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quarta-feira, novembro 18, 2009

Trecho de "Caim", de José Saramago

Não é usual, posto que este Blog vai virar um diário mesmo a partir do ano que vem.
Mas acredito que cabe aqui uma verdade proverbial, anotada pelo ateu José Saramago em seu ótimo romance:

"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele".

Concordemos ou não, aí está.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

A Importância do Sono


Dra. Regeane Trabulsi Cronfli
É um total contra-senso o fato de que, num mundo em que cerca de 16 a 40% das pessoas em geral sofrem de insônia, haja aquelas que, iludidas pelos valores da sociedade industrial, esforçam-se por reduzir o número de horas de sono diário. Com isso acreditam, provavelmente, que um corpo "treinado" para dormir menos nos permita ampliar o número de "horas úteis" do dia, mantendo o mesmo desempenho.
Pura ilusão ou, mais provavelmente, uma boa dose de ignorância sobre a importância que o sono tem no funcionamento de nosso corpo e da nossa mente.
Dormir não é apenas uma necessidade de descanso mental e físico: durante o sono ocorrem vários processos metabólicos que, se alterados, podem afetar o equilíbrio de todo o organismo a curto, médio e, mesmo, a longo prazo. Estudos provam que quem dorme menos do que o necessário tem menor vigor físico, envelhece mais precocemente, está mais propenso a infecções, à obesidade, à hipertensão e ao diabetes.
Essa foi boa.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

TRECHO DE "SOMBRAS DA NOITE"

Stephen King

O medo é a emoção que nos torna cegos. De quantas coisas temos medo? Temos medo de desligar a luz quando nossas mãos estão molhadas. Temos medo de enfiar uma faca dentro da torradeira para tirar o muffin inglês que ficou preso lá dentro sem desligá-la primeiro da tomada. Temos medo do que o médico pode nos dizer quando o exame tiver terminado; quando o avião de repente dá uma sacudidela em pleno vôo. Temos medo de que o petróleo acabe, de que o ar puro acabe, de que a água potável, a vida saudável se acabem. Quando a filha prometeu chegar às onze e já é meia-noite e quinze e a chuva congelada fustiga a janela como areia seca, nós nos sentamos e fingimos assistir a Johnny Carson, e olhamos ocasionalmente para o telefone mudo, e sentimos a emoção que nos torna cegos, a emoção que deixa em ruínas o processo do pensamento.
O medo nos deixa cegos, e tocamos cada medo com a ávida curiosidade do interesse próprio, tentando construir um todo a partir de uma centena de partes, como os homens cegos e seu elefante.

Esse momento do Prefácio me veio à lembrança quando fiquei sabendo da queda do avião Airbus nas gélidas águas do rio Hudson. Outra recordação é de uma música que volta e meia toca na Universidade FM:

Miedo

Lenine

Composição: Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis

Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienen miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienen miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tienen miedo de subir y miedo de bajar
Tienen miedo de la noche y miedo del azul
Tienen miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da

El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá

Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienen miedo de reir y miedo de llorar
Tienen miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienen miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá

O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo

Medo estampado na cara ou escondido no porão
O medo circulando nas veias
Ou em rota de colisão
O medo é do Deus ou do demo
É ordem ou é confusão
O medo é medonho, o medo domina
O medo é a medida da indecisão

Medo de fechar a cara
Medo de encarar
Medo de calar a boca
Medo de escutar
Medo de passar a perna
Medo de cair
Medo de fazer de conta
Medo de dormir
Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez

Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo... que dá medo do medo que dá
Medo... que dá medo do medo que dá

quarta-feira, dezembro 31, 2008

SACUDINDO A POEIRA

2008 já era. Está na hora de abrir alas, porque 2009 deseja passar. Como sempre acontece, acho que será um ano bom. Tenho lá minhas resoluções de ano novo. Ler a maior quantidade de livros de que for capaz. Transar com a maior quantidade de mulheres à minha disposição. Escrever meu primeiro livro. Passar um mês em São Bento. Começar a correr. Voltar a malhar. Viver de incógnitas é comigo mesmo.
Acabei de falar com Bruna. Espero que ela se recupere. Não mereceu o fim de algo que considerava belo. Mas a vida é assim, suponho. Não vivi o suficiente ainda para determinar. Só o que existe é o que eu penso e sinto e amo.
2008 já era. 2009 agora é uma criança recém-nascida. Deixemos que brinque um pouco antes de crescer e desabrochar.

terça-feira, dezembro 30, 2008

A VIDA É UMA FESTA

Gilmar hoje quis saber como se escreve "Ernest Hemingway".

Não é preciso muito para aguçar meus sentidos literários. Corri até a minha estante (a "blindada", como diria meu amigo Raimundo Martins, que Deus o tenha) e dela retirei meu exemplar de "Paris é uma festa", do mesmo autor de "Por quem os sinos dobram" e "O sol também se levanta". A tradução é de Ênio Silveira.
"Estava na época do mau tempo", assim começa essa obra-prima da "geração perdida" - ainda que Ernest tenha imediatamente rejeitado este rótulo, gratuitamente estabelecido por Gertrude Stein. "Chegaria a qualquer momento", prossegue, "no fim do outono. Teríamos de fechar as janelas à noite, por causa da chuva, e o vento frio arrancaria as folhas das árvores da Place Contrescarpe. As folhas ficariam no chão, encharcadas, o vento atiraria a chuva contra os grandes ônibus verdes no ponto terminal, e o Café des Amateurs ficaria cheio de gente, suas janelas embaçadas pelo calor e pela fumaça lá de dentro. Era um café triste e mal administrado o Amateurs, onde os beberrões do bairro se apinhavam e do qual eu me mantinha afastado por causa do cheiro de corpos sujos e do azedo da embriaguez".
Aparentemente, o texto acima não deve ter dado muito trabalho ao autor quando o produziu. e na verdade não deu mesmo, posto que o tom é o de quem escreve sem preocupação com a perenidade da obra literária. Mas acredito que aí está o "pulo do gato" de Hemingway como escritor: o escrever sem pressa, pelo puro prazer da arte pela arte. Sem a preocupação do ganha-pão, sem a peso do trabalho. E vejam que preocupação na época em que os eventos mencionados transcorrem, preocupação era o que não faltava para Ernest, posto que justo nessa época ele decidiu abandonar o jornalismo para viver unicamente do que lhe poderiam render seus contos.
Essa aflição e incerteza, aliás, estão explícitas no capítulo "A fome como boa disciplina". "Se você não se alimentava bem em Paris", conta, "tinha sempre uma fome danada, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na calçada, de modo que por toda a parte via comida ou sentia o seu cheiro. Se você abandonou o jornalismo e ninguém nos Estados Unidos se interessa em publicar o que está escrevendo, se é obrigado a mentir em casa, explicando que já almoçara com alguém, o melhor que tem a fazer é passear nos jardins do Luxembourg, onde não via nem cheirava comida, desde a Place de l'Observatoire até a rue de Vaugirarard".
Aqui na internet, "pesco" a seguinte observação do senhor Eduardo Hakk (http://www.eduardohaak.kit.net/hemingway.html):
"O livro é, por excelência, um volume de fuxicos, de irrelevâncias deliciosas que, se por um lado não oferecem grandes verdades aos leitores (seja lá que merda signifique 'grandes verdades'), por outro humanizam essas figuras todas do modernismo: Gertrude Stein, Ezra Pound, Ford Maddox Ford, James Joyce e tutti quanti - pra não falar do próprio Hemingway".
E, quando o assunto são as "irrelevâncias deliciosas", porque não dizer que "Paris é uma festa" está impregnado de vida? Desse nosso absolutamente fabuloso cotidiano, cheio de bons e de maus momentos? Lembro agora de Los Hermanos: "Todo carnaval tem teu sim". Concordarei com essa grande verdade só no fim da minha jornada. Que seja esse, então, meu epitáfio. Mas não agora. Não agora.
Agora, quero repetir todo santo dia que é a vida, mais do que a morte, a que não tem limites.
Quero repetir que a vida é uma festa.
E tenho dito.