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sexta-feira, julho 29, 2011

Pecador

De Olavo Bilac

Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta,
E, calmamente, o copo de veneno
Aos lábios frios sem tremer levanta.

Tonto, no escuro pantanal terreno
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,
Nem assim, miserável e pequeno,
Com tão grandes remorsos se quebranta.

Fecha a vergonha e as lágrimas consigo...
E, o coração mordendo impenitente,
E, o coração rasgando castigado,

Aceita a enormidade do castigo,
Com a mesma face com que antigamente
Aceitava a delícia do pecado.

domingo, julho 24, 2011

O URUGUAI SALVOU A COPA AMÉRICA

Outro dia, me envolvi em uma dessas discussões infrutíferas a respeito de futebol.
Questionei o desempenho da Seleção contra o Paraguai, pelas quartas de final da Copa América.
Jamais aceitarei um time dominar o outro durante 90 minutos sem traduzir essa superioridade em gols.
Hoje, vi o Uruguai soberano na final da Copa América - venceu os paraguaios por 3 x 0 com uma atuação soberba. Capitaneada pelo ótimo Forlán. Título merecido, justo e abotoado.
Futebol tem lá momentos em que o famoso "Sobrenatural de Almeida" dá o ar da graça. Às vezes, um atacante acerta um chute despretensioso, e um goleiro considerado bom o aceita e fica com as luvas cheias de penas de frango.
Mas na verdade o glorioso esporte bretão é uma ciência exata. Vence quem coloca a bola na rede, perde quem desperdiça as oportunidades.
Não adianta nada ser o melhor se esse bom desempenho não se premia com pelo menos o famoso "meio a zero".
Quem é boleiro sabe que o gol é o grande momento do futebol. Os Paraguaios, com tantos empates, não merecia o título.
O Uruguai, o melhor time da América do Sul desde o ano passado, salvou a Copa América com um futebol que aqui no Brasil os "manos" da vida deviam pelo menos tentar copiar.

sexta-feira, julho 22, 2011

JANOTA NA OUVIDOR

(ALUÍSIO AZEVEDO)


Hipérbole fatal de nossos dias,

Arremedo de um quê, que não é nada

Bagatela do tom, moço pomada

Eterno prosa das confeitarias;


Ceando na Raveaux comifas frias;

Vestindo ao Raunier roupa fiada;

Pince-nez de uma cor sempre azulada;

Entre dentes charutos - Regalias;


Francês notado em trato e pedantismo,

E secas em francês sempre que amola;

Não é um homem, não, é um galicismo.


Eis o tipo fiel d'alta bitola!

Que se sustenta com o mior cinismo

Da Rua do Ouvidor - leão Pachola.


Poema de Aluísio Azevedo, de 15 de janeiro de 1817, publicado pela revista da Academia Brasileira de Letras em 1931.

segunda-feira, julho 04, 2011

A MORTE REDIME

É sempre interessante ver como a mídia trata o falecimento dos homens de vida pública.
Lembro de quando morreu Leonel Brizola. A respeito dele, comentou o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

"O Brasil perdeu uma importante referência que marcou a história de meio século. Todo mundo sabe que, ainda nos momentos de divergência, sempre nutri um profundo respeito e admiração pela história política de Brizola."

E Brizola foi um dos políticos mais truculentos de que se tve notícia na política deste país.
Agora, temos Itamar Franco. Não foi dos piores. Teve o mérito de pelo menos tentar colocar o país nos eixos enquanto ainda se recuperava do caos propiciado pela descoberta das falcatruas cometidas por Paulo César Farias e o impeachment de Collor.

Ora, pitombas: o homem ainda esboçou a ressurreição do nosso velho e querido Fusca!
Mas também um dia cercou a sede do Executivo estadual mineiro com blindados da Polícia Militar apenas porque se considerava alvo de "perseguições".

E devemos lembrar o "episódio Lilian Ramos", a "periguete" que dançou ao lado do presidente Itamar na Marquês de Sapucaí vestindo apenas uma camisa. Para quem não sabe da missa a metade, a danada estava sem calcinha! E já havia sido uma obscura capa da Playboy em mil novecentes e não interessa. E desapareceu depois de ter colhido as benesses desses 15 minutos fama. Dela, não se tem notícia. Itamar terá seu nome registrado nos livros de história como um "grande estadista".

Porque a morte tem esse dom de resgatar os maiores personagens da história republicana de suas iras e imperfeições.

sábado, julho 02, 2011

HEMINGWAY VIVE

Acredito que uma das obras da literatura universal indispensáveis em qualquer biblioteca, pública ou privada, seja "Paris é uma festa".

Eu li esse livro de crônicas pela primeira vez aos 15 anos. Nele, Ernest Hemingway já vive de seu ofício de escritor. Abandonara conscientemente o jornalismo para ganhar a vida exclusivamente com o dinheiro que porventura recebesse com seus contos, romances e material de free lancer. Ainda não conseguiu a consagração. A fama só viria bem mais tarde. E quando se faz esse tipo de afirmação pensa-se logo na celebrização propiciada pelo falecimento. Penso ter sido exatamente isso o que aconteceu com Hemingway.

Hoje em dia, quantos de nós podem se dar ao luxo de largar um emprego - qualquer que seja - para sobreviver explorando a própria vocação - ou a de outrem? Para não fugir do assunto: quantos escritores, aqui no Brasil, tem como única tarefa capaz de lhe garantir o pão de cada dia a arte de diariamente remover a neve da folha de papel? Entendo ser mais comum esse tipo de fenômeno no Estados Unidos. Os exemplos são poucos, mas importantes: Tom Clancy, Stephen King, Ken Follet. Ganharam rios de dinheiro com os frutos de sua imaginação essencialmente literária. Tenho certeza de aqui no Brasil não é possível a repetição de tal fenômeno.

Há poucos minutos, fiquei sabendo que 2011 marca meio século de falecimento do autor de "Adeus às armas". Para quem não sabe, Hemingway tirou a própria vida com um disparo de sua pistola. Até onde sei sobre esse suicídio, foi possibilitado porque, para Ernest, o poço literário havia secado. Para quem escreve, isso é o pior que pode acontecer. Li há seis meses um romance em dois volumes intitulado "Saco de ossos", no qual o protagonista - um escriba, naturalmente - começa a sofrer do tal do "bloqueio de escritor" após a morte da esposa. O personagem, após um montão de peripécias, conseguiu se recuperar. Ernest não pode dizer o mesmo. Ou até pode, desde que se comunique por meio de uma necessária sessão espírita.

Por ele ter participado dela, a guerra foi um tema recorrente na obra de Hemingway. E foi por causa dela que nasceu a famosa expressão "geração perdida" - um rótulo maldoso carimbado pela triste Gertrude Stein aos jovens que sobreviveram ao inferno das batalhas e que desafortundadamente não foram tratados como heróis na volta para casa. Esse rótulo foi um dos motivos pelos quais Francis Scott Fitzgerald também encontrou sua perdição como prosador. O outro foi a esposa dele, uma mulher bela e neurótica. Tudo isso está retratado em "Paris é uma festa". Penso em retirá-lo hoje da minha desorganizada estante cheia de livros. Afianl de contas, escritores como Hemingway de vez em quando precisam ser retirados do limbo destinado aos mestres dos quais ninguém mais se ocupa - a exemplo dos maranhenses Coelho Neto e Humberto de Campos.

Porque a imortalidade nas letras é isso: encontrar pelo menos um leitor disposto a entrar em bibliotecas improváveis atrás de alfarrábios esfarelados produzidos por genialidades que iluminaram determinada época e que se apagaram em razão da ignorância e do desprezo das gerações posteriores.