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sexta-feira, julho 19, 2013

Hora de ler David Brin

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed755_hora_de_ler_david_brin

Por Pedro Doria em 16/07/2013 na edição 755

Milhões de brasileiros espionados pelos EUA dá uma boa manchete. A notícia trazida pelos repórteres Glen Greenwald, Roberto Kaz e José Casado, que desde o domingo se desdobra cá nas páginas do Globo, tem alto impacto e é informação nova, da mais alta relevância. O governo brasileiro vai falar alto, o governo americano fará algum tipo de pedido de desculpas, e dificilmente algo mudará. Os americanos continuarão espionando a rede como provavelmente também o fazem China e Rússia e, se for muito competente, o governo brasileiro tentará iniciar um processo tecnicamente parecido. Se conseguir. Mas, assim como o sociólogo catalão Manuel Castells ajuda a compreender os protestos que assolaram o Brasil nas últimas semanas, o escritor de ficção científica americano David Brin dá uma boa base para entender a maneira como tecnologia interage com grandes empresas e a nossa privacidade.
A tese de Brin, que em 1998 lançou o livro The Transparent Society (A sociedade transparente, não traduzido no Brasil), é a de que o avanço tecnológico está nos levando a uma bifurcação na estrada da democracia. Teremos de optar por que caminho seguir. Em um, governos e grandes empresas terão o monopólio de uma quantidade imensa de informação a respeito de uns, outros e de nós. No outro, a sociedade transparente, tudo, o muito mais, será público.
Operadoras de cartão de crédito, assim como concessionárias de telefonia celular, já sabem muito sobre nossos hábitos. Para não falar sobre seguradoras de saúde. Hoje, fazem pouco com estas informações. Os mecanismos de cruzar dados e perceber padrões ainda são pouco sofisticados. Mas, com o tempo, se tornarão verdadeiros e nítidos retratos de quem somos, o que pensamos, por que fazemos. O governo, enquanto poder estabelecido, terá acesso a muito desta informação acumulada. Muito deste uso será legítimo. E muito será abusivo. Quando uma instituição sabe muito sobre você, ela tem poder enorme. A capacidade de botar preço alto em sua apólice de seguros é apenas a mais óbvia.
O antídoto proposto por Brin é uma experiência radical de Iluminismo, o movimento filosófico e político do século XVIII que inspirou as revoluções americana e francesa além de inspirar as democracias de hoje. Entre suas inúmeras brigas internas, o que os filosofes franceses, alemães, escoceses e tantos outros tinham em comum era o pragmatismo. E um dos traços mais claros do pragmatismo deles era sua crença em que mais informação gerava governos melhores. Em tempos de absolutismo, era uma proposição radical. Em alguns cantos, continua sendo.
Brin não acredita que governos deveriam ser proibidos de espionar. Tampouco que empresas deveriam ser impedidas de utilizar informação sobre seus clientes para fins comerciais. Ele apenas sugere que cidadãos e clientes deveriam saber o que está acontecendo. Deveriam ter também acesso a tecnologia que lhes permita saber quando estão sendo espiados.
A questão é pragmática. Hoje, governos e empresas, com base em inúmeros argumentos, operam em segredo. No caso de governos, o segredo de Estado é utilizado para proteger o legítimo e o incompetente, o necessário e o abusivo. Para manter algo secreto, não deveria bastar a um governo alegar o necessário segredo. Deveria ser obrigado a gastar muita lábia, publicamente, para conseguir o privilégio.
O risco é a criação de uma nova espécie de feudalismo. O capitalismo, quando poucos têm acesso a grandes segredos, é distorcido. O mercado só é livre na aparência. E, como senhores feudais, alguns poucos garantem o domínio sobre instituições. É inevitável, como sugeria Adam Smith, que para o mercado funcionar bem, a maior quantidade possível de compradores e vendedores deva ter amplo acesso a informação. É verdade para o mercado e é uma metáfora perfeita para a sociedade.
Big Data está chegando. Mais informações sobre todos nós estarão nas mãos de uns poucos grupos. Acontecerá. Se seus métodos forem transparentes, se tiverem de justificar como usam cada informação, a liberdade segue garantida. Se, no entanto, a cultura do segredo persistir, a democracia é que perderá.
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Pedro Doria é jornalista do Globo

quinta-feira, novembro 01, 2012

Jornal da Tarde (1966-2012): Réquiem para um jornal que nunca existiu


Sandro Vaia
O dr.Julinho (Julio de Mesquita Filho) dizia que o dinheiro não parava de entrar. O jornal fechava as portas, o dinheiro entrava por baixo das portas. Os classificados na época bombavam.
O Estadão estava rico. O dr.Julinho tinha três filhos – Julio Neto, Ruy e Carlão – e um jornal só. Não dava para todos. Primogênito era só um, Júlio Neto, e a coroa da família real é dos primogênitos.
Por isso, em 1965 ele resolveu investir um caminhão de dinheiro num jornal novo para acomodar o filho que não era primogênito, mas tinha sangue de jornalista. Ruy Mesquita ganhou seu jornal.
Para Carlão, bastou uma rádio, com muita música clássica, transmissão de corrida de cavalos e locutores com voz elegante e dicção sofisticada. Pianos ao cair da tarde.
Depois de uma campanha publicitária espetaculosa, que repetia imagens de um elefante trazendo a inscrição “às três da tarde” nas costas, o Jornal da Tarde foi lançado. Saía no mais improvável dos horários e no final da tarde sequer tinha sido distribuído pela cidade toda.
Um ruidoso fracasso de distribuição. Foi preciso ir recuando o horário de fechamento aos poucos para que a cidade fosse percebendo a existência do jornal.
Forças vivas
O jornal era turbulento. A antítese de seu irmão mais velho, o modorrento, sisudo e pedregoso Estadão. O velho era chato, mas cada uma de suas pedras era um tijolo institucional. Um monumento, com a gravidade que costumam ter os monumentos.
O Jornal da Tarde tinha uma redação de piradinhos. Era comandada por Mino Carta, o jornalista que se orgulhava de ter criado e dirigido uma revista sobre automóveis – a Quatro Rodas – sem jamais ter dirigido um, e Murilo Felisberto, um mineiro melífluo e ferozmente inteligente, que se divertia em dançar minuetos de bondades e maldades com aquela redação repleta de candidatos a gênios.
Eram todos Hemingways em gestação, Godards ainda incompletos, Glaubers em preparação. Procurando bem, atrás daquelas velhas colunas e das velhas mesas de aço seria possível achar algum Proust escondido, que ganhava honestamente seu dinheiro falando mal do trânsito do coronel Fontenelle, mas preparava em segredo a obra prima que iria abalar a literatura mundial e nos dar o primeiro Nobel.
Lá naquele tumulto você podia achar Rogério Sganzerla, Fernando Morais, Maurice Capovilla, Sábato Magaldi, Fernando Portella, Leo Gilson Ribeiro, Jota Jota de Moraes, Mauricio Kubrusly, Olney Kruse e seu aparato kitsch, Eric Nepomuceno, que ainda não tinha descoberto a América, Luiz Eduardo da Rocha Merlino, o foca inteligente de nariz empinado que a ditadura eliminaria depois de bárbaras torturas, Ewaldo Dantas Ferreira ensinando um pouco da vida aos focas. Um viveiro fantástico dos mais curiosos e vivazes exemplares da espécie humana.
Onde mais seria possível ler uma cobertura de um Palmeiras x Corinthians assinada pelo crítico de teatro Sábato Magaldi e ilustrada por Clóvis Graciano?
Onde mais seria possível ler um texto de Cláudio Bojunga procurando a torcida corinthiana desaparecida na cidade no dia em que ganhou um título depois de 24 anos?
Eu mesmo, um foca metido, fui enviado a Itapetininga, no interior de São Paulo, para fazer uma reportagem sobre o aniversário da cidade. O jornal não se prestava muito à cobertura dessas tediosas efemérides, mas como era preciso puxar o saco de um representante comercial do Estadão na região, lá fui eu desperdiçar uma preciosa tarde de sábado.
Escrevi nada mais do que a verdade que me contaram – a cidade foi fundada por uma mula que empacou num determinado lugar. As pessoas não conseguiram tirar a mula do lugar e acabaram instalando-se em volta dela.
Nos dias seguintes, a ira de Deus, da prefeitura, da Câmara, do Lions, do Rotary e das chamadas forças vivas de Itapetininga desabou sobre a minha cabeça.
Vieram delegações da cidade pedindo expressamente o meu escalpo para ser exposto na praça pública de Itapetininga, mas Mino Carta resistiu bravamente à selvagem investida e poupou minha vida e meu emprego.
Agonia lenta
O Jornal da Tarde e suas histórias merecem uns cem livros e pelo menos um ou dois deverá ser escrito.
Alguém haverá de lembrar o inusitado de uma sucursal carioca rigorosamente dividida entre lacerdistas e comunistas repartindo a hegemonia do noticiário. Uma redação que era uma Guerra Civil Espanhola instalada na rua da Quitanda.
Será preciso lembrar das aventuras e dos textos new journalism de Marcos Faerman, o gaúcho revolucionário que trocaria de bom grado sua república socialista por uma faixa de campeão do Grêmio de Porto Alegre.
Irá lembrar também das coberturas históricas como a do primeiro transplante de coração do Brasil, ou da tragédia de Caraguatatuba, ou da capa do menino chorando depois do desastre de Sarriá, sem falar da famosa capa preta de luto no dia da rejeição da emenda das diretas.
Alguém irá perguntar como é que um jornal revolucionário como esse, que marcou época na imprensa brasileira, foi para o espaço.
Não há muita ciência na resposta: foi para o espaço porque na verdade o jornal que foi tanta coisa nunca foi nada dentro da empresa que o gerou. Era apenas expressão de um conflito familiar entre aqueles que o criaram e geriram e aqueles que sempre o trataram como o mais incômodo dos trastes.
Entre os Mesquita que o criaram e aqueles que ajudaram a matá-lo aos poucos, impondo-lhe uma lenta agonia, existe a maldição das empresas familiares onde todos os parentes se amam e se odeiam até a morte.

Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 31/10/2012.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br