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quarta-feira, agosto 10, 2011

A casca de banana atraiu Amorim

Após quase dez anos como
chanceler, o ministro da Defesa
precisa desencarnar, dando paz ao Itamaraty

ELIO GASPARI

CONFIRMANDO AS PIORES expectativas, antes mesmo de assinar o termo de posse como ministro da Defesa, o embaixador Celso Amorim meteu-se em assuntos diplomáticos e declarou-se favorável à saída das tropas brasileiras do Haiti. Nas suas palavras: "É preciso pensar uma estratégia de saída". A ideia é boa, mas a agenda não é da Defesa, é do Itamaraty, a quem cabe tratar com as Nações Unidas, sob cuja bandeira estão os soldados. Ficaria melhor se Amorim dissesse que, concordando com o chanceler Antonio Patriota, acha que chegou a hora de voltar. Melhor ainda se anunciasse que essa é uma orientação da presidente da República. Deu-se, contudo, o pior dos cenários: o ministro da Defesa fala em sair do Haiti depois de um encontro com os comandantes militares.
Tendo sido ministro de Itamar Franco e de Lula, Amorim comandou o Itamaraty por nove anos e meio. Numa comparação quantitativa, bateu a marca do Barão do Rio Branco (1902-1910). Antonio Patriota foi seu colaborador direto, chefiou-lhe o gabinete e, em 2007, foi designado embaixador em Washington sem jamais ter chefiado uma missão no exterior. Trazido de volta, ocupou a secretaria-geral do ministério no último ano do mandarinato de Amorim.
Como há áreas em que a ação dos ministros das Relações Exteriores e da Defesa se complementam, e a presença no Haiti é uma delas, a escolha da doutora Dilma arrisca produzir novas encrencas. Nas palavras do chanceler Azeredo da Silveira (1974-1979), "tem gente que atravessa a rua para escorregar na casca de banana que está na outra calçada". Na primeira oportunidade, Amorim fez exatamente isso.
Amorim e Patriota diferem no estilo. Um é abrasivo, o outro, suave. Um canta o fim do jogo aos dez minutos do primeiro tempo. O outro procura confirmar se de fato o juiz apitou o desfecho da partida. Algo como se Amorim estivesse mais para Glauber Rocha, e Patriota, para Bruno Barreto. (Numa ocasião, Amorim chamou a secretária de Estado Condoleezza Rice de "minha amiga Condi" e ela o chamou de "ministro Santos".)
A tese segundo a qual Dilma Rousseff reorientou a diplomacia de Lula está à espera de comprovação factual. Noves fora a eliminação das estridências de Lula e Amorim, está tudo igual. Calaram-se algumas cornetas antiamericanas, mas eram apenas cornetas. O apoio ao regime iraniano tornou-se mais discreto, e os acontecimentos fizeram com que se trocassem os afagos em Ahmadinejad por uma complacência com Bashar al Assad. O Brasil mostra-se compreensivo com os massacres ocorridos na Síria, mesmo quando o rei Abdullah, da Arábia Saudita, já se distanciou da ditadura de Damasco. Ficar em minoria na defesa de um princípio pode ser uma virtude, mas ficar em minoria na defesa de um ditador é apenas má política.
Se Amorim deixar o Itamaraty em paz, todo mundo lucrará, até porque ele se entenderá melhor com Patriota do que se entendia com Jobim. Pelo menos é isso que se percebe na leitura dos telegramas do WikiLeaks, onde o embaixador americano Clifford Sobel aparece contando conversas que o estimulavam a sonhar com uma situação em que Jobim desafiaria (para gosto dos americanos) a predominância do Itamaraty em questões diplomáticas.

domingo, junho 19, 2011

Com sorte, a saúde entra na agenda

Mesmo que seja pirraça,
se a Câmara começar a discutir a
regulamentação da emenda 29,
todos ganham

O DEPUTADO MARCO Maia (PT-RS) prometeu votar ainda neste mês a regulamentação da emenda 29, que define a destinação de recursos para a saúde pública nacional. Como ele e o Planalto andam se estranhando, ficou no ar um tom de troco, quase pirraça, mas há males que vêm para o bem.
Durante a campanha eleitoral, Dilma Rousseff prometeu "tomar iniciativas logo no início do mandato para regulamentar a Emenda Constitucional 29". Se ela e o presidente da Câmara resolveram desencruar uma votação que neste ano completará 11 anos de espera, algo de bom poderá acontecer.
Por trás da construção indecifrável da "regulamentação da emenda 29" está a discussão da partilha dos recursos para a saúde (sem chance de ressurreição da CPMF). Ela libertará os melhores e os piores interesses. Nada melhor do que colocá-los na vitrine. Primeiro na Câmara, depois no Senado. Será uma briga bonita.
Dados de 2008 informam que 13 Estados não gastavam com a saúde pública o que manda a Constituição. Nessa modalidade, o campeão do calote foi o Rio Grande do Sul. Há governos que pagam planos de carreira do funcionalismo, restaurantes ou mesmo coleta de lixo jogando-os nas rubricas da saúde. Até gastos com segurança pública viraram despesas com saúde.
Como ensinou o juiz americano Louis Brandeis, "a luz do sol é o melhor desinfetante".

SALVE RAINHA
O ministro Gilberto Carvalho lamentou a prisão do companheiro José Rainha Júnior. Não se sabe o que ele achou da cana de uma noite tomada pelo ex-jogador Edmundo.
Vale lembrar que Rainha está há tempo na estrada. Em 1995, quando se tornou uma celebridade, disse o seguinte para justificar o fato de viver numa casa da CESP na cidade de Teodoro Sampaio: "Eu sou um cidadão e pago impostos."
Era um pied-à-terre, pois o empresário sem-terra tinha uma gleba de quatro hectares num assentamento próximo.

R$ 4 BI
Está marcada para a próxima quarta-feira a reunião do Conselho de Contribuintes que julgará o recurso do Banco Santander contra uma autuação de R$ 4 bilhões que lhe foi imposta pela Receita Federal em 2008.
O processo deveria ter sido julgado na segunda quinzena de maio, quando o ambiente político estava contaminado pelo noticiário envolvendo a prosperidade do então ministro Antonio Palocci.
Ao tempo em que era deputado e consultor, Palocci deu uma palestra para executivos do Santander.

VAREJÃO
Está dura a vida do "New York Times". Depois de ter fechado o acesso ao seu conteúdo, o melhor jornal do mundo viu-se batido pelo site Huffington Post no volume de acessos às suas páginas na internet e resolveu botar um brinde no pano verde. Quem compra uma assinatura de três meses (US$ 105), ganha uma caixa-teclado para iPad que custa US$ 100 nas lojas.
O Huffington Post é grátis como o ar. Fechando o acesso, o "Times" perdeu 11% de seus visitantes e ainda não há como se calcular o valor da clientela paga que conseguiu.

BECHARA E A VIÚVA
Uma admiradora do idioma pediu à Academia Brasileira de Letras que lhe explicasse a origem da expressão "a Viúva" para designar a boa senhora que paga contas.
O professor Evanildo Bechara foi atrás e achou uma viúva generosa na Bíblia. Ela está em Marcos 12:
"Estando Jesus assentado defronte da arca do tesouro, observava a maneira como a multidão lançava o dinheiro na arca do tesouro; e muitos ricos deitavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, deitou duas pequenas moedas, que valiam meio centavo.
E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deitou mais do que todos os que deitaram na arca do tesouro;
Porque todos ali deitaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento."
Essa é a viúva pobre. No anedotário militar da primeira metade do século passado há outra, frequentemente lembrada pelo general Ernesto Geisel durante seu governo.
É a "Viúva do Duque de Caxias", "Viúva do Caxias" ou simplesmente "Viúva". (Dona Ana Luisa, na vida real.)
Pode-se supor que ela nasceu quando alguém perguntou: "E quem paga?"

TROTSKY VIVE
Boa notícia para os trotsquistas saudosos de seu guia. A família voltou a brilhar, com Nora Volkow, sua bisneta. Ela nasceu na cidade do México, na casa em que Leon Trotsky foi assassinado e também trabalha para mudar a cabeça das pessoas. A doutora dirige a agência do governo americano que lida com abuso no consumo de drogas.
Sem bigode, cavanhaque e mosca, é a cara do bisavô.

NEGÓCIOS DA CHINA, PARA INGLÊS VER

Durante a viagem de Dilma Rousseff à China, a marquetagem do governo anunciou dois êxitos:
1) O governo de Pequim concordara em tirar a fábrica da Embraer de Harbin da geladeira, abrindo-lhe o mercado para a fabricação de jatos executivos Legacy. (O mercado de jatinhos chinês, deprimido pelo governo, é menor do que o paranaense, mas deixa pra lá.)
A comitiva brasileira voltou para o Brasil no dia 17 de abril. A fábrica da Embraer parou no dia 26. O repórter Fabiano Maisonnave mostrou que seus operários, sem ter o que fazer, jogam peteca na linha de montagem.
2) A empresa Foxconn montaria iPads no Brasil e, além disso, faria um investimento de US$ 12 bilhões em cinco anos, gerando 100 mil empregos.
O governo acabou com a maluquice que negava às tabuletas os benefícios dados aos computadores e as maquininhas da Apple começarão a ser produzidas em setembro em Jundiaí. Até agora não se conhece o plano de investimentos de US$ 12 bilhões da Foxconn. Sabe-se apenas que o velho e bom BNDES será chamado para botar algum no negócio.
Pelo jeito, a única coisa que a doutora trouxe da China foi uma gripe.

quarta-feira, novembro 24, 2010

A brigada do mensalão atira a esmo

ELIO GASPARI


A reforma política pode virar um álibi
para requalificar as malfeitorias
da quadrilha junto ao STF


O PRINCIPAL objetivo político do comissariado petista para o próximo ano é obter no Supremo Tribunal Federal a absolvição dos companheiros da quadrilha do mensalão.

Se for preciso aprovar uma reforma política que institua o financiamento público das campanhas e amaldiçoe o atual sistema eleitoral, isso será feito. Afinal, obtendo-se a reforma de uma estrutura que se denunciou como podre, pode-se argumentar que as podridões eram inevitáveis.

Segundo as repórteres Vera Rosa e Eugenia Lopes, o comissário José Dirceu disse, ao sair de um café da manhã com Nosso Guia, que, deixando o governo, Lula se dedicará, entre outras coisas a desmontar "a farsa do mensalão". Como fará isso junto ao plenário do Supremo, não se sabe.

É direito dos réus lutar pelas suas absolvições, mas o comissariado do governo parece estar perdendo a sensibilidade política. Há uma semana, o líder do PDT na Câmara, deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, propôs numa reunião do Conselho Político que se aprove a legalização dos bingos. Passam-se uns dias e o Ministério Público de São Paulo revela que o deputado, bem como a poderosa central sindical que presidiu, foi condenado em primeira instância a devolver ao erário R$ 235 mil malversados, pagando também uma multa de R$ 471 mil. O litígio não está encerrado e caberá ao Tribunal Regional Federal julgar um recurso do parlamentar.

O comissariado do Planalto estava farto de saber da existência desse processo. Onipotente, achou perfeitamente natural que o incentivo à tavolagem entrasse na discussão no primeiro encontro do Conselho Político. Início de governo estimula a onipotência, mas exageraram.

Durante a campanha de 2002 e nos primeiros dias inebriantes de 2003, um tipo de megalomania primitiva e desonesta criou o mensalão: "Nós devemos a você, você cobra do Marcos Valério, ele toma dinheiro emprestado, nós vamos para o Planalto, um companheiro vai ao Banco Central, levanta a intervenção em dois bancos e o ervanário aparece". (Esqueceram-se de combinar com o russo Henrique Meirelles.)

Há uma forte carga de preconceito quando militantes do sindicalismo dos trabalhadores são nomeados para funções de relevo no governo. Busca-se transformar esse tipo de liderança em estigma. Se o indicado é um representante do sindicalismo patronal, tudo bem. Seu prestígio seria enobrecedor.

A ressurreição da quadrilha do mensalão depende apenas da Justiça e, até certo ponto, da opinião pública. Um governo que acredita na capacidade de mobilização dos sindicatos e entra em campo gritando "Bingo!" acha que pode tudo, em qualquer lugar, à hora que quiser. Engano. Olhado de dentro, o aparelho sindical pode ser lindo. Visto de fora, nem tanto.

Já se foi o tempo em que a morte de um sindicalista como Chico Mendes relacionava-se com uma causa. Nos últimos três anos foram assassinados pelo menos cinco dirigentes sindicais. Três eram tesoureiros de entidades. Em outubro mataram um diretor do sindicato dos motoristas de São Paulo, detentor de uma marca dramática: em 18 anos foram assassinados cinco diretores e sete funcionários do SindMotoristas.

domingo, setembro 26, 2010

Trem-Bala do PT irá do Oiapoque ao Chuí

O projeto Rio-SP ainda não saiu do papel e
custará o dobro, mas prometem triplicar a malha

O PROJETO DO TREM-BALA tornou-se um monumento à empulhação. Tratando-se de uma obra que desde o primeiro momento foi acompanhada pela ministra Dilma Rousseff, ela permite viajar num tópico de sua qualificação técnica e administrativa.

Em 2007 o trem faria a rota Rio-São Paulo, ficaria pronto antes da Copa de 2014, custaria R$ 18 bilhões, cobraria R$ 80 pela viagem e nada custaria à Viúva. Seria bancado pelos concessionários. O bólide não pararia no caminho, mas ninguém sabia dizer por quê.

Felizmente o Tribunal de Contas travou a proposta, apontando inconsistências na estimativa da demanda. O TCU encontrou uma tabela com números absurdos. Feita a denúncia, o consórcio italiano que encaminhou o estudo disse que aquela planilha não tinha sido posta lá por ele.

Em 2008 decidiu-se que o governo entraria no negócio e o Trem-Bala tornou-se uma das joias da coroa do PAC. A essa altura o preço foi estimado em mais R$ 18 bilhões, com diversas paradas, estendendo-se até Campinas, uma decisão que deveria ter sido tomada no primeiro momento. A ministra Dilma Rousseff defendia o projeto italiano mas ele foi moído no BNDES. Em maio daquele ano a comissária confirmava o custo previsto na literatura do PAC. O BNDES trabalhava com uma conta de R$ 22 bilhões.

Em 2009, aquilo que seria um projeto privado ainda não atarraxara um só parafuso, mas começou-se a falar na criação de uma empresa estatal para a obra. Quando ao custo, pulou para R$ 33 bilhões e as paradas seriam oito. O velho e bom BNDES deveria pingar R$ 20 bilhões.

Todos os prazos e custos do projeto estouraram. A tarifa Rio-São Paulo de R$ 80 já está estimada em R$ 200. Ofereceram-se isenções tributárias de ICMS, PIS/Pasep e Cofins aos interessados. (Coisa de R$ 500 milhões.) Os consórcios internacionais querem que o governo garanta a demanda e tudo indica que serão atendidos, apesar de um deles já ter dito que não precisa disso. (Com garantia de demanda, Eremildo, o Idiota, inaugura uma linha de ônibus para a Lua.)

Com a proximidade da eleição, o embuste ganhou uma nova dimensão. Em maio renasceu uma ideia de 2008 para estender o percurso do Trem-Bala a Belo Horizonte e Curitiba. No traçado Rio-Campinas ele percorreria 518 quilômetros. Com essa duas linhas, seriam mais 895 quilômetros.

Em julho o senador Aloizio Mercadante prometeu trabalhar para levar o trem a Bauru, Sorocaba e Ribeirão Preto. Mais 400 quilômetros, pelo menos. Os 518 km iniciais ainda estão no papel e já prometeram mais 1.300 km. Se o dia 3 de outubro demorar mais um pouco, os candidatos do governo oferecerão o Expresso Oiapoque-Chuí.

DILMÔMETRO
Um curioso percebeu que Dilma Rousseff tem uma característica indicativa que está disposta a fechar o tempo durante uma discussão. Basta ficar de olho na veia que passa na altura de sua têmpora esquerda.Quando ela se dilata, aí vem chumbo.

CINTURA REAL
O ex-presidente americano Jimmy Carter publicou o diário que manteve durante seu governo (1977-1981). No seu estilo, evita fofocas e maledicências. Mesmo assim, conta que a rainha Elizabeth cuida de seu chassis porque, se engordar, terá que fazer sete novos uniformes militares para vesti-los em diferentes paradas. Segundo ela, custam caro.

BOM SINAL
Dois candidatos a deputado, do Rio e de São Paulo, surpreenderam-se com uma novidade. A patuleia não gosta de receber santinhos com sugestões de votos para candidatos a senador, governador e presidente.
A chamada "marmita" tornou-se ofensiva, pois o cidadão se vê tratado como um ignorante, incapaz de escolher seus candidatos. Ele quer compor o próprio voto, como bem entender.

ESTILO-TÉDIO
Alguém precisa avisar ao ministro Cezar Peluso, presidente do STF, que, com as câmeras ligadas, seu estilo de professor entediado prejudica a qualidade de seus argumentos.
Contrapondo-se ao desempenho gestual e verbal de Ricardo Lewandovski e à serenidade de Carlos Ayres Britto, Peluso teria dificuldade até para defender a lei da gravidade.

DILMÔMETRO
Um curioso percebeu que Dilma Rousseff tem uma característica indicativa que está disposta a fechar o tempo durante uma discussão. Basta ficar de olho na veia que passa na altura de sua têmpora esquerda.
Quando ela se dilata, aí vem chumbo.

CINTURA REAL
O ex-presidente americano Jimmy Carter publicou o diário que manteve durante seu governo (1977-1981). No seu estilo, evita fofocas e maledicências. Mesmo assim, conta que a rainha Elizabeth cuida de seu chassis porque, se engordar, terá que fazer sete novos uniformes militares para vesti-los em diferentes paradas. Segundo ela, custam caro.

BOM SINAL
Dois candidatos a deputado, do Rio e de São Paulo, surpreenderam-se com uma novidade. A patuleia não gosta de receber santinhos com sugestões de votos para candidatos a senador, governador e presidente.
A chamada "marmita" tornou-se ofensiva, pois o cidadão se vê tratado como um ignorante, incapaz de escolher seus candidatos. Ele quer compor o próprio voto, como bem entender.

ESTILO-TÉDIO
Alguém precisa avisar ao ministro Cezar Peluso, presidente do STF, que, com as câmeras ligadas, seu estilo de professor entediado prejudica a qualidade de seus argumentos.
Contrapondo-se ao desempenho gestual e verbal de Ricardo Lewandovski e à serenidade de Carlos Ayres Britto, Peluso teria dificuldade até para defender a lei da gravidade.

EM FIM DE GOVERNO, RESSURGE O CARTÃO SUS
Depois de oito anos de inépcias, irregularidades e empulhações, o Ministério da Saúde acelerou o que seria uma reformulação do Cartão SUS, um plástico que guardaria a história das relações de um cidadão com a rede médica pública.

O Cartão SUS é um projeto do tucanato e se promessa de governo tivesse algum valor, desde o final de 2001 ele já estaria no bolso de 100 milhões de pessoas. Por pouco suas maracutaias não acabaram em CPI. Agora, no melhor estilo triunfalista, o ministério começou a rodar uma marquetagem e lançou o "Projeto Revitalização do Cartão SUS". Em nenhum momento informam o que aconteceu com essa iniciativa a ponto de ser necessário "revitalizá-la". Ela torrou R$ 400 milhões e deu em nada.

O Ministério da Saúde quer começar tudo de novo, com um projeto que, pela lei da gravidade, cairá no colo de duas ou três grandes empresas de softwares e equipamentos. A burocracia do doutor José Gomes Temporão nunca botou a cara na vitrine para explicar o fracasso do projeto.

Faltando três meses para o fim do governo, querem recriar o universo sem explicar por que a máquina do DataSus ficará de fora. Ao contrário das grandes empresas, ele trabalha com softwares livres. Se o DataSus não serve para nada, deveriam fechá-lo. O que acontecerá com o que já foi feito? A escassa coordenação que existe baseia-se num cadastro trabalhado pelo DataSus.

Num governo que defende o uso de softwares livres na máquina federal, o SUS quer se juntar à Polícia Federal e ao Detran, contratando programas fechados. Pode até ser o melhor caminho, mas a experiência mostra que, desde o início, o Ministério da Saúde fez uma opção preferencial pelas encomendas.

Compraram milhares de modems numa época em que a rede bancária começava a operar as contas de seus clientes pela internet. Nessa área, tudo o que podia dar errado errado deu. Querem apressar o negócio porque, se o dinheiro não for gasto logo, cairá em exercício findo. Nesse caso, a pressa destina-se a torrar logo o dinheiro da Boa Senhora.O doutor Temporão e Nosso Guia deveriam tomar a mais simples das decisões: O que não fizemos em oito anos não devemos tentar fazer em dois meses. Sobretudo se "fazer" significa fechar contratos milionários.

quarta-feira, julho 07, 2010

Cartão SUS, um fracasso tucano-petista

ELIO GASPARI

Dilma e Serra podem dizer o que farão
com um programa que torrou R$ 400 mi e deu em nada

JOSÉ SERRA e Dilma Rousseff compartilham o fracasso da implantação do Cartão SUS, um projeto anunciado em 1997, que já comeu R$ 400 milhões da Viúva e até agora deu em nada. Fez água até mesmo em municípios onde seria realizada uma experiência piloto.

Nada melhor que uma campanha eleitoral para que digam como pretendem consertar o desastre. A ideia era boa: cada cidadão ganharia um plástico em cuja fita magnética estaria gravado seu histórico médico. Mataria a pau certas fraudes, facilitaria a cobrança do ressarcimento nos casos de clientes da rede de convênios privados e seguradoras. Desbastaria a floresta burocrática da saúde pública.

No final de 1997, quando o governo anunciou a novidade, o uso da internet na rede bancária ainda engatinhava. Passaram-se 12 anos e 31% das transações dos brasileiros são feitas em computadores pessoais. A rede tornou-se a principal plataforma de acesso ao sistema financeiro, com 8,4 bilhões de transações por ano, 23 milhões por dia. (O SUS faz 1,3 bilhão de transações anuais.)

Para a banca, funcionaram o interesse e a vitalidade da iniciativa privada. No Ministério da Saúde, prevaleceram o desinteresse, a cobiça dos intermediários de fornecedores e o horror que a burocracia da saúde (pública e privada) tem da transparência.

Dilma e Serra já fizeram duas palestras sobre saúde, esbanjaram platitudes e não tocaram no assunto. Assim como no caso do fracasso do ressarcimento do SUS pelas operadoras privadas, exercitaram o que a professora Lígia Bahia chama de "elipse discursiva". Se os candidatos não sabem o que fazer, podem pedir à Febraban que envie uma força-tarefa ao Ministério da Saúde para coordenar o projeto.

Não se trata de explicar o que deu errado, nem de jogar a responsabilidade sobre a administração alheia. Bastam alguma honestidade no reconhecimento do fracasso e um compromisso com metas de custos e de prazos.

Quando Serra era ministro da Saúde, o PT acumulou denúncias contra as licitações do Cartão SUS e chegou pedir a criação de uma CPI. Os companheiros estão há sete anos no governo e não fizeram nada, nem CPI. O ministro José Gomes "ordenou em 2008 a reformulação" do projeto.

Até hoje, nada. Novas licitações, novos estudos e novas brigas resultaram no seguinte: milhares de terminais continuam empacotados, com sistemas operacionais e aparelhos caducos. Tanto no mandarinato tucano como no petista, o Cartão SUS só funcionou para empulhações publicitárias.

Se blá-blá-blá tucano resolvesse, em 1998 o sistema estaria implantado. Pela parolagem petista, desde 2001 haveria pelo menos 44 cidades servidas pelo cartão, beneficiando 13 milhões de pessoas.

O fracasso é explicado por diversos fatores: megalomania, guerras burocráticas, inépcia, ignorância, mais as velhas e boas redes de compadrio. Sempre que o governo precisa da internet para tomar dinheiro da choldra, sua capacidade é escandinava. Quando se trata de recorrer à informática para melhorar o serviço público, empilham-se desastres, espertezas e propaganda enganosa.

Se Dilma e Serra fizerem só aquilo que seus governos prometeram e não entregaram, Fernando Henrique Cardoso e Lula lhes agradecerão.

domingo, junho 27, 2010

Dilma e Serra são parceiros de um fracasso

Desde 1998, o governo não consegue receber
das operadoras privadas de saúde o ressarcimento do SUS


ELIO GASPARI

O CERIMONIAL DAS campanhas eleitorais determina que a oposição prometa rios de mel, os governistas digam que eles já existem e ambos joguem os problemas sobre as costas dos outros.

Dilma Rousseff e José Serra formam uma dupla rara. Compartilham em silêncio pelo menos um desastre e poderiam explicar à patuleia o que pretendem fazer para consertá-lo. Trata-se de discutir a ruína do ressarcimento ao SUS dos custos que caem sobre a rede pública de saúde pelo atendimento dos clientes dos planos privados.

Essa questão está aí desde 1995, no início da gestão tucana, e é lei desde 1998.
O fracasso prosseguiu durante os oito anos petistas. Segundo o Tribunal de Contas, entre 2003 e 2007 a Viúva deixou de coletar pelo menos R$ 2,6 bilhões das operadoras de planos de saúde cujos clientes são atendidos na rede pública. A conta pode ter chegado a R$ 5 bilhões.

O governo entendeu que, se um cidadão paga um plano privado, a operadora ganha dinheiro bancando custos de sua saúde.

Caso um cliente do melhor plano do país sofra um grave traumatismo craniano num acidente de automóvel, deve ser levado para a emergência de um pronto-socorro público. (Se for para o melhor hospital privado da cidade, arrisca morrer antes da chegada da equipe de neurocirurgia, pois só há esse plantão em alguns pontos na rede do SUS.)

A vida desse paciente será decidida nas primeiras 24 horas, a um custo de pelo menos R$ 20 mil. Noutro exemplo, um cidadão precisa fazer hemodiálise, vai para a rede pública e, novamente, nada de reembolso.

As operadoras surram a Viúva há 12 anos. Marcando em cima no Congresso, na nobiliarquia médica e na Agência Nacional de Saúde Complementar, desossaram todas as iniciativas dos governos. Quatro mil cobranças estão travadas na Justiça.

Teatralmente, o ministro José Gomes Temporão enganou quem lhe dava crédito, inaugurando um novo sistema de cobrança que simplesmente não existia.

A ANSS tem agora cerca de 200 funcionários trabalhando na cobrança do ressarcimento. Estimando-se em R$ 4.000 o salário de cada um, custarão R$ 10 milhões anuais. Em 2008, no auge da ruína, a agência coletou R$ 2,6 milhões.

Dilma e Serra podem responder: noves fora platitudes, o que tenho a propor? Recomeçar do zero, mobilizando a opinião pública, como fez o companheiro Obama, pode ser uma boa ideia.

RECORDAR É VIVER

O poderoso banco de investimentos Goldman Sachs está lutando bravamente para entrar na engenharia financeira da capitalização da Petrobras. Dos grandes, é o único que está fora do negócio.

Deveria ser chamado a participar, desde que seu principal executivo, o doutor Lloyd Blankfein, peça desculpas públicas por uma molecagem e por um mau conselho que seu banco deu aos brasileiros.

A molecagem: No início da campanha presidencial de 2002, quando o dólar começou a subir, o Goldman Sachs criou o Lulômetro. Era uma elegante equação onde cada interessado podia prever o preço do dólar depois da eleição, mudando as variáveis de acordo com suas expectativas políticas. Num resultado otimista, a vitória de Lula levaria a moeda americana de R$ 2,70 para R$ 3,04. Caso José Serra fosse eleito, ela cairia para R$ 2,52. Terrorismo eleitoral, do bom.

O mau conselho: Em janeiro de 1999, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso estava afogado numa crise cambial, o Goldman Sachs recomendou uma "medida de grande impacto", a privatização da Petrobras, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil. Paulo Leme, diretor de mercados emergentes do banco, acreditava que o bota-fora aumentaria a credibilidade do país, e a Petrobras renderia até US$ 60 bilhões. O valor de mercado da empresa estava em US$ 15,4 bilhões. Hoje está em US$ 165 bilhões. Leme era um queridinho da ekipekonômica tucana, que desejava colocá-lo numa diretoria do Banco Central. Foi abatido em voo pelo então ministro José Serra.

CONVERSÃO DO CRENTE

O resultado da pesquisa CNI/ Ibope levanta a suspeita de que o tucanato esteja com a febre dos candidatos mordidos pelo mosquito que os leva a fazer campanhas com o objetivo de converter os convertidos. Essa prática ajudou a derrotar Lula em três eleições presidenciais.

Pregando para os convertidos, José Serra consegue que seus eleitores multipliquem a raiva que têm de Nosso Guia. O problema é que uma pessoa com cinco vezes mais raiva do PT continua valendo um só voto.

RETRANCA


O comissariado de Dilma Rousseff decidiu radicalizar a blindagem da candidata. E só deve se expor a diálogos, entrevistas ou sabatinas de risco zero. Se puder, ficará no "Bom dia, boa tarde".

OFF DEMAIS

A novela da indisciplina militar americana no Afeganistão está longe de terminar. O general Stanley McChrystal ficou no papel de paspalho por conta de seu exibicionismo pueril e cinematográfico, mas seu papel era secundário.

Desde que entrou na Casa Branca o companheiro Obama percebeu que os generais tentavam emparedá-lo, impondo-lhe a expansão da guerra. Nesse jogo, McChrystal sempre foi um peão de seu colega David Petraeus, muito mais esperto, ambicioso e hábil na manipulação de políticos e jornalistas. Petraeus foi para o lugar de McChrystal.

Quando se vê que McChrystal e seus Rambos foram apanhados dizendo bobagens para um jovem free-lancer que conheceram em Paris, percebe-se que os craques da grande imprensa que trabalham em Washington e Kabul estão ouvindo demais e publicando de menos.

O EMBAIXADOR INGLÊS CONTOU TUDO

Há um bom livro na praça. É "Diplomacia Suja", de Craig Murray, embaixador da Inglaterra no Uzbequistão de 2002 a 2004, quando foi posto para fora do serviço diplomático. Seu subtítulo diz tudo: "As conturbadas aventuras de um embaixador beberrão, mulherengo e caçador de ditadores, sem um pingo de arrependimento".
São três as qualidades do livro. Primeiro, dá uma ideia do que é a vida nas tiranias da Ásia Central pós-soviética. Islam Karimov, o cleptocrata uzbeque, ferve opositores.

Depois, Murray expõe a hipocrisia das chamadas "potências" ao lidar com essas ditaduras. Para os Estados Unidos, Karimov é um santo porque abriga uma base militar e torra as riquezas minerais do país.

Quando o ex-embaixador narra a maquinação que fraudou um relatório do FMI, entende-se o que foi a festa da globalização do século passado. Finalmente, o livro retrata o mundo mesquinho e covarde de uma burocracia diplomática. Nesse sentido, é uma leitura útil para quem vive ou pretende viver nesse meio. Para quem fantasia um serviço diplomático chique e inteligente, é um instrutivo choque de realidade.
Murray soa vulgar e machista, mas fica um registro: ele e Nadira, a stripper que conheceu em Tashkent, vivem juntos e felizes em Londres.

quarta-feira, junho 23, 2010

Serra e o "certo arranjo que não funciona"

ELIO GASPARI

Estado paga juros altos a quem não trabalha,
arrecada muito de quem rala e investe pouco

DURANTE SUA SABATINA na Folha, José Serra voltou a enunciar sua crítica à política econômica do governo Lula (inclusive naquilo que ela tem de continuação do mandarinato tucano, no qual foi ministro): "O Brasil tem três ou quatro recordes de que eu me envergonho. As altas taxas de juros e impostos, a "lanterninha" nos investimentos governamentais e a maior hipervalorização da moeda no mundo. Tem um certo arranjo aí que não funciona, e que eu me proponho a consertar".

Enunciado desse jeito, move poucos votos, mas significa o seguinte: com a taxa de juros a 10,25% ao ano, o Brasil continua a ser o país do mundo onde mais se ganha dinheiro sem precisar trabalhar, emprestando-o ao governo.

Esse mesmo país tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo (35% do PIB, pouco abaixo do patamar de 36,45% deixado pelo tucanato em 2003).

Em português de campanha: o Brasil é um dos países onde mais se trabalha para sustentar o governo que, por sua vez, melhor remunera seus gordos credores. De uma lista de 135 países, o Estado brasileiro, que tanto arrecada, disputa com o Turcomenistão a menor taxa de investimento do mundo.

Finalmente, o real sobrevalorizado barateia as compras em Miami, mas dificulta as exportações. Serra repetiu que o Brasil exporta celulose e importa papel. A taxa de investimento global da economia tem melhorado, mas ainda está abaixo da russa, indiana ou chinesa. "Tem um certo arranjo aí que não funciona."

O candidato do PSDB já disse que essa não é uma divergência entre governo e oposição, mas questão de Estado. Nem na Suíça a linha divisória de uma campanha pode passar por temas tão arcanos, mas, de fato, o arranjo não funciona.

Os conselheiros do ex-ministro Antonio Palocci sabem disso, Lula acha que esse problema pode ficar para depois, até porque o curto-circuito só ocorrerá se alguém encostar os fios desencapados e nem na crise de 2008, a da "marolinha", isso aconteceu.

Um dia esse arranjo para de funcionar, por conta de fatores externos ou mesmo internos. Nos anos 70, quando o Brasil festejava o milagre econômico que acarpetou o asfalto natalino da rua Augusta e deu a Lula o seu primeiro carro, pouca gente prestava atenção em números estranhos.

Entre 1970 e 1973, a produção de bens de consumo duráveis, como geladeiras e aparelhos de TV em cores, praticamente triplicara. Já a produção de bens intermediários, como parafusos, lingotes e mercadorias capazes de atrair novas levas de trabalhadores, crescera apenas 45%. E daí, se dá para empurrar com a barriga? Era o prenúncio de uma pressão inflacionária que, associada a duas crises do petróleo, destruiria a ditadura e infelicitaria a primeira década da redemocratização.

Nosso Guia já avacalhou um Congresso que recebeu avacalhado, entronizou as centrais sindicais como um poder paralelo e, finalmente, vem dando um toque carnavalesco à sua sucessão. Num clima de festa, preocupações como as de Serra merecem pouca atenção. Afinal, pode-se empurrar o arranjo com a barriga. Uma coisa é deixar o debate para depois, sinal de astúcia política ou oportunismo eleitoral. Outra é achar que esse "certo arranjo" funciona.

quarta-feira, março 03, 2010

Serra joga parado, mas quer preferência

ELIO GASPARI

O PSDB quer o pós-Lula,
mas como não o explica,
pode estar criando o pré-Dilma

JOSÉ SERRA e o PSDB precisam se lembrar das palavras do técnico de futebol Gentil Cardoso: "Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência". O governador de São Paulo e o tucanato não se deslocam e não pedem, mas querem a preferência da patuleia. O resultado está aí: seis meses antes do início do horário gratuito de televisão, Dilma Rousseff, o poste de Lula, encostou no grão-tucano.

O PSDB está preso numa armadilha que construiu com nervos de aço e cérebros de Bombril. Tem um candidato que não diz que é candidato, mas também não se animou a disputar prévias contra Aécio Neves que, por sua vez, também não insistiu muito no assunto.

Habitualmente, os candidatos negam suas pretensões para esconder o jogo. Esse não parece ser o caso de Serra. É provável que ele esteja em dúvida e o precedente histórico leva água para essa hipótese. Em 2006, ficou a impressão de que ele se afastou da disputa porque a candidatura de Geraldo Alckmin dividia o partido, mas o principal motivo de seu recuo foi o medo de trocar uma provável eleição para o governo de São Paulo por uma segunda derrota na disputa pelo Planalto.

Em dezembro de 2008, Serra tinha entre 41% e 47% das preferências no Datafolha e Dilma, no máximo, 11%.

Contrariando as melhores expectativas do tucanato, a candidata de Nosso Guia chegou a 28% e Serra caiu para 32%. A ascensão do poste deve-se exclusivamente ao patrocínio de Lula e ao julgamento favorável que a opinião pública faz de seu governo. Quem acha que essa afirmação é exagerada pode enumerar três ideias próprias da candidata. Conseguindo, ganha uma viagem a Cuba. Durante a campanha, seus adversários enumerarão as leviandades e malfeitorias encontradas nos projetos do trem-bala (antes de ser entregue ao BNDES) e da banda larga para a internet, mas essa discussão mal começou.

A pergunta de R$ 1 milhão continua no ar: admitindo-se que Serra queira ser presidente, o que é que ele pretende fazer? Ou ainda, o que é que o tucanato tem a oferecer? Alguém lembra o que Alckmin propunha? Detestar Nosso Guia ou ter horror ao PT e aos seus mensaleiros pode ser um desabafo, mas não é uma solução. Se o PSDB acha que pode disputar uma eleição presidencial denunciando o contubérnio nuclear de Lula com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, problema dele.

Como ensinava Ulysses Guimarães: "O Itamaraty só dá (ou tira) voto no Burundi".

A voz mais articulada e insistente do oposicionismo tucano é a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sua corte reúne sábios de agenda vencida, como os marqueses do Império que se reuniam em Paris para falar mal do marechal Floriano Peixoto.

Sete anos depois de ter saído do Planalto, falta ao PSDB uma crítica propositiva do mandarinato petista. Agenda negativa, o tucanato teve, mas enferrujou. O mensalão rendeu, até o momento em que arranhou as contas da campanha do senador Eduardo Azeredo, que à época presidia o partido. Passaram-se cinco anos e o encosto reapareceu na administração de seu aliado José Roberto Arruda. Aécio Neves chegou a criar a expressão "pós-Lula", mas ninguém sabe o que isso significa em termos de salários, saúde, segurança e educação. Desse jeito, quando o PSDB acordar, descobrirá que criou o pré-Dilma.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

A crise de 2008, contada por Henry Paulson

ELIO GASPARI

QUANDO UMA economia vai bem, quem quer discutir maus números estruturais, como um setor público que come 37% do PIB e drena a capacidade de invstimento do país, parece ave de mau agouro. Pior ainda se essa pessoa teme que uma onda de protecionismo ou uma contração da economia chinesa venham a travar as exportações brasileiras. Falar dos riscos de uma possível inflação americana que jogue os juros mundiais para cima passa a ser verdadeiro mau olhado, coisa antipatriótica num país que voltou a sorrir.

Os profissionais do otimismo do mercado e dos palácios ganharam um presente. é o livro com as memórias da crise de 2008, escrito pelo então secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, um sacerdote da banca (comandou a casa Goldman Sachs de 1998 a 2007) e apóstolo do mercado. Em "On the Brink", ou "Na Beira do Precipício"), ele mostra como os sábios de Washington e os banqueiros de Nova York chegaram a um passo da explosão da economia mundial sem saber o que estava acontecendo, muito menos o que deveriam fazer. Salvaram-se quando tiveram uma ideia herética: ir buscar o remédio na Bolsa da Viúva.

Paulson comove pela honestidade com que conta seus próprios erros. Na primeira reunião que teve com Bush e sua equipe, previu a possibilidade de uma crise cíclica (mantra astrológico dos economistas) e deixou de mencionar os riscos das hipotecas imobiliárias. De suas memórias emerge um homem comum, religioso, frugal e apaixonado por uma mulher excepcional, despretensioso o suficiente para revelar que durante a crise teve oito acessos de vômito seco.

As lembranças do homem público mostram que a ekipeconômica de Bush estava mais perdida que cego em tiroteio. Quando salvaram a Bear Sterns, não sabiam como resgatar a Lehman Brothers. Quando quebrou a Lehman, não tinham ideia do que fazer com a seguradora AIG. Como se sabe, a casa Morgan Stanley esteve a dez dias da quebra, e a própria Goldman Sachs arriscava ir à garra antes do fim de 2008. Tiraram do chapéu uma sopa de planos e de letras: Hera, Hope, PDCF, Talf, TLGP. O que deu certo mesmo foi a Tarp, codinome da Bolsa da Viúva.

Paulson mostra Chuck Prince, o principal executivo do Citi, pedindo a intervenção do governo para conter a farra papeleira em reuniões fechadas. Em público, ele sustentava que o mercado devia dançar enquanto houvesse orquestra tocando. Surpresa: o experiente John McCain, candidato republicano à Presidência, revelou-se um irresponsável. O inexperiente Barack Obama, um craque, ainda que ingrato.

Para quem gosta de teorias conspiratórias, Paulson diz duas vezes que só durante as crises é possível tomar medidas audaciosas. Apesar dessa frase ser uma platitude, leva água para a teoria segundo a qual a turma que não sabia de nada sabia de tudo e deixou a Lehman quebrar para dar um choque na opinião pública mundial. Para quem quer mais conspiração, quando a crise amainou, a Goldman Sachs tornou-se a maior casa de Wall Street.

Graça, Henry Paulson não tem, mas gostou de contar que, durante uma reunião do G20, em Washington, o presidente Bush entrou na sala, disse algumas palavras e ia ouvir o ministro da Fazenda brasileiro, mas Guido Mantega informou que falaria na sua língua nativa (o doutor não fala inglês). Bush aliviou-o: "Vá em frente, eu mal falo a minha".

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Os gênios e a massagista milionária

ELIO GASPARI

Os magnatas da internet
trabalham como mouros,
mas quem ficou milionária
com uma só ideia foi Bonnie Brown

O GOOGLE tentou e quase conseguiu. Ofereceu US$ 550 milhões pelo sítio Yelp, mas, quando estavam perto do acerto, um dos dois donos do negócio, Jeremy Stoppleman, 31 anos, resolveu congelar a conversa.

Como o fim do ano é uma ocasião em que muita gente faz planos para ganhar rios de dinheiro, a história de Stoppleman, dos criadores do Google e de uma massagista de San Francisco ajuda a organizar sonhos. Frequentemente as pessoas olham para as histórias dos milionários e pensam: "Essa ideia podia ter sido minha" e voltam às suas rotinas. Infelizmente para os milionários de sonhos, os magnatas do Google e do Yelp, eles não enriqueceram por conta de ideias, mas pelo que ralaram para manter seus projetos de pé. Milionária de uma ideia, só a massagista.

Stoppleman e seu sócio Russel Simmons, de 30 anos, fundaram em 2004 um sítio de serviços e relacionamento para os moradores de San Francisco. Dão dicas de restaurantes, hotéis, serviços médicos, programas culturais, ou mesmo cabeleireiros. Expandiram-se para 200 cidades, com mais de 2,5 milhões de recomendações e 25 milhões de acessos anuais.

Olhado de longe, o sucesso do Yelp é um caso de triunfo de uma boa ideia. Visto de perto, a ideia é banal. Deu certo porque Stoppleman e Simmons estudaram, aprenderam e ralaram em cima dos projetos. Ambos são feras da engenharia de computadores e tiveram fé nos seus tacos. Simmons, um gênio matemático, formou-se aos 16 anos. Stoppleman era vice-presidente do PayPal, largou a boca e foi à luta. A primeira versão do sítio dava pouca importância aos comentários dos internautas. Quando seus donos perceberam que a audiência estava nesse detalhe, reprogramaram a página. Atualmente uma pessoa pode entrar no Yelp com seu celular para saber a qualidade da lavanderia, do restaurante ou da manicure da vizinhança do lugar onde está.

(Stoppleman e Simmons conseguiram US$ 20 milhões com os "anjos investidores", pessoas que já tiveram uma grande ideia, ficaram milionárias e dedicam-se a procurar jovens com grandes ideias.)

Num ponto muito menor, o caso do Yelp saiu da matriz que gerou o Google. O gigante da internet começou numa garagem com cinco empregados e tem hoje cerca de 20 mil funcionários. Quando Larry Page e Sergey Brin fundaram o Google eles já eram craques na Universidade Stanford. A ideia de criar uma ferramenta de busca também era banal. O êxito saiu da obsessiva perseguição do interesse do consumidor e da sua liberdade de navegação. Os engenheiros do Google revolucionaram o mercado de publicidade e espalharam o pânico nos nichos de fabricantes de carruagens do universo das comunicações.

Stoppleman, Simmons, Page e Brin viraram milionários porque tiveram ideias banais, armaram grandes projetos e perseguiram-nos com inteligência e trabalho. Quem trabalhou pouco e virou milionária só com uma ideia arriscada, sem trabalhar muito, foi a massagista Bonnie Brown. Em 1999, saindo de um divórcio dilacerante, ela respondeu a um anúncio de um tal de Google. A senhora teve uma ideia: pediu (ou aceitou) o equivalente a R$ 3.000 por mês e um punhado de ações. Cinco anos depois decidiu ir embora, embolsou alguns milhões de dólares e teve outra ideia: sacou só uma parte do ervanário. Hoje ela tem massagista e faz filantropia.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

De W.Rehnquist@edu para J.Barbosa@gov

ELIO GASPARI

Diga aos seus colegas do STF que
se eu estou ao lado dos jornalistas,
o caso é sério, pois não gosto dessa gente

ASSUNTO: CENSURA à imprensa Prezado ministro Joaquim Barbosa,

O senhor me detesta, mas achei que devia lhe escrever porque temos uma coisa muito forte em comum e eu precisava me comunicar com algum ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro. Hoje vocês vão votar o caso da censura imposta ao jornal "A Província de S. Paulo" (terá mudado de nome? Quem me fala dele é o Pedro de Alcântara, que por aí foi rei).

Preocupo-me com a projeção histórica de vosso tribunal.

Ministro Barbosa, eu estive durante 33 anos na Corte Suprema dos Estados Unidos (1972-2005), 19 dos quais presidindo-a. Ajudei a desmanchar o ativismo judicial que o senhor aprecia. Para ser sincero, também não gosto de suas ideias, mas temos uma velha e dolorosa afinidade: a dor nas costas. Nossos inimigos vivem na eterna expectativa de que venhamos a renunciar. Sei de colegas seus que, além de torcer pela sua desdita, murmuram que sua saída ocorrerá em 2013. Fique firme. Minhas dores eram tamanhas que me viciei em Placidyl. Fui internado, alucinei e ouvi vozes. Como o senhor, eu não aguentava ficar sentado por mais de duas horas e, por isso, perdi bons filmes, como "O Resgate do Soldado Ryan". Aguentei a coluna estragada e morri no cargo em 2005, de câncer na tiroide, aos 81 anos.

A Constituição de vocês, como a nossa, proíbe a censura e o caso de hoje envolve o direito de a imprensa publicar gravações colhidas num inquérito cujo sigilo foi rompido. Eu sei o que há nele. Tenebrosas transações contra o erário e os princípios da moral pública e privada.

A censura será defendida sob o disfarce de sua condenação, desviando-se o debate para a questão de um sigilo que não foi quebrado pela imprensa. Bloquear a notícia não restabelece o sigilo, apenas estabelece a censura. É um truque antigo: "Sou contra a censura, mas ela não está em discussão... O que temos que decidir é outra coisa..."

Esse tipo de sustentação é eficaz em juízos de primeira instância. Com boa vontade, serve até para um recurso. Para a Suprema Corte, não. O Supremo Tribunal Federal é o guardião da Carta Constitucional. Num caso desses, ou ele cresce decidindo o litígio na sua essência, a livre circulação das informações, ou acanha-se, confundindo-se em aspectos periféricos do litígio.

Tenho autoridade para dizer isso porque esse foi o meu caminho em 1971 quando, como vice-procurador-geral, tentei impedir a publicação de um conjunto de documentos secretos relacionados com a Guerra do Vietnã. Eu argumentei que não se tratava de censura, mas de defesa da segurança nacional. Em menos de um mês a corte julgou o caso e perdi por 6 a 3. Se eu tivesse prevalecido e o Pentágono liberasse mil páginas por ano, o serviço estaria concluído em 1978. A guerra acabou em 1975. Era de censura que se tratava.

A imprensa já fez muito mal ao mundo, mas a Constituição não manda que ela seja boa, manda que ela seja livre. Quem me conhece sabe que eu não gosto de jornais nem de jornalistas. Raramente vou além do noticiário esportivo e metropolitano, mas gosto das palavras cruzadas.

Diga aos seus colegas que, quando o Bill Rehnquist está do mesmo lado que os jornalistas, o caso é sério.

Cordialmente,

William Rehnquist

quarta-feira, novembro 25, 2009

Os guerrilheiros da história

ELIO GASPARI

Talvez eles tenham sido 50 e só três sobreviveram,
mas preservaram a memória do Gueto de Varsóvia

ESTÁ CHEGANDO às livrarias "Quem Escreverá Nossa História? - Emanuel Ringelblum, o Gueto de Varsóvia e o Arquivo Oyneg Shabes", do professor Samuel Kassow. É um livro excepcional, que conta um emocionante episódio de heroísmo.

Emanuel Ringelblum tinha 39 anos, mulher e filho, quando a Alemanha invadiu a Polônia. Professor de história e militante da esquerda sionista, recusou-se a sair da cidade. Em outubro de 1941 foi para o gueto, onde os alemães confinaram 400 mil judeus (um terço da população da cidade) numa área murada de 2,5 km2 (o Leblon tem 2,3 km2). Lá o professor formou a Oyneg Shabes (Alegria do Sábado), uma organização clandestina que teve entre 50 e 60 militantes. Juntou empresários, poetas, economistas, professores e, a certa altura, até crianças. Seu objetivo era preservar a memória do que acontecia no gueto. Aquilo que ninguém imaginara não podia ser esquecido.

Durante dois anos os guerrilheiros da história fizeram uma centena de entrevistas, acumularam manuscritos e pesquisaram metodicamente o cotidiano do gueto. (Em janeiro de 1943 a Oyneg Shabes fez chegar a Londres um depoimento detalhado do início do extermínio dos judeus nos campos de concentração.)

Milhares de páginas, objetos e fotografias foram enterrados em pelo menos três lugares. Terminada a guerra, a organização tinha três sobreviventes. Em 1946, um deles achou o primeiro esconderijo, recuperando dez caixas de documentos. Quatro anos depois desenterraram dois latões de leite, repletos de papéis. O terceiro lote ainda não foi achado.

O Gueto de Varsóvia revoltou-se e foi arrasado. Ringelblum e sua família esconderam-se num porão da vizinhança até março de 1944, quando foram descobertos. Na prisão, o professor soube seria possível resgatá-lo da cadeia. Machucado pelas sessões de tortura, ele tinha o filho Uri no colo quando perguntou o que poderiam fazer pelo menino e pela mulher. Nada, disseram-lhe. "Morrer é difícil?", perguntou. Os três foram fuzilados em algum lugar das ruínas do que fora o gueto.

A grandeza do livro do professor Kassow está na apresentação seca e metódica de uma história que tem tudo para deslizar na direção dos sucessos de bilheteria. Sua narrativa chega a ser chata quando descreve as tendências da esquerda judaica na Polônia.

Quando o leitor entra no gueto, percebe que Kassow lhe impôs o seu ritmo, calibrou-lhe a curiosidade. Ele é levado ao cotidiano do gueto pelo historiador, não é o gueto que vem a ele como mais uma história da Segunda Guerra. Não há alemão bonzinho como n'O Pianista, nem a sensualidade da camiseta molhada de uma prisioneira da "Lista de Schindler". Fome, medo, malvadeza e miséria aparecem sem que Kassow levante a voz. A naturalidade com que os alemães matavam. A violência da polícia judaica e o terror imposto pelas suas incursões sanitárias, raspando a cabeça das mulheres e varejando suas casas.

Os guerrilheiros de Ringelblum registraram as oscilações dos preços e salários, redigiram ensaios sobre a economia do gueto e cumpriram os projetos da pesquisa como se estivessem numa centenária universidade europeia. Ringelblum e seus guerrilheiros documentavam o Holocausto no seu aspecto mais terrível, o monótono cotidiano da fome e da humilhação.

domingo, agosto 16, 2009

Marina e Lina viraram feras, ótimo

ELIO GASPARI

Duas mulheres mostraram à máquina do poder que as servidoras não devem levar desaforo para casa

MARINA SILVA E LINA VIEIRA são duas mulheres que decidiram servir ao público, uma na militância política, outra nos quadros do Estado. Uma saiu da floresta onde viveu analfabeta até a adolescência. A outra, oriunda de família mais afortunada, teve a educação dos privilegiados. Em apenas uma semana tornaram-se personagens relevantes da vida nacional, lançando um pouco de luz sobre um fenômeno antigo, mas pouco reconhecido: a singularidade do gênero feminino no serviço público.

As mulheres viveram em posição secundária durante cinco séculos. A primeira médica brasileira, Maria Augusta Generoso Estrela, formou-se nos Estados Unidos em 1887. A primeira advogada diplomou-se em 1925 e só em 1982 Esther de Figueiredo Ferraz chegou ao Ministério da Educação. De lá pra cá esse jogo mudou. Centenas de milhares de brasileiras buscam o serviço público como caminho para a independência e o reconhecimento profissional. Todas as generalizações são perigosas, inclusive esta, mas as mulheres independentes precisam do rigor, das normas e do respeito ao interesse público para proteger suas qualificações pessoais.

Marina Silva e Lina Vieira saíram daquele pedaço da sociedade brasileira que os poderosos consideram irrelevante para o grande jogo do poder. Uma senadora do Acre, de fala mansa, não pode ter importância num assunto como a sucessão presidencial.

Quando ela abandonou o Ministério do Meio Ambiente, tentou-se resolver o problema com uma substituição cenográfica, atribuindo-se seu desencanto a uma excentricidade amazônica.

Deu errado e ela já avisara: "Perco o pescoço, mas não perco o juízo". Da mesma forma, uma secretária da Receita Federal pode ser dispensada como lenço de papel, sem explicação respeitável. Bastaria murmurar que era incompetente e a senhora saberia seu lugar. Deu errado.

Os dois casos deixam uma lição para os sábios do poder nacional: o Brasil melhora quando uma mulher vira fera a serviço do Estado e elas sabem que, a certa altura de suas vidas, ou viram fera ou são tratadas com o respeito e admiração que se dá aos lenços da casa Hermès.

O STF SALVOU A VIÚVA E MATOU A BOLSA IPI

O Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que o crédito tributário de IPI reivindicado pelos exportadores está extinto desde 1990. (Faz tanto tempo, que não custa lembrar: Nelson Mandela foi solto em fevereiro daquele ano.) Com o patrocínio da Fiesp, os empresários sustentavam que era necessário evitar um julgamento que poderia obrigar o governo a indenizar os exportadores. Contrabandearam a Bolsa IPI numa medida provisória de casas populares e habilitaram-se a receber um prêmio de 15% sobre o valor de seus negócios até o final de 2002. Segundo a Procuradoria da Fazenda Nacional, a Viúva morreria em pelo menos R$ 144 bilhões. Numa unanimidade típica de sua época, o Senado aprovou a malandragem. A MP passou pela Câmara com votos de todos os grandes partidos e o apoio decisivo do PSDB.

Expressando os argumentos dos interessados, o empresário Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da Funcex, disse o seguinte: "Não se trata mais de saber quem tem ou não razão, mas de procurar encerrar essa disputa tributária com muito equilíbrio e bom senso".

Ao contrário: tratava-se de saber quem tinha razão e o Supremo Tribunal Federal estava lá para isso. A Viúva estava certa. A cavalgada da MP revelou-se um esforço desesperado para driblar o Supremo. O contrabando da MP está na mesa de Nosso Guia e o ministro Guido Mantega pediu formalmente que a astúcia seja vetada.

SEM REMÉDIO

Ficou mal na foto o ministro José Gomes Temporão. Foi a uma reunião na Câmara e o deputado Miro Teixeira perguntou-lhe quantas pessoas morreram de gripe suína depois de terem recebido a devida medicação até 48 horas depois do aparecimento dos sintomas. O ministro falou, falou, mas não respondeu. Cobrado, informou: "Não sei, e ninguém sabe".

RECORDAR É VIVER

O governo americano salgou suas relações com a América Latina expandindo sua presença militar na Colômbia. Depois de perder a base de Manta, no Equador, e de desistir de outra, em Marechal Estigarribia, no Paraguai, o Pentágono reescreveu as normas de sua presença. A operação colombiana não instalará bases, mas permitirá que militares americanos, comandados por oficiais americanos, operem em quartéis colombianos.

Guardadas as diferenças logísticas, em 1956 os Estados Unidos tentaram obter de Juscelino Kubitschek um acordo que lhes permitia instalar postos de rastreamento de mísseis em Maceió, Natal, Fortaleza, Belém e Fernando de Noronha. JK cedeu Noronha e, pelo acordo, brasileiros não podiam ter acesso a algumas das dependências do posto de observação. A base foi desativada em 1965 e no seu prédio funciona hoje um hotel.

TEMER NA VICE

Pelo andar da carruagem, o deputado Michel Temer é o favorito para a posição de candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff. Seus maiores adversários são os esqueletos e dragões guardados nos armários da contabilidade da Câmara.

SENADO

Os poetas sabem de tudo. No seu "Mafuá do Malungo", Manuel Bandeira incluiu um retrato do "Sapo-Cururu":
"Sapo-cururu
da beira do rio.
oh que sapo gordo!
oh que sapo feio!
Sapo-cururu
da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
povoléu tem frio.
(...) Sapo-cururu
da barriga inchada.
Vôte! brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República."

Segundo Eugênio Nascimento, "vôte" é uma interjeição que manifesta repugnância a alguma coisa. Por exemplo: "Ele come até cobra assada. Vôte.")

NO PULMÃO

Uma ilustração para os delírios da banca antes do estouro de 2008: o Banco Lehman Brothers, como alguns cassinos de Las Vegas, injetava oxigênio nos seus dutos de ar refrigerado para aumentar o pique de seus operadores.

COISAS NO LUGAR

Nosso Guia reconheceu que tem uma dívida de gratidão com o doutor Henrique Meirelles, que devolveu uma cadeira de deputado federal para ocupar a presidência do Banco Central.

Por mais grato que estivesse, em abril do ano passado, antes da crise mundial, Lula decidiu defenestrar o doutor e convidou para o seu lugar o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que felizmente foi presidir o Palmeiras. (No dia 1º de maio Meirelles já tinha subido no patíbulo, mas a economia brasileira conquistou a posição de "investment grade" e Lula achou melhor segurar a lâmina.)

quarta-feira, julho 22, 2009

O Chevalier Temer e seus 7 Mosqueteiros

ELIO GASPARI

Como a Madame Du Barry em 1793,
os deputados resolverem dar um pulinho em Paris

O PRESIDENTE da Câmara, deputado Michel Temer, acompanhado de sete mosqueteiros, usufruiu uma boca-livre de cinco dias em Paris. Havia um feriado por lá mas, por cá, a Casa onde trabalham tinha serviço e votava a Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Os doutores foram comemorar o aniversário da Revolução Francesa e hospedaram-se no hotel Lutetia, uma boa casa, equidistante de dois marcos da cidade: a Conciergerie e a Praça da Concórdia. Numa ficava a cana dos condenados. Na outra, a lâmina de Sanson. A namorada de Luís 15, Madame Du Barry passou de uma à outra. Ela fugira para Londres depois da queda da Bastilha, mas decidiu retornar à França. Degolaram-na em 1793.

O mistério que levou a Du Barry a regressar é da mesma família da compulsão que levou Temer e seus sete mosqueteiros a entrarem na boca-livre. Pediram discrição à embaixada e disseram que viajavam a convite de um Instituto de Alto Estudos de Defesa Nacional. Verdade, mas o repórter Antonio Ribeiro revelou que, segundo esse mesmo instituto, o paganini ficou por conta da indústria aeronáutica francesa, pois a fábrica Dassault quer vender 36 caças Rafale à FAB, numa conta de R$ 4 bilhões. (Convite para ir a Paris é fácil arrumar. O que falta é patrocinador.) A Câmara absolvera o deputado-castelão e o Senado tornou-se um apêndice da delegacia de roubos e furtos, mas os oito doutores, como a Du Barry, acharam que dava.

Há um problema de percepção na cúpula do Parlamento nacional. Eles são incapazes de entender que certas coisas não podem ser feitas. Eis o que disse Michel Temer à repórter Lúcia Jardim:"Não vejo isso como uma tentativa de sedução, até porque, se fosse, seria muito fraca".

(Conta a lenda que o professor Henry Kissinger disse a uma senhora que toda mulher tem um preço e ela respondeu: "Isso é um insulto. Eu, nem por 1 milhão de dólares". "Pois veja que já estamos discutindo preço", respondeu Kissinger.)

"Se fosse a Câmara que tivesse pagado nossa viagem, aí sim, eu tenho certeza de que fariam um escândalo em cima disso."(Resta saber por que os franceses pagaram. Se os deputados pudessem justificar o motivo da viagem, a Câmara, ou o governo francês, deveriam pagá-la. Do contrário, não deviam aceitá-la.) "Acho que só não haveria questionamento se nós tivéssemos vindo a pé."

(Para continuar no tom de Temer, há uma enorme torcida para que os oito resolvam ir a pé até Paris. Deveriam anunciar o ponto do litoral de onde partiria a comitiva, para que a galera pudesse se despedir deles.)

Viajaram com o deputado Michel Temer:
Cândido Vaccarezza (SP), líder do PT na Câmara.
Carlos Zarattini (PT-SP), vice-líder do PT na Câmara.
Ibsen Pinheiro (PMDB-RS).
José Aníbal (SP), líder do PSDB na Câmara.
Maria Lucia Cardoso (PSDB-MG), vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
Raul Jungmann (PPS-PE), presidente da Frente Parlamentar de Defesa Nacional.
Ronaldo Caiado (GO), líder do DEM na Câmara.

Nessa comitiva há deputados que não gostariam de ser confundidos com a nobreza decadente e degolada. Também ficou na Conciergerie, e foi para a lâmina, o companheiro Danton, que tinha um fraco por seduções.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

ELIO GASPARI

Aposentadoria em meia hora parecia piada

As coisas boas também acontecem, o INSS está livrando o país de uma inhaca cinquentenária

ADMITA-SE QUE em dezembro de 2003 uma pessoa resolvesse listar cinco coisas impossíveis e produzisse algo assim:
1 - Em 2008 os Estados Unidos elegerão um presidente negro com nome muçulmano.
2 - José Dirceu, o "capitão do time" de Lula, será defenestrado, terá o mandato cassado e ficará exposto até mesmo ao furto da memória de seu computador.
3 - Os EUA acabarão atolados numa guerra civil no Iraque e os dois lados pedirão a saída de suas tropas.
4 - O INSS concederá aposentadoria por idade em meia hora.
5 - Wall Street irá à garra.
A previsão da boa nova para os trabalhadores brasileiros talvez fosse a mais estapafúrdia. Todas aconteceram, mas a vitória obtida pelo governo de Nosso Guia merece respeito. É sucesso na veia do andar de baixo, precisamente numa faixa social onde "espera" e "INSS" significavam malogro, fraude e desrespeito. Ninguém se esquece do momento-Calígula do ministro Ricardo Berzoini, que convocou todos os velhinhos do país para um recadastramento.
As paixões políticas turvam a cena em que ocorrem mudanças que beneficiam o andar de baixo. À esquerda e à direita há um certo desconforto para se reconhecer que o general Garrastazu Médici lançou a base do que é hoje a aposentadoria do trabalhador rural e que João Goulart defendeu e sancionou a lei que criou o 13º salário.
O tempo de espera para quem busca a aposentadoria por limite de idade já estava na faixa decente dos 21 dias, mas uma tramitação de meia hora era coisa na qual ninguém seria capaz de acreditar. O sistema começou a funcionar nesta semana, com alguns enguiços. Talvez em um ano todas as outras modalidades de aposentadorias tramitarão com rapidez semelhante.
Imagine-se a ridícula situação em que fica um daqueles médicos da rede privada que condenam seus pacientes a esperas intermináveis: "Doutor, sua consulta está demorando mais que tramitação de processo de aposentadoria no INSS". A patuléia se livrou de uma aporrinhação, numa época em que é chique ficar na fila para entrar em cercadinho VIP, para comprar jatinhos e reservar mesa em restaurantes que servem espumas. A maison Hermès gosta de dizer que a fila de espera para a sua bolsa Birkin é de dois anos. (Mentira, mas ficar numa fila-Hermès dá status.)
A benfeitoria do INSS deriva de avanços tecnológicos, mas seria injusto atribuir a eles o êxito conseguido. Os computadores poderiam ter feito esse serviço há mais de dez anos. Basta ver que em São Paulo o governador Mario Covas criou em 1997 o Poupatempo, para a rápida obtenção de documentos que consumiam semanas. Num e noutro caso, havendo tecnologia, houve vontade de usá-la em benefício da choldra. Há questões em que há a tecnologia, mas, como faltam vontade e trabalho, nada acontece. É esse o caso do ressarcimento devido ao SUS pelas operadoras de saúde privada e da regularização da propriedade de lotes urbanos em terrenos públicos.
Em outubro de 2005, Nosso Guia prometeu: "A ordem é acabar com as filas, [do INSS] dando dignidade ao cidadão. A partir de março, começo de abril, podem me cobrar". Ninguém cobrou a bufonada, mas, três anos depois, pelo menos uma das esperas do INSS vai-se embora. As coisas boas também acontecem.

sábado, agosto 30, 2008

ELIO GASPARI

Maldição

Se Barack Obama vencer a eleição de novembro, ele será o terceiro americano a sair direto do Senado para a Casa Branca.
Os dois outros foram Warren Harding, eleito em 1921, e John Kennedy, eleito em 1960.
Nenhum dos dois terminou o mandato. Harding morreu do coração e Kennedy tomou um tiro na cabeça.
Em fevereiro passado, a escritora Doris Lessing enunciou uma maldição que paira sobre as cabeças de milhões de pessoas: “Eles vão matá-lo”.

sábado, agosto 02, 2008

ELIO GASPARI

Malvadeza

Carla Bruni-Sarkozy deu uma entrevista à “Vanity Fair” comparando-se a Jacqueline Kennedy.
Há uma diferença entre as duas: La Bruni apareceu pelada (pela sua vontade) 15 anos antes de se tornar mulher do presidente da França. Jackie só foi fotografada em pêlo (sem o seu conhecimento, numa trama de Aristoteles Onassis, seu segundo marido) seis anos depois da morte de John Kennedy.

sábado, julho 26, 2008

ELIO GASPARI

As bibliotecas dos mortos ilustres

Apareceu mais um passatempo na internet. É um catálogo das bibliotecas de 46 personalidades da História.
A rainha Maria Antonieta (736 títulos) tinha dois exemplares dos “Lusíadas”, três obras sobre revoluções e mais cinco livros de Rétif de la Bretonne, autor de mais de 200 volumes, alguns deles chegados à pornografia. Ele foi um dos primeiros autores a usar a palavra “comunismo”.
James Joyce (124 volumes catalogados) tinha um livro sobre “Erros no Uso do Inglês”.
Ernest Hemingway (7.411 volumes) tinha quatro livros sobre a Amazônia, um exemplar do “Dom Casmurro” e uma antologia da poesia brasileira.
Thomas Jefferson (4.891 livros) tinha uma história da reconquista de Salvador em 1625, quando uma frota espanhola expulsou os holandeses da cidade.
Estão na lista o poeta Ezra Pound (712 livros), Charles Darwin (79) e Adam Smith (58, por enquanto).
A biblioteca dos mortos está no sítio LibraryThing, que mantém um serviço de catalogação automática de livros, com quase 500 mil clientes e 3,5 milhões de volumes fichados. Infelizmente nenhuma biblioteca brasileira associou seu catálogo ao projeto.
Chega-se ao acervo passando-se “I see dead people’s books” no Google.
(Às vezes a página de Thomas Jefferson encrenca.)