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sexta-feira, agosto 30, 2013

O assinalado

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2013/08/30/o-assinalado-cruz-sousa-508593.asp




Tu és o louco da imortal loucura, 
O louco da loucura mais suprema. 
A Terra é sempre a tua negra algema, 
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura, 
Mas essa mesma Desventura extrema 
Faz que tu’alma suplicando gema 
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado 
Que povoas o mundo despovoado, 
De belezas eternas, pouco a pouco…
Na Natureza prodigiosa e rica 
Toda a audácia dos nervos justifica 
Os teus espasmos imortais de louco!

João da Cruz e Sousa (Florianópolis, Santa Catarina, 24 de novembro de 1861 - Estação de Sítio, 19 de março de 1898). Poeta considerado um dos precursores do simbolismo no Brasil. Conhecido por Dante Negro ou Cisne Negro. Publicou em vida os livros de poemas Broquéis, Missal e Tropos e Fantasias. É membro da Academia Catarinense de Letras. 


terça-feira, maio 21, 2013

PRECE DO BRASILEIRO

http://drummond.memoriaviva.com.br/alguma-poesia/prece-do-brasileiro/


Meu Deus,
só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho, que se veste
de humildade e esperança
e vos suplica: Olhai para o Nordeste
onde há fome, Senhor, e desespero
rodando nas estradas
entre esqueletos de animais.
Em Iguatu, Parambu, Baturité,
Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)
vede as espectrais
procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns
arrombados e – o que é pior – não tinham nada.
Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo, soa
qual cantata de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído
no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.
Fazei chover, Senhor, e já! numa certeira
ordem às nuvens. Ou desobedecem
a vosso mando, as revoltosas? Fosse eu Vieira
(o padre) e vos diria, malcriado,
muitas e boas… mas sou vosso fã
omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e matreiro, rogo, não
ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
mas ao Deus que Bandeira, com carinho
botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.
E mudo até o tratamento: por que vós,
tão gravata-e-colarinho, tão
vossa excelência?
O você comunica muito mais
e se agora o trato de você,
ficamos perto, vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um, puro; o outro, aquela coisa,
quase que maldito
mas amizade é isso mesmo: salta
o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará
sofrer em ciclo a mesma eterna pena?
E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa não.
Você tem a Sudene abrindo frentes
de trabalho de emergência, antes fechadas.
Tem a ONU, que manda toneladas
de pacotes à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida
no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.
No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema,
até um livro de vez em quando lê
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia)
desertos se transformam em jardins
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.
Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?
Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.
Fiquei, confesso, muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.
Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar
noutro caso, mais sério, mais urgente.
Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão, a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo, a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
e uma bola no campo e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça
sem milagres ou com ele nos pertença
para sempre, assim seja… Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche a minha crônica.

terça-feira, abril 16, 2013

SEM BUDISMO

PAULO LEMINSKI

Poema que é bom
acaba zero a zero.
        Acaba com.
Não como eu quero.
        Começa sem.
Com, digamos, certo verso,
        veneno de letra,
bolero. Ou menos.
        Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
        Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
        e sozinho.

[do livro Distraídos Venceremos]

terça-feira, abril 02, 2013

Dos cadernos de Paulo Mendes Campos


Por Elvia Bezerra



O momento é de festejar a prosa de Paulo Mendes Campos, de volta às prateleiras nas recentes edições de O amor acaba e O mais estranho dos países (o último reúne Brasil, brasileiro e Murais de Vinicius e outros perfis). Os dois livros que a Companhia das Letras acaba de reeditar mantêm a organização temática concebida por Flávio Pinheiro,  lançada pela Civilização Brasileira na década de 2000.
Não é por se louvar a prosa do cronista mineiro que se pode esquecer o poeta que ele é. Tampouco subestimar o tradutor que emerge dos 55 cadernos conservados em seu arquivo, no Instituto Moreira Salles. “Traduzir é o meu jeito de descansar carregando pedras”, escreveu ele em um desses cadernos. É só folhear um outro, o caderno 20, e vê-se o quanto ele trabalhou ao passar para o português os famosos versos da “Chanson d’automne”, de Verlaine, poeta a que se dedicou mais de uma vez. São algumas páginas em que se observam muitas idas e vindas, muitas rasuras, até que a composição, cujos primeiros versos,

             Les sanglots longs
             Des violons
             De l’automne
             Blessent mon coeur
             D’une langueur
                      Monotone

             em português, ficassem assim:  

             Os longos trinos
             dos violinos
                      do outono
             ferem minh’alma
             com uma calma
                      que dá sono.


Muito diferente da opção de Onestaldo de Pennafort, que preferiu manter o efeito de assonância do original:

             Os longos sons
             dos violões,
                      pelo outono,
              me enchem de dor
             e de um langor
                      de abandono.


Primeiramente Paulo publicou o poema na Manchete de 28 de março de 1964, com mais dois, um de Paul Eluard e outro de Jacques Prévert, sob o título “Três poemas franceses”. A revista errou quando estampou a “Canção” sob o título de “Arieta”, também de Verlaine, igualmente traduzido por Paulo e reproduzido no mesmo periódico, em outra data. Quando lançou Trinca de copas, em 1984, ele incluiu a “Canção”, dessa vez com o título correto e na versão definitiva.
Não se pretende aqui comparar traduções, e sim mostrar, a partir de páginas dos cadernos que se reproduzem a seguir, como Paulo Mendes Campos carregava pedras durante o processo de verter para o português os versos de um de seus poetas mais amados. Descansava? O que se vê nas incontáveis formas que ele experimentava é um esforço disciplinado em busca da expressão que o contentasse. E esta podia ser muito diferente, como já se mostrou, da de seu colega de ofício. Assim como difere das soluções encontradas por Guilherme de Almeida, mais um dos que não resistiram ao desafio de traduzir o popular poema de Verlaine.
Outro poema que mereceu pacientes estudos de Paulo Mendes Campos foi “Walcourt”, publicado depois na seção “Poeta do Dia” do Diário da Tarde. O exercício de tradução para chegar à forma final ocupa outras tantas páginas do caderno. “Walcourt” integra a seção “Paysages belgiques” e não “Paysages tristes”, como a “Chanson d’Automne”, ambas dos Poèmes saturniens.
Sem ter como objetivo comparar traduções, não é possível ignorar a inocência e uma certa distância que emanam dos versos de “Walcourt”, na tradução de Pennafort:

             Telhas, ladrilhos,
             que encantadores
             esconderilhos
             para uns amores!


Paulo tornou-os mais ardentes e objetivos quando optou por:

             Tijolos, telhas,
             ó fascinantes
             esconderijos
             para os amantes!


Como é próprio do ofício, não eram poucas nem leves as pedras que o tradutor carregava. É o que revelam as páginas a seguir:
Elvia Bezerra é coordenadora de literatura do IMS.

domingo, março 31, 2013

EPISÓDIOS


            O bilhete da loteria rasgado abandonado no assoalho imundo do ônibus

            passa a imagem do seu ex-dono dizendo para si mesmo

            “Ainda não foi desta vez!”

            O homem que põe as mãos na tampa do caixão que guarda

            o corpo de sua esposa pouco antes da primeira pá de terra

            ergue o rosto para o céu e tenta entender o como e a finalidade

            o menino que empina a pipa depauperada desvia o rosto

            coberto de suor e terra da carícia do pai ausente e antes de voltar correndo

            para os seus amigos de linha e cerol diz ao homem que vai vê-lo

            apenas nos fins de semana: “A mamãe tá em casa. Vai falar com ela”

            E o bêbado que se equilibra na calçada tão destroçada quanto sua vida

            perde o controle da bexiga lava os pés imundos e as japonesas gastas

            ouve o gracejo de um mototaxista e dispara pela avenida atrás do engraçadinho

            as pernas bambas por demais ébrias

            e então na direção contrária aparece um ônibus lotado

            e quando se percebe em perigo real e imediato o bêbado outrora equilibrista

            decide enfrentar o ônibus com o dedo médio em riste lembrando-se

            no derradeiro segundo daquele antigo brega:

“E QUE TUDO O MAIS VÁ PRO INFERNO!”

domingo, setembro 30, 2012

Edgard Allan Poe: La durmiente

Edgard Allan Poe: La durmiente


“HUBO aquí un valle antaño, callado y sonriente,
donde nadie habitaba:
partiéronse las gentes a la guerra,
dejando a los luceros, de ojos dulces..”

“La durmiente”

Era la medianoche, en junio, tibia, bruna.
Yo estaba bajo un rayo de la mística luna,
Que de su blanco disco como un encantamiento
Vertía sobre el valle un vapor soñoliento.
Dormitaba en las tumbas el romero fragante,
Y al lago se inclinaba el lirio agonizante,
Y envueltas en la niebla en el ropaje acuoso,
Las ruinas descansaban en vetusto reposo.
¡Mirad! También el lago semejante al Leteo,
Dormita entre las sombras con lento cabeceo,
Y del sopor consciente despertarse no quiere
Para el mundo que en torno lánguidamente muere
Duerme toda belleza y ved dónde reposa
Irene, dulcemente, en calma deleitosa.
Con la ventana abierta a los cielos serenos,
De claros luminares y de misterios llenos.
¡Oh, mi gentil señora, ¿no te asalta el espanto?
¿Por qué está tu ventana, así, en la noche abierta?
Los aires juguetones desde el bosque frondoso,
Risueños y lascivos en tropel rumoroso
Inundan tu aposento y agitan la cortina
Del lecho en que tu hermosa cabeza se reclina,
Sobre los bellos ojos de copiosas pestañas,
Tras los que el alma duerme en regiones extrañas,
Como fantasmas tétricos, por el sueño y los muros
Se deslizan las sombras de perfiles oscuros.
Oh, mi gentil señora, ¿no te asalta el espanto?
¿Cuál es, di, de tu ensueño el poderoso encanto?
Debes de haber venido de los lejanos mares
A este jardín hermoso de troncos seculares.
Extraños son, mujer, tu palidez, tu traje,
Y de tus largas trenzas el flotante homenaje;
Pero aún es más extraño el silencio solemne
En que envuelves tu sueño misterioso y perenne.
La dama gentil duerme. ¡Que duerman para el mundo!
Todo lo que es eterno tiene que ser profundo.
El cielo lo ha amparado bajo su dulce manto,
Trocando este aposento por otro que es más santo,
Y por otro más triste, el lecho en que reposa.
Yo le ruego al Señor, que con mano piadosa,
La deje descansar con sueño no turbado,
Mientras que los difuntos desfilan por su lado.
Ella duerme, amor mío. ¡Oh!, mi alma le desea
Que así como es eterno, profundo el sueño sea;
Que los viles gusanos se arrastren suavemente
En torno de sus manos y en torno de su frente;
Que en la lejana selva, sombría y centenaria,
Le alcen una alta tumba tranquila y solitaria
Donde flotan al viento, altivos y triunfales,
De su ilustre familia los paños funerales;
Una lejana tumba, a cuya puerta fuerte
Piedras tiró, de niña, sin temor a la muerte,
Y a cuyo duro bronce no arrancará más sones,
Ni los fúnebres ecos de tan tristes mansiones
¡Qué triste imaginarse pobre hija del pecado.
Que el sonido fatídico a la puerta arrancado,
Y que quizá con gozo resonara en tu oído,
de la muerte terrífica era el triste gemido!
Edgard Allan Poe
Nació en Boston, el 19 de enero de 1809.
Murió en Baltimore, el 7 de octubre de 1849.

sábado, setembro 22, 2012

Poema del día: La cólera de Yannis Ritsos


“Vienen y se van los días, sin afán, sin imprevistos.
Las piedras se empapan en la luz y en la memoria…”
Con Grecia en estos momentos tan duros para su pueblo

Yannis Ritsos

Nació el 1 de mayo de 1909 en Monemvasia (Grecia)
Poeta vinculado al comunismo en su país por lo que estuvo durante largo tiempo prohibido.
Murió el 11 de noviembre de 1990 en Atenas.

“La cólera”

Cerraba los ojos al sol. Se mojaba los pies en el mar. Se fijó
por primera vez en la expresión de sus manos.
Un cansancio escondido,
y amplio como la libertad. Gentes enviadas
iban y venían, trayendo regalos y promesas,
prometiendo botín y títulos más altos.
Él, sin dejarse convencer,
observaba un cangrejo subir trastabillando a un guijarro,
despacio, con desconfianza, y, sin embargo, solemne, como si
ascendiera la eternidad.
No sabían que la cólera era sencillamente una excusa.
Yannis Ritsos
En “Paréntesis, Testimonios I” 1946 – 1947

segunda-feira, setembro 03, 2012

Meg Merrilies

“¡De olvido! Esa palabra, como campana, dobla
y me aleja de ti, hacia mis soledades.
¡Adiós! La fantasía no alucina tan bien…”

“Meg Merrilies”

La vieja Meg era gitana
y vivía en el monte:
era el brezo rojizo su lecho
y al aire libre tuvo su morada.
Negras moras de zarza por manzanas tenía,
por grosellas, simiente de retama;
su vino era el rocío de blancas zarzarrosas,
tumbas del camposanto eran sus libros.

Las ásperas quebradas por hermanas tenía
y por hermanos los alerces:
y sólo en compañía de su familia vasta,
vivió cómo le plugo.
Pasó sin desayuno más de alguna mañana
y sin almuerzo más de un mediodía,
y en vez de cenar, fijamente
contemplaba la luna.

Mas todas las mañanas, con tierna madreselva
sus guirnaldas tejía,
y cada noche, el tejo de la hondonada oscura,
cantando, entrelazaba.
y con sus dedos viejos y morenos
tejía esteras de junco,
que daba a los labriegos
al pasar por el monte.

Fué Meg bizarra como la reina Margarita,
y como de amazona era su talla:
llevó por capa el trozo de alguna manta roja,
tocóse con un mísero sombrero.
Que a sus huesos de vieja conceda Dios descanso,
pues murió ya hace tiempo.

John Keats

Traducción de Màrie Montand

Poema original en inglés:

“Meg Merrilies”

Old Meg she was a Gipsy,
And liv’d upon the Moors:
Her bed it was the brown heath turf,
And her house was out of doors.

Her apples were swart blackberries,
Her currants pods o’ broom;
Her wine was dew of the wild white rose,
Her book a churchyard tomb.

Her Brothers were the craggy hills,
Her Sisters larchen trees–
Alone with her great family
She liv’d as she did please.

No breakfast had she many a morn,
No dinner many a noon,
And ‘stead of supper she would stare
Full hard against the Moon.

But every morn of woodbine fresh
She made her garlanding,
And every night the dark glen Yew
She wove, and she would sing.

And with her fingers old and brown
She plaited Mats o’ Rushes,
And gave them to the Cottagers
She met among the Bushes.

Old Meg was brave as Margaret Queen
And tall as Amazon:
An old red blanket cloak she wore;
A chip hat had she on.
God rest her aged bones somewhere–
She died full long agone!

John Keats

John Keats nació el 31 de octubre de 1795, en Londres, Inglaterra.
Fue uno de los más importantes del Románticismo.
Murió el 23 de febrero de 1821, en Roma.

Mármoles

“Los búhos de cráneo transparente
todas las mañanas engendran el mismo paisaje en
sus ojos…”

“Mármoles”

Nadie podrá olvidar
la voz velada del arqueólogo en cuclillas
buscando entre antiguas ruinas
las huellas de la angustia de los siglos
hundidas en la arena
sólo prosperan las prostitutas petrificadas
que conservan a través de los siglos
un inagotable deseo de amor
la voz velada y lejana busca lo viviente en lo
muerto
a la sombra de la voz
la más deliciosa de las doncellas se desnuda de sus
heridas

piadosamente
cae una noche rota
piadosamente
sopla sobre los antiguos mármoles
el gran viento de los acoplamientos
en cada instante nacen y mueren de un modo
infinito
seres invisibles que fecundan al tiempo
la voz lejana llama
al misterio derramado entre los monumentos
arqueológicos
una tempestad de mordiscos
hace sangrar los mármoles
sangre coagulada del tiempo inalcanzable
sangre inalcanzable del vacío.

Aldo Pellegrini

Aldo Pellegrini nació en Rosario, Santa Fe, Argentina, en 1903.
Murió en 1973.

EL FUTURO

“… Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.”

“El futuro”

Y se muy bien que no estarás.
No estarás en la calle
en el murmullo que brota de la noche
de los postes de alumbrado,
ni en el gesto de elegir el menú,
ni en la sonrisa que alivia los completos en los subtes
ni en los libros prestados,
ni en el hasta mañana.
No estarás en mis sueños,
en el destino original de mis palabras,
ni en una cifra telefónica estarás,
o en el color de un par de guantes
o una blusa.
Me enojaré
amor mío
sin que sea por ti,
y compraré bombones
pero no para ti,
me pararé en la esquina
a la que no vendrás
y diré las cosas que sé decir
y comeré las cosas que sé comer
y soñaré los sueños que se sueñan.
Y se muy bien que no estarás
ni aquí dentro de la cárcel donde te retengo,
ni allí afuera
en ese río de calles y de puentes.
No estarás para nada,
no serás mi recuerdo
y cuando piense en ti
pensaré un pensamiento
que oscuramente trata de acordarse de ti.

Julio Cortázar

Julio Florencio Cortázar Descotte nació en Ixelles, Bruselas, el 26 de agosto de 1914.
Murió en París, el 12 de febrero de 1984

sexta-feira, julho 20, 2012

Poema aos amigos

Jorge Luis Borges

Não posso dar-te soluções

Para todos os problemas da vida,

Nem tenho resposta

Para as tuas dúvidas ou temores,

Mas posso ouvir-te

E compartilhar contigo.



Não posso mudar

O teu passado nem o teu futuro.

Mas quando necessitares de mim

Estarei junto a ti.



Não posso evitar que tropeces,

Somente posso oferecer-te a minha mão

Para que te sustentes e não caias.



As tuas alegrias

Os teus triunfos e os teus êxitos

Não são os meus,

Mas desfruto sinceramente

Quando te vejo feliz.



Não julgo as decisões

Que tomas na vida,

Limito-me a apoiar-te,

A estimular-te

E a ajudar-te sem que me peças.



Não posso traçar-te limites

Dentro dos quais deves atuar,

Mas sim, oferecer-te o espaço

Necessário para cresceres.



Não posso evitar o teu sofrimento

Quando alguma mágoa

Te parte o coração,

Mas posso chorar contigo

E recolher os pedaços

Para armá-los novamente.



Não posso decidir quem foste

Nem quem deverás ser,

Somente posso

Amar-te como és

E ser teu amigo.



Todos os dias, penso

Nos meus amigos e amigas,

Não estás acima,

Nem abaixo nem no meio,

Não encabeças

Nem concluís a lista.

Não és o número um

Nem o número final.



E tão pouco tenho

A pretensão de ser

O primeiro

O segundo

Ou o terceiro

Da tua lista.

Basta que me queiras como amigo



Dormir feliz.

Emanar vibrações de amor.

Saber que estamos aqui de passagem.

Melhorar as relações.

Aproveitar as oportunidades.

Escutar o coração.

Acreditar na vida.



Obrigado por seres meu amigo

terça-feira, agosto 24, 2010

THE DISQUIETING MUSES, de Sylvia Plath, tradução de Ana Maria Chaves

Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poderá ou quererá corresponder.


THE DISQUIETING MUSES
Mother, mother, what ill-bred aunt

Or what disfigured and unsightly

Cousin did you so unwisely keep

Unasked to my christening, that she

Sent these ladies in her stead

With heads like darning-eggs to nod

And nod and nod at foot and head

And at the left side of my crib?


Mother, who made to order stories

Of Mixie Blackshort the heroic bear,

Mother, whose witches always, always

Got baked into gingerbread, I wonder

Whether you saw them, whether you said

Words to rid me of those three ladies

Nodding by night around my bed,

Mouthless, eyeless, with stitched bald head.


In the hurricane, when father's twelve

Study windows bellied in

Like bubbles about to break, you fed

My brother and me cookies and Ovaltine

And helped the two of us to choir:

'Thor is angry; boom boom boom!

Thor is angry: we don't care!'

But those ladies broke the panes.


When on tiptoe the schoolgirls danced,

Blinking flashlights like fireflies

And singing the glowworm song, I could

Not lift a foot in the twinkle-dress

But, heavy-footed, stood aside

In the shadow cast by my dismal-headed

Godmothers, and you cried and cried:

And the shadow stretched, the lights went out.


Mother, you sent me to piano lessons

And praised my arabesques and trills

Although each teacher found my touch

Oddly wooden in spite of scales

And the hours of practicing, my ear

Tone-deaf and yes, unteachable.

I learned, I learned, I learned elsewhere,

From muses unhired by you, dear mother.


I woke one day to see you, mother,

Floating above me in bluest air

On a green balloon bright with a million

Flowers and bluebirds that never were

Never, never, found anywhere.

But the little planet bobbed away

Like a soap-bubble as you called: Come here!

And I faced my traveling companions.


Day now, night now, at head, side, feet,

They stand their vigil in gowns of stone,

Faces blank as the day I was born.

Their shadows long in the setting sun

That never brightens or goes down.

And this is the kingdom you bore me to,

Mother, mother. But no frown of mine

Will betray the company I keep.



AS MUSAS INQUIETANTES


Mãe, mãe, que tia maldosa

Ou desfigurada e hedionda

Prima insensatamente tu não

Convidaste para o meu baptizado

E em seu lugar mandou estas damas

De cabeça a lembrar ovos de passajar,

Acenar à cabeça e aos pés da cama

E ao lado esquerdo da minha alcofinha?



Mãe, tu que a nosso pedido inventavas histórias

Do Mixie Blackshort, o ursinho valente,

Mãe, onde as bruxas acabavam sempre

No forno em biscoitos, já não sei agora

Se as vias ou se tu proferias

Palavras para me livrares daquelas três damas

A acenar à noite junto à minha cama,

Sem bocas nem olhos, cabeças peladas todas cosipadas.



No furacão, quando as doze janelas

Do estúdio do pai inflaram para dentro

Como bolhas quase a rebentar, tu deste

A mim e ao mano Ovaltine e biscoitos

E ajudaste-nos a cantarolar:

“Thor está zangado; bum bum bum!

Thor está zangado, mas não vamos ligar!

Mas aquelas damas partiram os vidros.



Quando as meninas bailavam em pontas

Agitando luzinhas como vaga-lumes

Cantando a cantiga do pirilampo, eu,

Escondida a um canto, não erguia os pés,

Pregados ao chão, de tutu a brilhar

Na sombra lançada pelas cabeças lúgubres

Das minhas madrinhas, e tu a chorar:

E a sombra alongou-se e a luz apagou-se.



Mãe, mandaste-me ter lições de piano

E elogiavas os meus arabescos

Mas os professores achavam-me os dedos

Hirtos como paus apesar das escalas

E das horas passadas a praticar,

E o ouvido embotado, um caso desesperado,

E eu aprendi, oh sim, aprendi, mas noutro lugar,

Com as musas, mãe querida, que não contrataste.



Um dia acordei e ali estavas, mãe,

A pairar no ar do mais puro azul

Num verde balão a luzir com um milhão

De flores e pássaros que nunca existiram

Nunca, nunca, nunca, em nenhum lugar.

Mas o planeta desfez-se no ar,

Bola de sabão, quando tu disseste: Vem cá!

E as companheiras de viagem então enfrentei.



E agora, dia e noite, à cabeceira, ao lado e aos pés,

Montam-me vigília com vestes de pedra,

Os rostos vazios de quando eu nasci.

Sombras alongadas no sol poente

Que nunca se apaga nem nunca se acende.

E é este o reino a que me trouxeste,

Mãe, mãe. Mas em meu semblante nada

Trairá as que me acompanham.

quinta-feira, abril 10, 2008

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

MORAES, Vinícius de. ANTOLOGIA POÉTICA.