome de Chávez errado como Chavês, insere em “South of the Border” são relativamente benignas. Um voo de Caracas a La Paz, Bolívia, passa principalmente sobre a Amazônia, e não sobre os Andes, e os Estados Unidos não “importam mais petróleo da Venezuela do que de qualquer outra nação da OPEC”, uma posição que pertenceu à Arábia Saudita durante o período de 2004 a 2010.
Mas outras afirmações questionáveis se referem a temas fundamentais, incluindo o argumento de Stone de que os direitos humanos, que são uma preocupação na América Latina desde a era de Jimmy Carter, é “a expressão da moda”, usada principalmente para criticar Chávez. Stone argumenta no filme que a Colômbia, que “tem um problema de direitos humanos bem pior do que a Venezuela”, recebe “um passe livre na mídia que Chávez não tem” por causa de sua hostilidade em relação dos Estados Unidos.
Quando Stone começa a falar, aparece na tela o logotipo da Human Rights Watch, que monitora de perto a situação tanto na Colômbia quando na Venezuela e divulgou relatórios sobre os dois países. Isso aparentemente indicaria que a organização faz parte do “dupla medida” da qual Stone reclama.
“É verdade que muitas dos críticos mais duros contra Chávez em Washington fecharam os olhos para os terríveis problemas de direitos humanos na Colômbia”, disse Jose Miguel Vivanco, diretor da divisão do grupo para as Américas. “Mas não há motivo para ignorar os sérios prejuízos que Chávez acarretou aos direitos humanos e à democracia na Venezuela”, que incluem expulsar Vivanco e um associado sumariamente, violando a lei venezuelana, depois que a Human Rights Watch divulgou um relatório crítico em 2008.
Uma atitude similar e tendenciosa pode ser percebida no tratamento que Stone dá ao golpe de abril de 2002 que derrubou Chávez brevemente. Um dos eventos cruciais daquela crise, talvez o que a tenha instigado, foi o “Massacre da Ponte Llaguno”, no qual 19 pessoas foram mortas a tiros em circunstâncias que permanecem obscuras, com os partidários de Chávez culpando a oposição e vice-versa.
O filme de Stone inclui novas cenas do confronto na ponte, mas seu argumento básico adere ao que foi mostrado em “A Revolução Não Será Televisionada”, um filme que o campo de Chávez endossou. O documentário, entretanto, foi refutado por um outro, chamado “Raio-X de uma Mentira”, e pelo livro de Brian ª Nelson “O Silêncio e o Escorpião: O Golpe Contra Chávez e a Formação da Venezuela Moderna” (Nation Books), nenhum deles mencionado por Stone.
Em vez disso Stone se baseia muito no relato de Gregory Wilpert, que testemunhou parte das trocas de tiros e é descrito como um acadêmico norte-americano. Mas Wilpert também é marido da cônsul-geral de Chávez em Nova York, Carol Delgado, e há tempos editor e presidente do quadro do Venezuelanalysis.com, um site montado com doações do governo venezuelano, ligações que Stone não revela.
Como a visão de Stone sobre o assassinato de Kennedy, esta parte de “South of the Border” gira em torno da identidade de um atirador ou atiradores que podem ou não ter feito parte de uma conspiração maior. Como Stone coloca no filme: “os tiros foram disparados dos telhados dos prédios, e membros de ambos os lados foram baleados na cabeça.”
Numa entrevista por telefone esta semana, Wilpert reconheceu que os primeiros tiros foram disparados de um prédio conhecido como La Nacional, que abrigava os escritórios administrativos de Freddy Bernal, o prefeito do centro de Caracas, pró-Chávez. Numa investigação do Congresso depois do golpe, Berna, que liderava um esquadrão de elite da polícia antes de assumir o poder, foi questionado sobre o testemunho de um funcionário militar de que o Ministro da Defesa havia ordenado a Bernal que atirasse nos manifestantes da oposição. Bernal descreveu a acusação como “totalmente falsa”.
“Não sei nada sobre isso, eu nem sabia que era um prédio chavista”, disse Stone inicialmente, antes de recuar à sua posição original. “Mostre-me as cenas de Zapruder, e pode ser diferente”, diz ele.
A segunda metade de “South of the Border” é um “road movie” no qual Stone, às vezes acompanhado de Chávez, encontra-se com líderes da Bolívia, Argentina, Paraguai, Brasil, Equador e Cuba. Mas aqui também ele distorce os fatos e omite informações que podem minar sua tese de uma “revolução bolivariana” em todo o continente, encabeçada por Chávez.
Na visita à Argentina, por exemplo, ele descreve acuradamente o colapso econômico de 2001. Mas logo pula para a eleição de Nestor Kirchner à presidência em maio de 2003 e deixa Kirchner e sua sucessora – e mulher – Cristina Fernandez de Kirchner alegarem que “começamos uma política diferente da anterior”.
Na realidade, o presidente anterior a Kirchner, Eduardo Duhalde, e o ministro das finanças de Duhalde, Roberto Lavagna, foram os arquitetos dessa mudança de política e da recuperação econômica subsequente, que começou enquanto Kirchner ainda era um governador desconhecido de uma pequena província na Patagônia. Kirchner foi originalmente um protegido de Duhalde, mas os dois homens agora são inimigos políticos, o que explica o desejo dos Kirchners de apagá-lo de sua versão da história.
Tentando explicar a ascenção de Evo Morales, o presidente da Bolívia que é aliado de Chávez, Ali se refere à controversa e descuidada privatização da água na cidade de Cochabamba.
“O governo decidiu vender o suprimento de água de Cochabamba para a Bechtel, uma corporção norte-americana”, diz ele, “e uma das coisas que essa corporação fez foi obrigar o governo aprovar uma lei dizendo que de agora em diante era ilegal que os pobres saíssem nos telhados para coletar água da chuva em recipientes.”
Na verdade, o governo não vendeu o suprimento de água: ele concedeu a um consórcio que incluia a Becthel o gerencialmente da concessão durante 40 anos em troca de injeções de capital para expandir e melhorar o abastecimento de água e a construção de uma represa para gerar eletricidade e irrigação. A questão da coleta de água pelos pobres tampouco é como Ali apresenta.
“A permissão sobre a água da chuva sempre vem à tona”, diz Jim Shultz, um crítico da privatização da água e coeditor de “Dignidade e Desafio: Histórias do Desafio da Bolívia para a Globalização” (University of California Press), disse numa mensagem de e-mail. “O que eu posso dizer é que a privatização do sistema público de água foi acompanhada por um plano do governo que exigia permissões para poder cavar poços e coisas do tipo, e que ele poderia ter fornecido as concessões à Bechtel ou outras empresas.”
Mas ele “nunca chegou a tanto”, acrescentou, e “ainda não está claro para mim até agora que tipo de sistemas de coleta de água seriam incluídos”. Ele concluiu: “Muitos acreditaram que ele incluiria alguns sistemas de coleta de água da chuva. Isso poderia facilmente causar polêmica.”
Questionado sobre a discrepância, Ali respondeu que “nós podemos falar sobre isso infinitamente”, mas, “o objetivo de nosso filme é muito claro e básico”. Em “South of the Border”, ele acrescentou: “Nós não estávamos escrevendo um livro ou fazendo um debate acadêmico. Era para ter uma visão simpática desses governantes.”
Tradução: Eloise De Vylder
domingo, junho 27, 2010
A harmonia (da Copa) do mundo
sendo líder no futebol e seja o novo líder na ciência
Agora que o Brasil se classificou para a segunda rodada da Copa (como escrevo antes do jogo com Portugal, não sei se em primeiro ou em segundo grupo), está na hora de darmos uma relaxada e refletirmos um pouco sobre futebol e esportes em geral.
Os gregos foram os primeiros a sacar que esportes unificam populações. Se a poesia épica de Homero não funcionava por si só para unificar as cidades-estado num império homogêneo, use os esportes como complemento. Assim nasceram as Olimpíadas, em torno de 776 a.C.
Atletas das diversas cidades-estado e reinos espalhados pela costa do Mediterrâneo competiam entre si a cada quatro anos. Durante os jogos, guerras entre as cidades-estado eram suspensas. Já então, os esportes eram um excelente modo de sublimar o apetite pela guerra.
Esportes são guerras controladas. Um mundo sem esportes seria bem mais caótico. Adoro esportes em geral e futebol mais ainda. Nos meus tempos, fui um jogador bem razoável, se bem que de...vôlei. Cheguei até a ser campeão brasileiro, junto ao Bernardinho.
Mas, vendo os jogos, e, mais importante, a torcida, como não pensar em guerras tribais? Especialmente com as caras pintadas, os uniformes, as bandeiras, a testosterona elevada, as brigas entre torcedores e entre jogadores, as indignações que a pobre mãe do juiz sofre...
Interessante que o mesmo ocorre em jogos contra times locais. Não é só país contra país. É num Fla-Flu, Corínthians e São Paulo, Barcelona e Real Madri, Everton e Manchester United...as guerras são tão intensas quanto nos jogos internacionais. Esportes representam nossas várias alianças tribais: clube, Estado, país. Durante a Copa, torcedores de clubes diferentes se esquecem das disputas e vestem com orgulho a camisa do seu país.
Durante um mês o país é o foco principal, do mesmo modo que entre os gregos: as cidades-estado são os países e o império é o mundo.
O poder da Copa como unificador global é realmente impressionante. O mundo inteiro grudado nas TVs, nos rádios e, desta vez, graças à frota de satélites de telecomunicação, nos telefones celulares também. A tecnologia leva a Copa aos quatro cantos do planeta.
Nenhum outro evento mundial tem o poder de focar tanta gente de culturas, religiões e realidades sociais completamente diferentes.
Lembro a primeira Copa a que assisti, a de 1966, numa TV PB a válvulas, que demorava 30 segundos para "esquentar". O homem não havia ainda pousado na Lua, os Beatles ainda tinham cabelos curtos, o modelo do Big Bang acabava de ser confirmado, se bem que eu, com sete anos, não sabia de nada disso.
O mundo mudou muito. A população mundial mais do que dobrou. A Guerra Fria acabou. A economia global é uma coisa só, a falência de um país afeta o mundo inteiro.
Controlamos o buraco de ozônio, mas temos muito a fazer para controlar as emissões de CO2. Talvez estejamos vendo o início de uma mudança de atitude global, uma nova relação de sustentabilidade com o planeta.
Espero que na Copa de 2050, quando estaremos assistindo à final em hologramas tridimensionais em casa, o Brasil continue sendo o líder do futebol e seja o novo líder da ciência, e que tenhamos aprendido a viver em sintonia com a Terra.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
quarta-feira, maio 26, 2010
O PRIMEIRO PASSO
A primeira frase pode condenar ou imortalizar uma história. Por assim dizer é o cartão de visitas de uma obra. Caso seja bem-sucedida, o leitor passa facilmente dela para a segunda, desta para a terceira e assim sucessivamente – até consumir o livro todo.
O primeiro caso é exemplar. Gabriel García Márquez optou dar início a Cem anos de solidão com o interessante recurso do flashback. Ele procura manter a curiosidade do leitor. Quem é o coronel Aureliano Buendía? O que fez para merecer o pelotão de fuzilamento? Para obter as respostas a essas e outras questões, só “enfrentando” a saga da família Buendía.
Machado de Assis era mestre em primeiras frases. Que tal esta: “Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos” (O espelho)? Ou esta: “A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita” (D. Benedita). Exemplos perfeitos sentenças curtas, secas e bem-humoradas que marcaram o Realismo e o Naturalismo.
O maranhense Ferreira Gullar não fica a dever. Em O benefício da dúvida, afirma: “Difícil é lidar com donos da verdade”. Seguiu a tendência das frases de efeito praticada por Leon Tolstoi: “Todas as famílias felizes se assemelham; mas cada família infeliz é infeliz a seu modo” (Ana Karenina). Jane Austen, em Orgulho e preconceito: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa”. Outros preferiram a evocação heróica: “Chamai-me Ismael” (Herman Melville, Moby Dick).
Em O Ateneu, de Raul Pompéia, há uma primeira frase que tem aroma e sabor de clássico: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”. Anoto aqui também uma passagem inicial de que gosto muito: “Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo” (Da incoerência de nossas ações, de Michel de Montaigne).
Apenas para mencionar mais um clássico da literatura universal, temos a largada de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra: “Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor”.
Já demonstramos, com Ferreira Gullar, que a literatura maranhense também tem bons exemplos. O outro é este: “O que foi se diga, em honra da finada: nesta Ilha do Maranhão e, sobretudo, nos arrabaldes desta cidade de São Luís nunca houve nem jamais haverá mulher a quem um bumba-meu-boi tanto empolgasse como Maria Arcângela, urdideira de profissão, nascida nas primeiras palhoças de invasão, que o povo fez, bem ali na Quinta de Dona Berila e que depois, ele mesmo, o povo, gonjoso inconsciente do dom provinciano de bem falar o português, numa figura de palavra, gramaticalmente codificada, rebatizou com o nome de Belira (Maria Arcângela, de Erasmo Dias).
Fazer uma coletânea de melhores primeiras frases, contando apenas com a memória (minha biblioteca, que facilmente poderia fornecer o material de pesquisa adequado) é um desafio e tanto. Todavia, os apaixonados pelo livro e pela literatura hão de concordar comigo que o começo de A metamorfose, de Franz Kafka, não poderia ficar de fora: “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto”.
A Bíblia, é claro, não poderia ficar de fora dessa lista. Para sempre o best-seller mais vendido e o mais lido conta como primeira frase simplesmente o relato da criação do universo e deste teatro do absurdo: “No princípio criou Deus os céus e a terra”. Um pequeno e importante preâmbulo para tudo o que vem depois, nesse grande livro, em termos de ação, romance, aventura, filosofia, reflexão e o que mais um leitor deseja encontrar em obras desse porte. Tudo em um pacote só.
terça-feira, maio 18, 2010
Rumual ékissa
Mas antesmente devo concordar com os mais entendidos em Seleção que, de fato, coerência nem sempre a ajudou a ganhar Copa do Mundo. Se não, vejamos.
Em 1982 e 1986, Telê Santana foi coerente levando para a Espanha e ao México equipes com meia dúzia de três ou quatro talentos incontestáveis (Zico, Falcão, Sócrates, Casagrande...). Resultado: fracassos retumbantes.
Em 1994, Parreira fez o que Felipão se recusou a imitar oito anos depois: atendeu ao clamor popular e convocou Romário. Ambos os treinadores foram coerentes com a linha de trabalho que haviam traçado e se deram bem. Dunga tem procurado fazer o mesmo. Se ele está certo ou errado, só vamos saber no derradeiro jogo da Seleção no torneio. Como torcedor e não corneteiro de plantão, espero que seja na grande final.
Coerência houve mesmo de 1958 a 1970. Com três canecos de uma levada só. Não deu em 66 porque Hungria e Portugal não permitiram. Pena que ainda não existia nesse período a mídia ultrahipersuperpoderosa e influente dos dias atuais. Os feitos de Maradona em 1986, graças ao poder das imagens ao vivo e em cores, elevaram-no à estatura de divindade, na Argentina. Com direito a igreja e liturgia em seu nome. Não importa quanto pó tenha nasalmente consumido. O mesmo poderia ter ocorrido com Pelé. Considerado por aqui apenas “rei” e “atleta do século”. Assim gira o mundo da bola, minhas senhores e meus senhores.
A imprensa de uma forma geral não gosta de Dunga. Isso é fato. Chamam-no de ignorante. Criticam-no por “não saber falar” (falam o mesmo a respeito de Lula). Afirmam, como Neto em um dos seus comentários imbecilóides, que ele foi um “jogador medíocre”. De repente, acham melhor “esquecer” que esse mesmo Dunga comandou: a) a conquista da Copa América depois de um baile sobre a Argentina; b) a da Copa das Confederações em uma virada espetacular sobre os Estados Unidos; c) classificação com antecedência nas Eliminatórias.
Outra: não gosta de Dunga porque ele não alivia para ninguém. Na entrevista coletiva logo após a convocação, todas as perguntas e colocações que tinham como objetivo desmoralizá-lo como treinador tiveram as merecidas respostas cheias de grosseria. Afinal, todo mundo sabe que o treinador é delicado como a pedra que o boi chutou.
Por último e não menos importante - e até porque acabaram de pousar na minha mesa as duas páginas de Política: os eleitos, conforme prometi (muitas) linhas acima, e acabei saindo (bastante) dos trilhos. Temos um bom goleiro, Júlio César. Considerado o “melhor do mundo”. Não por mim, uma vez que não existe um arqueiro superior aos demais. Veremos ótimos zagueiros em ação (ainda que Lúcio jamais venha a se livrar da desconfiança com que é observado, malgrado o que já amealhou em termos de prestígio no futebol internacional). Desconsiderar Robinho, Nilmar e Grafite como execelentes atacantes é um erro tão grande quanto a permanência do Nacional de Santa Inês na Copa União.
Portanto, aí está a Seleção Brasileira. Outro portanto: vamos parar com essa história de saber quem estava certo ou errado no jogo do bicho? Está na hora, isto sim, de acreditar que Dunga e seus escolhidos podem trazer a taça. Agora, se não for possível, fica para 2014. Qual o problema? O importante é nunca deixar de acreditar.
O LIVRO E SEU FUTURO
Mês passado, dediquei quase um dia inteiro a contabilizar os meus livros. Cheguei à marca dos 504 tomos. Devagar se vai ao longe, presumo. Mindlin chegou aos 40 mil com 95 anos. O e-book já era uma realidade muito antes de seu falecimento. Sempre tive a curiosidade de saber o que ele pensava a respeito desse novo modelo assumido pelo livro na alvorada do século XXI.
“Conhecer”. Este era o título do livro que deu origem à inquietação das minhas leituras. Uma enciclopédia que mostrava a estrutura do Sistema Solar, como viviam os homens das cavernas e a radiografia de um automóvel da época. Recordo que era um livro de capa vermelha e grandalhão – perdia apenas em tamanho e número de páginas, claro, à Bíblia de Dona Rosa, minha tia. Recordo que o manuseio e o transporte dessas duas “crianças” não era tarefa das mais fáceis. A mesma encrenca passa por estudantes de Direito e de Medicina. O leitor de hoje não passa pelas mesmas dificuldades com o e-book, até porque, enquanto tecnologia, é um produto totalmente conceitual.
Outra vantagem do e-book, além da portabilidade, é o fato de custar muito mais barato que o livro comum.
No dia em que o grande e ilustre Jurivê Macedo também deixou este mundo triste e feio e dirigiu-se para uma realidade muito melhor, encontrei no site da revista “Época” declarações de um ilustre escritor por mim até então desconhecido, chamado Jean-Claude Carrière, segundo as quais “o e-book vai desaparecer”.
“Mas é também preciso dizer”, destaca o amigo de Umberto Eco na entrevista, “que o e-book já está obsoleto. Já está ultrapassado. Pois teremos no ano que vem uma nova geração de telefones celulares que nos colocarão diretamente em contato com as bibliotecas, ou seja, não teremos mais necessidade de abastecer o nosso e-book. É esse o problema no momento: o mais cansativo é colocar no e-book o que queremos levar na viagem, ou o que queremos consultar a seguir. A partir do momento em que tivermos outra engenhoca que poderá nos conectar com todas as bibliotecas do mundo, o e-book vai desaparecer”.
Acredito que esse é o destino da tecnologia. Penso no primeiro celular do meu pai – um trambolho que mais parecia um rádio-comunicador do Exército. Os seguintes já apareceram com menos da metade do tamanho do primeiro, mas o carregador de bateria era um aparelho à parte. Os de hoje, além de apresentar a praticidade da autonomia e caberem tranqüilamente na palma da mão, ainda oferecerem ao usuário a praticidade de recursos como MP 15, rádio FM e TV.
Outro exemplo: o câmbio automático nos automóveis. O sistema se propõe a manter a rotação do motor quase constante e o câmbio automaticamente faz a troca das marchas. Nos sistemas modernos com câmbio automático, a troca das marchas é praticamente imperceptível ao motorista, em relação ao modelo manual, muito mais comum aqui no Brasil.
No entanto, a tecnologia jamais poderá vencer a tradição. O e-book tem uma desvantagem essencial: é dependente de outros meios de transmissão de dados. Como o próprio Jean-Claude fez questão de ressaltar. Caso o computador e o celular não estiverem em condições – ou se, por alguma razão, algum problema inutilizar o pen-drive –, o usuário não terá como acessá-lo. Bom, nessas horas nada como recorrer à boa e velha biblioteca. Tenho certeza de que Mindlin concordaria.
quinta-feira, maio 13, 2010
ESSE BRASIL QUE DEVE LER
Pode até parecer, em um primeiro momento, a famosa “descoberta da pólvora”. Mas não é bem assim. Afinal, como se sabe, nosso país não é desigual apenas em termos políticos e econômicos. As disparidades ocorrem no mais importante de todos os pontos nevrálgicos: a educação.
De um lado, temos as escolas do Sudeste – nas quais, até onde sei, algumas aulas já estão sendo ministradas por meio da tal da tecnologia 3-D.
Na outra vertente, a do atraso, muitas crianças do Norte-Nordeste sequer tem uma escola para chamar de sua. “Estudam”, muitas vezes, em espaços cedidos por igrejas ou simplesmente ao ar livre – quando não encontram uma alma caridosa capaz de ajudá-las a ter acesso ao mais básico dos direitos, previsto pela Constituição: a cidadania. Mas como podem encontrá-la se às vezes não recebem nem a obrigatória merenda escolar?
Dez anos atrás, o Ministério da Educação informou apenas 4% das salas de aula das escolas públicas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste tinha dicionário, 1 em cada 3 não tinha apagador e em 25% delas não havia quadro-negro em condições de uso.
Uma década depois, a situação mudou muito pouco. Em recente editorial, o site do “Diário de Popular” nos diz que, “como nos demais aspectos sociais, também no que se refere à redução do analfabetismo, o Brasil avança muito lentamente. Os poucos recursos orçamentários que tem destinado aos programas de alfabetização, evidenciam que o governo não considera a solução do problema uma efetiva prioridade”. Com certeza houve avanços, mas nada que surtisse efeito a longo prazo ou tivesse sido destacado pelos meios de comunicação.
Outro aspecto destacado pela pesquisa Retratos da leitura no Brasil é que a criança e o adolescente raramente levam o hábito da leitura para a fase adulta justamente porque encontraram na escola alguém que os obrigasse a ler. Trata-se, como se pode logo perceber, da questão do livro paradidático. Confesso que os odiava. Precisava lê-los para responder às questões encartadas na obra – a fim de obter uma determinada nota. Além do quê, as histórias eram péssimas. Os piores eram os textos voltados para o público adolescente. Antecipavam as bisonhices hoje vistas em folhetins como Malhação e outros que-tais.
Hoje, estamos às voltas com o filão das séries literárias. O Fiat Lux desse lance foram os livros protagonizados pelo insofismável Harry Potter. Hoje, nós temos Percy Jackson, House of Night e, claro, Crepúsculo. Nada que agrade, enquanto gênero, este velho leitor de clássicos machadianos que vos escreve. Mas jamais seria a favor de que tais livros fossem queimados em praça pública apenas porque deles não gosto.
Pelo contrário. Dependesse de mim, eles seriam dados “de grátis” a escolas e a comunidades carentes ou que então não tivessem facilitado o acesso ao livro. Porque são voltados a um público jovem. E, diferente dos torcedores do Maranhão Atlético Clube, esse público-alvo deve ser constantemente renovado, para garantir que este nosso Brasil varonil seja realmente feito de homens e livros.
segunda-feira, março 29, 2010
Historiadores buscam verdade sobre prostituição nos templos da antiguidade

DER SPIEGEL
Matthias Schulz
“Prostitutas sagradas” em Jerusalém, sexo no templo a serviço de Afrodite? Muitos autores antigos descrevem a prostituição sagrada em termos drásticos. Seriam essas histórias apenas lendas? Os historiadores estão à procura da verdade por trás dos relatos.
O “costume mais horrendo” na Babilônia, escreveu o historiador Heródoto (que acredita-se que tenha vivido entre aproximadamente 490 a 425 a.C.), era a prática disseminada da prostituição no Templo de Ishtar. Uma vez durante suas vidas, todas as mulheres do país eram obrigadas a sentar-se no templo e “entregar-se a um estranho” por dinheiro.
As mulheres “ricas e esnobes”, criticou o historiador da Grécia antiga, chegavam em “carruagens cobertas”.
Os persas no Mar Negro aparentemente estavam envolvidos em atividades igualmente nefastas. Segundo o geógrafo grego Strabo, “as filhas virgens”, que mal tinham 12 anos, eram dedicadas ao culto da prostituição. “Elas tratam seus amantes com tamanha cordialidade que até mesmo os entretêm.”
Há muitos relatos semelhantes na antiguidade clássica. Acredita-se que tribos da Sicília até Tebas supostamente praticavam hábitos religiosos perversos.
Os judeus também estiveram envolvidos nessas práticas. Há cerca de uma dúzia de passagens no Velho Testamento envolvendo os “qadeshes”, uma palavra para os praticantes da prostituição sagrada, tanto do sexo masculino quanto feminino. No Deuteronômio, os prostitutos e prostitutas são proibidos de levar “à Casa do Senhor” o pagamento que receberam.
Os pesquisadores do século 20 adotaram de modo resoluto as referências, que frequentemente são misteriosas. Logo foi considerado um fato que os sacerdotes do Mundo Oriental praticavam a defloração forçada. Foi dito que havia “prostituição por donativos” e “copulação sexual no local de culto”.
Segundo a “Encyclopedia of Theology and the Church”, a prostituição sagrada era “uma mancha de praga moral e higiênica no corpo do povo”. Mas será verdade? Mais e mais acadêmicos agora estão questionando as fábulas eróticas dos antigos.
As histórias eróticas foram exageradas?
Tábuas cuneiformes recém-descobertas pintam uma imagem mais neutra e está ficando cada vez mais claro que os acadêmicos de décadas passadas exageraram o assunto. Por exemplo, não há nenhuma evidência comprovando que existiu o ritual de defloramento forçado.
Algumas pesquisadoras do sexo feminino adotam uma posição ainda mais radical. Elas contestam totalmente a prostituição sagrada, chamando a coisa toda de mentira.
Segundo um novo livro sobre o assunto, tudo começou quando alguns poucos escritores gregos elaboraram hábitos sujos e difamatórios sobre os povos estrangeiros, como evidência de sua inferioridade moral. Nos tempos modernos, escreve a autora, essa imundície se desenvolveu em um “mito de pesquisa”.
Julia Assante, uma acadêmica americana especializada no Oriente antigo e líder do movimento, está convencida de que as prostitutas sagradas são produto da “fantasia masculina”.
Mas, para acadêmicos moderados, esta interpretação vai longe demais. Apesar de também questionarem algumas opiniões acadêmicas exageradas do passado, eles insistem que o fenômeno existiu. Eles acreditam que existiram:
-Templos que operavam bordéis ao lado;
-Templos nos quais garotas ocupavam as mais altas posições do sacerdócio, mesmo antes de sua primeira menstruação;
-Prostitutas profissionais que doavam seu dinheiro aos templos, como o dedicado à deusa Afrodite.
Um debate amargo está se desenrolando, com assiriólogos de inclinação feminista brigando com professores da velha guarda. Enquanto os primeiros condenam consistentemente as teorias de prostituição sagrada como apenas mentiras, os últimos, citando a gramática sumeriana, defendem seu suposto “ponto de vista patriarcal”.
Prostituição de rua nos tempos antigos
Há, entretanto, um acordo em relação à prostituição comum de rua nos tempos antigos. Usando maquiagem espalhafatosa e xales amarelos, as prostitutas de Atenas anunciavam seus encantos aos pés da Acrópole. “Garotas de flauta” especiais ofereciam tocar o aulos para seus clientes antes de prestar seu serviço.
As prostitutas de rua de Roma cobravam quatro ases (o equivalente a cerca de10 euros ou US$ 14). Messalina, uma famosa cortesã, se tornou imperatriz quando se casou com o imperador Cláudio.
A terra das pirâmides também oferecia prazeres pecaminosos. Suas prostitutas esfregavam bálsamo nos corpos de seus clientes. “Seu falo está nas mulheres Chenemet”, diz o texto de um papiro antigo. “Um homem pode copular melhor que um burro. É apenas sua bolsa que o impede.”
A Mesopotâmia era particularmente conhecida por sua falta de valores morais. Uma prostituta chamada Shamhat (“A Voluptuosa”), que aparece no épico “Gilgamesh”, seduziu o selvagem Enkidu: “Ela desnudou seus seios, expôs seu sexo e ele se deleitou em sua voluptuosidade”.
Havia poucas objeções à profissão no Vale do Eufrates. Uma tábua de argila conta a história de uma mulher jovem que recebe seus clientes na casa de seus pais. Ela era paga com a carne de um leitão.
A Prostituta da Babilônia
Mas o que acontecia nos locais sagrados? O que acontecia por trás dos muros do Templo de Ishtar? Isso é fonte de disputa entre os acadêmicos.
O Oriente dedicou prédios enormes à sua deusa do sexo e amor. Hinos a louvavam como “Senhora das mulheres” com “encantos sedutores”. “Nos lábios ela é doce; a vida está em sua boca” – Prostituta da Babilônia.
O culto de Ishtar logo se espalhou para o norte, primeiro para Chipre, onde colonos gregos entraram em contato com a deusa e a rebatizaram de Afrodite. Segundo o mito grego, a bela Afrodite se ergueu de uma mancha de sangue no mar, onde a água estava tingida de vermelho e cheia de esperma. Foi o ponto onde Cronos, o senhor dos Titãs, atirou a genitália cortada de seu pai no mar.
A deusa, “nascida da espuma do mar”, nunca foi inocente, mas cheia de desejo e de uma orgia dos sentidos. Em Uruk, um festival orgiástico semelhante ao Carnaval era celebrado em sua homenagem há 5 mil anos. Listas antigas mostram que dançarinas e atrizes trabalhavam no Templo de Ishtar.
Sem sinais de atos sexuais no altar
Todavia, não há sinais de que atos sexuais e rituais de fertilidade ocorriam diretamente no altar, como os acadêmicos antes alegavam. “Não há nenhuma evidência dessas práticas mágicas”, explica Gernot Wilhelm, um orientalista da Universidade Julis Maximilian, em Würzburg, Alemanha.
Heródoto inventou sua história de sexo forçado entre as mulheres da Babilônia?
Pesquisadores de gênero acham que sim.
Todavia, provavelmente há mais por trás da história do que parece. O templo da deusa do sexo também incluía um grupo especial de culto, as “harimtu”, ou “prostitutas”.
Algum tempo atrás, Wilhelm descobriu um documento legal fascinante. Ele tem cerca de 3.300 anos e reconta como um homem entregou sua própria filha ao Templo de Ishtar, para servir como harimtu. Segundo o documento, o homem queria um empréstimo dos sacerdotes e estava oferecendo sua filha como garantia.
Mas o que exatamente a filha penhorada fez para seus novos empregadores? Wilhelm especula que a jovem trabalhava como prostituta, “mas fora do templo”.
Como evidência, o professor cita o “Livro de Baruc” no Velho Testamento. Ele descreve as prostitutas “à beira do caminho” entra as casas da Babilônia. Elas também estavam de alguma forma associadas à organização sagrada.
Uma disputa acadêmica
Os céticos não aceitam nada disso. Harimtu não significa prostituta, diz Julia Assante, a acadêmica de estudos de gênero. Ela alega que os assiriólogos simplesmente traduziram a palavra incorretamente há 150 anos.
Em vez disso, diz Assante, a palavra se refere a “mulher solteira”, que servia como representante do culto e não fazia parte de um lar masculino. Os adversários de Assante fazem careta diante de sua interpretação, acusando-a de transferir seu próprio status social à era pré-cristã.
Sua reinterpretação da palavra harimtu não faz sentido semântico, diz o historiador econômico Morris Silver. Ele insiste que as harimtu eram claramente “prostitutas profissionais com conexões cultistas”, que ofereciam um “serviço sexual” em prol do templo. Os sacerdotes atuavam como cafetões e coletavam parte dos lucros.
Esses bordéis sagrados provavelmente também existiam na Grécia, especificamente no Templo de Afrodite, em Corinto, como acreditam os acadêmicos. Ele ficava empoleirado em uma escarpa rochosa a 575 metros acima do nível do mar.
Profissionais do sexo, vestidos tênues, maquiagem chamativa
É incontestável que a cidade em si era um lugar ruidoso. Corinto era um centro de comércio marítimo, com centenas de navios ancorados em suas docas. Profissionais do sexo, usando vestidos tênues e maquiagem chamativa, ficavam espalhadas pelo cais oferecendo seus encantos.
Mas o templo da deusa do amor, no alto do penhasco, também parece ter sido um centro de atividade sexual. “O Templo de Afrodite era tão rico que possuía mais de mil escravos e cortesãs”, escreve Strabo.
Hordas de marinheiros e capitães do mar, “famintos por sexo”, escalavam até o templo no penhasco, diz o acadêmico britânico Nigel Spivey.
Tanja Scheer, uma professora de história antiga da Universidade de Oldenburg, no norte da Alemanha, agora propõe uma solução melhor: “Os relatos de um bordel sagrado em Corinto são todos baseados em uma ode de Pindar”, ela explica. Pindar escreve que um rico campeão olímpico dedicou o templo cem prostitutas em 464 a.C.
Mas, como Scheer aponta, é improvável que as prostitutas se deitassem diretamente no altar. Em vez disso, ela diz, o rico atleta provavelmente ofereceu assistência financeira ao templo, na forma de escravas. “A receita da venda de seus corpos poderia servir como fonte regular e constante de renda para o templo.”
A teoria de Scheer é apoiada pelo fato de que o estadista ateniense Sólon, que estabeleceu casas de prazer do governo em Atenas por volta de 590 a.C., cobrava impostos das prostitutas. A cidade usou a receita para construir um templo à deusa do amor.
Como revela um fragmento de uma velha comédia, garotas muito jovens aparentemente viviam no bordel. O texto descreve as “crias” de Afrodite em pé, nuas, em uma fila, e nota: “Delas, de forma constante e segura, é possível comprar prazer por uma pequena moeda”. Também é possível que as coisas fossem muito pior para as crianças prostitutas no mundo antigo. Alguns acadêmicos especulam que pode ter ocorrido muito sexo sagrado entre crianças.
Novamente, a trilha leva à Babilônia e sua torre em forma de pirâmide, com 91 metros, uma das maravilhas do mundo antigo. Segundo algumas fontes, havia um templo no topo da torre que continha uma cama, onde uma garota escolhida dormia à noite, preparada constantemente para um “casamento sagrado” –um ato sexual simbólico com o deus Marduk. Abuso de crianças no Nilo?
Distante dali, no principal templo em Tebas, na terra dos faraós, havia uma “consorte divina de Amon”.
Este sacerdócio era ocupado por “uma dama da maior beleza e da mais ilustre família”, escreve Strabo, “e ela se prostituía, coabitando com quaisquer homens que desejasse até que a limpeza natural de seu corpo ocorresse” (menstruação).
Há muitas pistas históricas que levam à especulação entre os acadêmicos, particularmente agora que um novo documento tem alimentado ainda mais o debate.
É um fragmento puído de um pergaminho egípcio, que também trata do assunto das jovens sacerdotisas.
Segundo o texto, as garotas eram autorizadas a trabalhar no templo até sua primeira menstruação. Depois disso, entretanto, “elas são afastadas de seus deveres”.
Tradução: George El Khouri Andolfato
terça-feira, novembro 10, 2009
Barris de pólvora
Nove entre dez ludovicenses sem dúvida alguma já passaram pela triste experiência de descer de um ônibus que ficou pelo caminho em razão de defeitos mecânicos. Na verdade, deveria ter colocado “dez entre dez”, mas tenho uma até certo ponto perigosa tendência para as concessões.
Querem mais uma situação capaz de tirar qualquer um do sério? Levante a mão quem já passou por isso: um ônibus aproxima-se da parada em que você se encontra e, mesmo não estando lotado, não atende ao gesto tradicional e passa direto. Nesse caso, se alguém tomar para si o trabalho de questionar o motorista, ele muito provavelmente terá apenas uma palavra como resposta-desculpa padrão: horário.
Outra: não se deixem enganar pelo número de coletivos que transitam, por exemplo, pela Praça Deodoro. São dezenas, surgindo um depois do outro - dependendo do horário, a fim de conduzir os ludovicenses (ou aqueles que sem mais o que fazer visitam nossa Ilha) para o trabalho ou de volta para casa depois de mais uma jornada cansativa. As aparências enganam - e revoltam.
Na verdade, o número de ônibus em circulação é muito menor do que se imagina. Até onde sei - e naturalmente espero ser corrigido -, São Luís conta com cerca de 900 anos. Muito pouco para uma cidade com mais de um milhão de habitantes (não importa o que digam o IBGE e Luís Fernando Silva).
Nós, os simples, sofremos na pele com essa quantidade risível de coletivos. Aqueles que, por alguma causa, motivo, razão e circunstância acharam por bem residir na Cidade Operária merecem um lugar especial no paraíso, por terem enfrentado e conseguido sobreviver a provações diárias.
É uma aventura nada auspiciosa. Quem acorda entre cinco e meia e seis horas da manhã levanta da cama sabendo que muito em breve travará dois combates que não lhe trarão glória nenhuma, caso tenha sucesso. O primeiro: conseguir entrar em uma dessas latas de sardinha ambulantes. O segundo: disputar, geralmente com algumas cotoveladas aqui e ali, qualquer espaço que lhe garanta uma viagem com um mínimo de conforto. Mas bem mínimo mesmo, porque as tribulações são muitas. Para deixar em apenas uma: os constantes entreveros entre passageiros, motoristas e cobradores. O que acaba transformando um ônibus em um barril de pólvora.
Mas por trabalhar em um jornal, é preciso que aqui haja o necessário contraditório. Os funcionários das empresas de transporte coletivo não são os culpados pela atual crise no setor (veja só, Érica, aprendi a lição: pesquei um pouco do jargão de economia). Os responsáveis, naturalmente, são seus patrões. Estes homens que, em sua egocêntrica teimosia, não renovam a frota e, confrontados com cobranças nesse sentido, ameaçam com demissões e a possibilidade de aumento nas passagens.
Motoristas e cobradores, no máximo, reagem mal às condições adversas nas quais se encontram. Ou você aceitaria numa boa trocar de lugar com um deles e passar a trabalhar com medo de seqüestros ou assaltos?
Como sou otimista, espero que a situação do transporte coletivo melhore o mais rápido possível. Caso contrário, as cenas lamentáveis ocorridas no Terminal da Cohama na segunda-feira (9) serão cada vez mais comuns. Doa em quem doer.