domingo, junho 16, 2013

AINDA GOSTAMOS DE FÓRMULA 1?

Quando eu era criança pequena, lá no Bairro de Fátima, tinha um monte de carros de corrida. Miniaturas de plástico compradas na feira ou em qualquer lojinha de variedades. De todas as cores e tamanhos. “McLarens”. “Ferraris”. “Bólidos” azuis e brancos que chamava taxativo de “Williams”.
Pois então. Na época, os resultados dos treinos oficiais dos sábados só eram divulgados no Jornal Nacional. Os âncoras variavam o tom conforme as conveniências: sorridentes quando anunciavam Ayrton Senna ou Nelson Piquet como poles; sérios feito parede de hospital quando o piloto mais competente pertencia a outra nacionalidade.
Depois dessas informações, eu enfileirava os carrinhos no piso de cerâmica da sala de acordo com um “grid de largada” altamente fantasioso e ali os deixava até a manhã de domingo – porque na minha concepção infantil as máquinas de verdade também passavam a noite um atrás do outro, nos mais diferentes circuitos que abrigavam o Circo da Velocidade.
Sempre gostei de Fórmula 1. Aprecio o automobilismo de forma geral, é claro. Desafio qualquer outra pessoa a ficar na frente da tevê em uma noite de sábado assistindo às 400 voltas de uma corrida da Nascar – categoria em que, a rigor, não há um só brasileiro. Mas minha “praia” mesmo é a principal categoria dos esportes a motor.
Mas não posso dizer o mesmo da maioria do público brasileiro. Cansei de ouvir o seguinte: “Ah, eu parei de ver essas corridas da morte de Senna”. Para mim, não passava de mera desculpa esfarrapada. Usar o falecimento do tricampeão como bode expiatório para uma inclinação que já existia era um golpe baixo e tanto.
Com o tempo, constatei que, de certa forma, essas pessoas expressavam um sentimento correto. Era Ayrton quem as ajudava a aturar 70 e tantas voltas de verdadeiras procissões de automóveis a 300 quilômetros por hora. Depois do seu desaparecimento, no fatídico GP de San Marino, o Brasil passou a frequentar pouco o lugar mais alto do pódio. Nosso hino não é mais executado nas cerimônias de premiação faz um bom tempo.
Hoje, ainda mais com a presença de apenas um brazuca no Circo da Velocidade (ainda que como piloto da Ferrari, o que é e sempre será um feito e tanto) o interesse do telespectador brasileiro pelos GPs reduziu-se drasticamente. Daqui a pouco, só assistirá às provas quem é realmente especialista nessa matéria.

Ainda gostamos de Fórmula 1, sim, mas não deixo de concordar com o blogueiro Erich Beting: “Logicamente que o interesse do público específico sempre vai existir. Mas a sensação que dá é a de que precisaremos de novos gênios nas pistas para voltar a fazer do evento mais valioso do automobilismo um produto realmente atrativo para o mercado brasileiro”.

Pornografia e blábláblá

http://www.revistaserrote.com.br/2013/06/pornografia-e-blablabla-por-slavoj-zizek/

por Slavoj Žižek

Slavoj Žižek
Minha ideia básica é que nossa época é uma época estranha. Por um lado, é superficialmente permissiva. Temos toda a pornografia que quisermos na internet, podemos participar de orgias, blábláblá. Mas, ao mesmo tempo, isso nem ao menos é um consumismo verdadeiro. Temos essa obsessão com sexo seguro, e por aí em diante. Se vocês querem saber, eu acho que os únicos consumistas que existem são os dependentes de drogas, aqueles que dizem “Foda-se, quero ir até o fim, pouco me importo”. Não, nosso consumismo não está morto. Trata-se de um consumismo bastante estratégico e calculista.
Não há um sujeito hindu [PranavMistry] em Cambridge que desenvolveu o “SixthSense” (SextoSentido)? Um mecanismo simples: você tem uma câmera, pequena, digital, na sua cabeça. Você tem uma espécie de projetor no peito, e ele está conectado à rede por meio de um celular no seu bolso, e isso funciona assim. A câmera identifica o objeto à sua frente. Como está conectado, o computador pode identificar o objeto. E então, no mesmo instante, a internet obtém os dados do objeto e os projeta sobre qualquer superfície plana. Você interage com um objeto real, mas ao mesmo tempo pode projetar nele todos os dados. E eu acho isso interessante porque o efeito é uma espécie de magia. Os objetos respondem, contando tudo a respeito deles.
Vocês podem imaginar a minha primeira reação: deve ser maravilhoso usar isso na sedução. Tudo bem, também funciona para as mulheres, mas, da minha perspectiva machista, eu olho para a mulher e isso é projetado nela. Ela gosta de sexo anal, gosta que lhe belisquem os seios, gosta dessa música, gosta daquilo. Você obtém dados instantâneos a respeito da garota. Isso é ideologia em seu sentido mais puro. E não é assim que estão estruturadas as nossas vidas reais? Digamos que você seja um racista antiárabes, antijudeus ou antinegros. Não é exatamente a mesma coisa que acontece quando você vê um sujeito árabe ou judeu ou negro? É como se você projetasse nele todo o seu implícito conhecimento racista. Você vê que ele é mau, um perigo para você, ou seja lá o que for, blablablá. Considero isso uma metáfora perfeita para a nossa ideologia espontânea.
A pornografia é o gênero mais censurado que se pode imaginar. Primeiro, a gente percebe como tudo é absolutamente controlado. Nos pornôs heterossexuais padrão, o que acontece? Primeiro, há alguma fantasia, masturbação, cunilíngua, felação, depois sexo total, então talvez uma orgia, coisa do tipo. Codificação total.
Mas o mais importante: discordo inteiramente de Laura Mulvey, a teórica de cinema, quando ela afirma que, na pornografia heterossexual, a mulher é reduzida ao objeto do olhar masculino. Nem pensar. Você já reparou como a mulher que está sendo fodida tem permissão para quebrar a regra básica dos filmes de ficção e olhar diretamente para a câmera? Os homens, não. Você não se identifica com o homem fodendo a mulher. Ele é um mero instrumento. Se você for um cara hétero observando um filme pornô, está buscando – e é a mulher quem lhe diz isso – alguma confirmação de que a mulher realmente gosta daquilo. O verdadeiro objeto é o pobre sujeito, em geral algum pobre marinheiro que a fode. Razão pela qual a mulher, como regra geral, precisa fazer todos aqueles ruídos o tempo todo.
O segundo aspecto da censura na pornografia eu percebi quando era jovem e vi os meus primeiros filmes pornográficos. Quando se trata de um pornô de longa metragem — tipo uma hora, uma hora e meia —, é claro que não é possível só ter foda o tempo todo, tem que haver uma história. E como a história é ridícula! É humilhante, de tão imbecil. Até hoje, isso me choca. Eu me lembro de um dos primeiros filmes: chega um bombeiro e conserta um buraco na cozinha. [E ela diz] “Mas eu tenho outro buraco aqui embaixo, você pode consertar esse também?” E aí eu pensei: Meu deus, não é possível que eles sejam tão idiotas! Isso é censura. A ideia é: ou você se identifica de todo [como nos filmes normais] e então não enxerga tudo isso, ou você enxerga isso tudo, todos os detalhes [nos pornôs], mas então a história precisa ser ridícula, para não ser levada a sério.
Hoje, a censura vai mais longe. Agora, a forma predominante de pornografia é a chamada “gonzo”, em que nem mesmo uma história é permitida. Gonzo, vocês sabem, é quando os atores encaram a câmera de frente [e dizem], “Eu estou fazendo direito, ou deveria fazer assim, ou assado?”. Sempre desconfiei da ideia de [Bertolt] Brecht de que o momento em que você é envolvido pela história é uma espécie de identificação emocional burguesa, e que a alienação, aliás, a externalização é uma coisa positiva. Não! Acho que a censura é exatamente isso.  O pior que pode acontecer é que a gente mergulhe mesmo na história. Isso é censura social espontânea. Mas é o que torna tudo ainda mais místico. Não há um censor direto, e todos os pornôs obedecem a essas regras.
Uma sedução, para ter êxito, precisa trazer implícito um momento de impotência e fracasso, no sentido de que, brincando, brincando, reconhecemos nossas limitações. A sedução nunca funciona à perfeição. As pessoas se enganam redondamente quando acham que devem se apresentar como perfeitas e blablablá.
Conversei com um conselheiro sexual que me disse que, quando se trata de um casal em que não se sabe se o fulano é impotente ou coisa que o valha, a pior coisa a fazer é mandar alguma besteira do tipo “Não pense no assunto, só faça, seja você mesmo!”. É assim que se mata um sujeito. E ele me disse que uma das maneiras de se fazer isso — e, segundo ele, funciona com casais — é aconselhar que se imite um procedimento burocrático puramente externalizado. Ou seja, você quer fazer amor, tudo bem, sente-se com a sua parceira e trace um plano stalinista. Primeiro (ela diz) os dedos, depois põe a mão no meu peito. Não (ele diz), aí não, põe o dedo na minha bunda. Você acaba completamente envolvido por essas negociações burocráticas. E então, na maioria das vezes, alguém diz: “Porra, por que é que a gente não trepa de uma vez? Vamos nessa”.

SLAVOJ ŽIŽEK (1949), nascido na Eslovênia, é filósofo e professor universitário. Influenciado por Hegel, Marx e Lacan, é autor de diversos livros, dentre eles Bem-vindo ao deserto do real!, A visão em paralaxe Em defesa das causas perdidas.

segunda-feira, junho 10, 2013

A Copa no Brasil, ou o fim da alegria do povo

Por José Geraldo Couto


Brasil 1 x 2 Uruguai (final da Copa de 1950)
As Copas do Mundo de futebol costumam ter, sobre os países que as sediam, um efeito que transcende em muito as quatro linhas do campo de jogo.
Basta pensar no mundial de 1978, na Argentina, vencido meio na marra pelos anfitriões e usado para intensificar o poder de uma das ditaduras mais sangrentas da história. Ou na Copa de 1998 na França, um caso oposto, em que o triunfo da multiétnica seleção de Zidane, Thuram e Djorkaeff serviu para silenciar, ao menos momentaneamente, a vociferação racista e xenófoba de Jean-Marie Le Pen e seus sequazes.
Nos países em que o futebol está impregnado no dia a dia dos cidadãos, as copas catalisam sentimentos, medos, desejos e expectativas que configuram uma espécie de “espírito do tempo”. Qual é o “espírito do tempo” no (ou do) Brasil às vésperas do segundo mundial em seu território?
Não tenho a pretensão de responder aqui a essa complicadíssima questão, mas talvez um cotejamento sumário com o que ocorria no país na época da primeira copa aqui sediada lance alguma luz sobre o assunto.
Euforia e trauma
Todos estão cansados de ouvir falar do “trauma de 50”. A “derrota incomparável”, o “silêncio ensurdecedor do Maracanã”, o “complexo de vira-lata” tornaram-se clichês mais ou menos intercambiáveis, numa constelação de signos nefastos.
Mas se houve um baque espetacular, uma depressão profunda e generalizada, é porque havia antes uma grande esperança, convertida em euforia antecipada às vésperas da grande final. Vale a pena dar uma espiada no que ocorria no Brasil em 1950.
O país vinha se modernizando e urbanizando intensamente nas últimas décadas. Para se ter uma ideia, a população de São Paulo quase quadruplicou entre 1920 e 1950, saltando de 580 mil habitantes para 2,2 milhões. Terminada a guerra – e a ditadura do Estado Novo –, o sentimento geral era de otimismo. O Brasil era o país do futuro, e o futuro estava logo ali. A construção do estádio do Maracanã – “o maior do mundo” – sintetizava essa crença de que, finalmente, entraríamos de cabeça erguida no tal concerto das nações, nem que fosse tocando pandeiro e tamborim.
Embriaguez patriótica
O entusiasmo nacional era galvanizado em campo por um time de primeira linha, com craques como Zizinho, Ademir de Menezes e Jair da Rosa Pinto. Já tínhamos encantado a Europa na copa anterior, de 1938, e agora tudo apontava para um triunfo retumbante, prenunciado pelas vitórias categóricas nas primeiras rodadas. A embriaguez patriótica atraiu ao Maracanã 200 mil pessoas – pouco menos de um décimo da população carioca na época –, sem contar as que não conseguiram entrar no estádio superlotado. O desfecho todos conhecem.
Corta para 2013 e a Copa das Confederações, antessala da segunda Copa do Mundo em solo brasileiro. Nas seis décadas cobertas por esse salto vertiginoso, o Brasil conquistou cinco títulos mundiais e se consolidou como “país do futebol”, com uma excelência reconhecida internacionalmente só comparável à da nossa música popular. O binômio que José Miguel Wisnik chamou de “tecnologia de ponta do ócio”.
Mais que isso: em seus momentos altos, o futebol brasileiro foi visto como uma encarnação das nossas melhores potencialidades, um sonho de país que dá “aos pés astúcia de mão”, como diz o verso de João Cabral, um lugar em que se harmonizam a eficiência e a fantasia, a criatividade individual e a solidariedade coletiva, o trabalho e o prazer, a guerra e a festa. Uma revanche do sensual, mestiço e dionisíaco hemisfério sul (do globo e do corpo humano) contra a supremacia do norte apolíneo, branco, cerebral, disciplinado.
Ainda que resista como horizonte utópico, essa imagem hoje está bastante obscurecida, ou no mínimo desfocada. Dentro de campo o escrete canarinho deixou há algum tempo de ser sinônimo de alegria e exuberância, tendo se igualado, em seu pragmatismo cauteloso, a inúmeros outros selecionados, sobretudo europeus. Em face do desempenho medíocre nas últimas competições internacionais, o Brasil caiu para um inacreditável 19º posto no ranking da FIFA, atrás de países como Equador, Suíça e Costa do Marfim, e mesmo jogando em casa não é propriamente favorito ao mundial do ano que vem.
Nenhuma surpresa, portanto, que o treinador escolhido para a seleção seja Luiz Felipe Scolari, técnico de inclinações primordialmente defensivas, para quem futebol bonito é “frescura para agradar jornalistas”, adepto de um estilo autoritário e paternalista de comando (a “família Scolari”). É claro que pesou muito, para a sua escolha, o fato de ter sido o treinador que conquistou nosso último título mundial. No Brasil, a força do pensamento sebastianista é mais forte do que normalmente se pensa.
Maracanã: reaberto com obras ainda inacabadas
Pátria da avacalhação
E fora de campo, como anda o ânimo dos brasileiros, e a articulação deste com a expectativa pré-Copa? Essa resposta só poderia ser dada por uma ampla pesquisa de opinião, mas alguns fatos são evidentes.
Primeiro: os atrasos, os superfaturamentos, as inaugurações politiqueiras de estádios inacabados, tudo isso parece confirmar os piores temores de quem se opunha à realização da Copa no país. As obras de infraestrutura de transporte urbano, comunicações, segurança etc. que ficariam como “legado” permanente para a população das cidades revelaram-se, como se temia, pouco mais que balela.
Mas, à medida que a Copa das Confederações e a Copa do Mundo se aproximam, parece que essas mazelas são vistas pela maioria como fato consumado, mera comprovação de que “é assim mesmo” no Brasil, “pátria da avacalhação e da impunidade”. Por isso, não causa mais espanto a ninguém que a CBF seja presidida por um homem com um passado de comprometimento com os setores mais tenebrosos da repressão política, sem falar nas fortes suspeitas de corrupção. Afinal, a própria FIFA é uma das entidades mais corruptas do mundo.
Tampouco causa maiores indignações o fato de os estádios serem construídos majoritariamente com dinheiro público para depois serem entregues à iniciativa privada, confirmando nosso pendor para privatizar os lucros e socializar os prejuízos.
Patriotismo compulsório
Sobre essa matéria amorfa de conformismo e resignação, a propaganda massiva, o otimismo forçado, o patriotismo compulsório imposto aos gritos pela mídia hegemônica parecem cair como uma chuva sobre um terreno impermeável, sem chegar a irrigá-lo. Nas ruas, nos bares e mesmo nos novos estádios onde se apresentam nossos craques, é difícil detectar algum entusiasmo genuíno. Pelo contrário: o que se vê é uma insatisfação difusa, caxirolas atiradas no gramado, vaias para os jogadores, gritos de “burro” para o treinador. (Mesmo a vitória em Porto Alegre sobre a fraca seleção da França representou mais uma trégua do que propriamente uma reversão desse quadro).
A caxirola e os estádios merecem comentários à parte, por concentrarem talvez sentidos mais amplos. A primeira, “inventada” por Carlinhos Brown, é um abastardamento industrial, modernoso,kitsch e antiecológico de um lindo artefato de origem africana, o caxixi, chocalho de som agradável e discreto. Como observou o músico Naná Vasconcelos, a diferença é que a caxirola pode ser usada para machucar. Ao que parece, o novo instrumento já foi abandonado. Não colou, a exemplo do esdrúxulo nome “Fuleco” escolhido arbitrariamente para o mascote da Copa.
Se essas novidades parecem concebidas em gabinetes distantes do Brasil real, os novos estádios (ou os velhos, radicalmente transformados) estão surgindo como objetos estranhos a sua paisagem física e humana. São “arenas” assépticas, de arquitetura imponente e visual vagamente futurista, que durante as duas Copas – e provavelmente também depois – serão inacessíveis ao torcedor popular. Como bem observou o jornalista e cineasta Eduardo Souza Lima, “o futebol começou como esporte de elite e está voltando a ser esporte de elite”.
Eis o paradoxo: num país que viveu, nos últimos anos, uma perceptível ascensão das camadas mais pobres e sua inclusão no mercado, o esporte mais popular se converte em diversão de endinheirados. Barrados na arquibancada e na geral que lhes deram os apelidos, os antigos “arquibaldos” e “geraldinos” verão os jogos da seleção – e possivelmente também os dos seus times – do sofá da sala, sob a voz onipresente de você sabe quem.
O risco a médio e longo prazo dessa bizarra tendência – que entretanto parece perfeitamente de acordo com os ditames da publicidade, da FIFA, da globalização e dos interesses políticos estabelecidos, tanto da situação como da oposição – é o esvaziamento do futebol brasileiro daquilo que era a sua seiva, a sua energia, a sua temperatura: a paixão do torcedor popular.
Caxirolas
* José Geraldo Couto é jornalista, tradutor e crítico de cinema.

quinta-feira, junho 06, 2013

20 MANEIRAS DE DETECTAR UM PSICOPATA

Foto: Stock.xchng/Creative Commons

Por Pablo Huerta.

Há uma frase que diz: “Não são todos os que estão, nem estão todos os que são”. Quer dizer que, nem todos os que estão em um hospital psiquiátrico são loucos e nem todos os loucos estão em um hospital psiquiátrico. Há psicopatas em todas as partes: dirigindo um transporte público, administrando uma empresa ou governando um país. Onde menos se espera pode haver alguém com uma psicopatia: um transtorno de personalidade antissocial . Claro que isso não significa necessariamente que essas pessoas sejam más, apenas não sentem empatia pelos outros nem remorso pelos seus atos. Eles vivem pelas suas próprias regras e só sentem culpa quando rompem com o seu código de conduta.
Para os psicopatas as pessoas são coisas, objetos que servem para satisfazer seus interesses. Se na sua programação não estiver machucar o outro, não o farão. E poderão viver em comunidade porque entendem os códigos sociais. Eles se adaptam. O terrível acontece quando eles não conseguem evitar de fazer o mal. Mas a maioria não comete crimes, ainda que não tenham vergonha de mentir, manipular ou machucar para conseguir o que têm em mente.
Quando cometem crimes, de um ponto de vista penal, como estão conscientes dos seus atos, são responsáveis. Mas, ao contrário de um réu normal, não existe a possibilidade de correção de sua conduta, assim a reabilitação é baseada em uma forma de vida que possa lhes trazer benefícios e evitar outros danos.
20 MANEIRAS DE DETECTAR UM PSICOPATA
Faceta interpessoal:
1. Eles têm uma boa oratória e charme. São simpáticos e conquistadores num primeiro momento.
2. Têm uma autoestima exagerada. Se acham melhores que os outros.
3. São mentirosos patológicos. Mentem principalmente para conseguir benefícios ou justificar suas condutas.
4. Têm comportamento manipulador. E, se forem inteligentes o bastante, os outros não perceberão esse comportamento psicopata.
Faceta afetiva:
5. Não sentem remorso ou culpa. Nunca ficam em dúvida.
6. Quanto à afetividade, são frios e calculistas. Não aceitam as emoções, mas conseguem simular sentimentos se for necessário.
7. Não sentem empatia. São indiferentes. E até podem manifestar crueldade.
8. Têm uma incapacidade patológica para assumir responsabilidade pelos seus atos. Não aceitam os seus erros. Eles raramente procuram ajuda psicológica, porque acham que o problema é sempre dos outros.
Faceta estilo de vida:
9. Necessitam de estímulo constante. Ficam aborrecidos facilmente.
10. Gostam de um estilo de vida parasitário.
11. Agem descontroladamente.
12. Não têm metas a longo prazo. Vivem como nômades, sem direção.
13. Eles se comportam impulsivamente. Com ações recorrentes que não são premeditadas. Junto com a falta de compreensão das consequências de suas ações.
14. São irresponsáveis.
Faceta antissocial:
15. Tendem a ser deliquentes na juventude.
16. Demonstram problemas de conduta desde a infância.
17. Tiveram a revogação de sua liberdade condicional.
18. Eles têm versatilidade para a ação criminal. Eles preferem golpes e delitos que requerem a manipulação de outros.
Outros não incluídos em nenhuma das facetas:
19. Têm tendência a uma vida sexual promíscua, com vários relacionamentos breves e ao mesmo tempo. Gostam de falar sobre suas conquistas e proezas sexuais.
20. Acumulam muitos casamentos de curta duração. Não se comprometem por muito tempo por ter que manter um vínculo.
Estes items formam o método popular chamado de PCL (Psychopathy Checklist) desenvolvido por Robert Hare, PhD em Psicologia e professor da Universidade de British Columbia no Canadá. Cada atributo recebe uma pontuação de zero a dois, e para o diagnóstico correto se adiciona uma entrevista semiestruturada e a análise do histórico do paciente. Segundo Hare, um por cento da população é psicopata.
Pode acontecer mesmo em uma idade precoce. Segundo o psiquiatra forense John MacDonald há uma tríade que poderia indicar uma futura personalidade psicopática: crueldade com animais, piromania e a incontinência urinária persistente depois dos quatro ou cinco anos de idade.
Na sociedade já ficou instituído, graças a Hollywood, a ideia de que todos os psicopatas são como Hannibal Lecter ou Dexter, encantadores, com certeza. Mas é claro que não é preciso esquartejar alguém para ser louco. Assim, é melhor estar ciente das pessoas ao seu redor. Que não esteja sendo vítima de uma manipulação enlouquecida e ainda não ter se dado conta.

quarta-feira, junho 05, 2013

Imaginação

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antoniodelfim/2013/06/1289941-imaginacao.shtml

05/06/2013 - 03h30

Os economistas são animais imaginosos. Criam, sem nenhum constrangimento ou remorso, entidades nebulosas como o produto "potencial", a taxa de juro "neutra" ou a taxa de desemprego de "equilíbrio", cuja determinação concreta é mais elusiva do que foi o neutrino.
Postulado pelo grande físico Wolfgang Pauli, acabou sendo depois detectado. Só que Pauli, mais modesto do que os economistas, mostrou grave arrependimento quando confessou: "Fiz uma coisa terrível. Postulei a existência de uma partícula que não pode ser detectada".

Felizmente, ele estava ligeiramente errado como se mostrou. Terão os economistas, mais arrogantes do que Pauli, a mesma sorte? Meus botões têm sérias dúvidas.
É preciso o máximo de cuidado com as consequências inevitáveis do uso de noções nebulosas na política econômica. Agora mesmo sugere-se, como aperfeiçoamento da política fiscal, a utilização de um Orçamento "ciclicamente ajustado", que permitiria avaliar melhor se os gastos do governo expandem ou contraem a demanda global.

Como o exercício exige o conhecimento do produto "potencial", cuja determinação é altamente duvidosa e manipulável, em lugar de um avanço "científico" da política fiscal talvez estejamos criando espaço para uma política fiscal ainda mais discricionária do que a atual.

Essa pequena consideração é reforçada pelo movimento crescente de alguns membros do Congresso Nacional que desejam instituir um Orçamento "impositivo", por meio do qual o Executivo não poderia deixar de liberar as suas emendas. É preciso reconhecer que as "vinculações", que são a forma mais ineficiente de administrar uma sociedade dinâmica e cujas necessidades mudam permanentemente, já são quase 90% das dotações orçamentárias. É inegável que isso contribuiria para a autonomia do Poder Legislativo.

Quem sabe como se manipula a proposta orçamentária do Executivo na Comissão Mista do Orçamento do Congresso Nacional não pode deixar de preocupar-se, porque esse pode ser mais um passo importante na direção do desarranjo fiscal.

No fundo, a receita estimada pelo Executivo vai sendo ajustada para incorporar as emendas. E a aprovação final do Orçamento depende das chantagens feitas na 25ª hora do último dia do expediente legislativo. O resultado é, em geral, uma peça inservível para a administração pública.

As duas ideias não parecem, portanto, merecer o apoio da sociedade brasileira. Aliás, elas têm sinais contrários: a primeira pretende dar maior discricionariedade ao Poder Executivo; a segunda, retirar a que lhe resta...

ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.
Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda (governos Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor catedrático na Universidade de São Paulo. Escreve às quartas-feiras na versão impressa da Página A2.


terça-feira, junho 04, 2013

Casquinha crocante

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-81/chegada/casquinha-crocante

ONU vê no consumo de insetos uma fonte de proteína barata; Monteiro Lobato já chamava a bunda da saúva de “caviar do Vale do Paraíba”
Por Juliana Cunha
Quando o planeta for povoado apenas por Keith Richards e as baratas, o que Keith Richards vai comer? A ONU tem uma sugestão. Onde você enxerga um alien em miniatura, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a FAO, vê uma fonte de proteína barata e sustentável. Em um relatório divulgado no mês passado, a FAO defende que a criação de insetos em larga escala pode garantir a segurança alimentar da humanidade.
Em 2050 seremos 9 bilhões de pessoas. Para alimentar toda essa gente com bifinhos, as áreas de criação animal precisariam dobrar de tamanho, o que seria uma catástrofe ecológica por causa do desmatamento e dos gases gerados pelos bois – sim, sim, por causa dos puns.
Dois bilhões de pessoas – um terço da humanidade – já praticam a degustação de 1 900 espécies de invertebrados de exoesqueleto quitinoso, aquela parte da anatomia dos bichinhos que, exposta ao fogo ou ao óleo fervente, vira uma casquinha crocante como pipoca. Besouros, lagartas, abelhas, vespas, formigas, grilos e gafanhotos são os mais ingeridos, sobretudo na África (36 países) e na Ásia (29 países), onde o consumo de carne bovina é menor – um americano come em média 120 quilos por ano, contra apenas 8,5 de um etíope.
Insetos contêm quantidades de ferro superiores às do boi, e a produção de 1 quilo deles requer apenas 2 quilos de ração, enquanto cada quilo de carne de vaca demanda um investimento de 10 quilos de ração. A carne de boi tem cerca de 20% de proteína, contra 44% de algumas espécies de barata, que são ainda ricas em vitamina B e cálcio.
Além disso, o churrasquinho de inseto é mais seguro, diz o engenheiro agrônomo Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil: “Claro que todo alimento precisa ser higienizado, mas o inseto não tem vírus nem bactérias que possam prejudicar o homem. Carnes como a de porco são mais sujeitas a zoonoses.”
Ah, sim, tem o argumento do nojo. Nesse quesito, parece que os insetos saem perdendo. Mas mantenha a compostura: a ONU não pretende colocar besouros no seu prato. A sugestão é fazer um pozinho de insetos para tornar a coisa mais palatável. Sabe aquela moça que no meio de um almoço saca da bolsa um potinho de chia, de linhaça ou do que quer que esteja na moda naquele mês? Um dia desses ela pode sacar um frasquinho de grilos triturados e, sejamos sinceros, ninguém vai estranhar.
No Brasil ainda não chegamos ao ponto de comer vespa por macheza, mas Monteiro Lobato chamava suas içás torradas em banha de porco de “o caviar do Vale do Paraíba”. Crianças da cidade grande cresceram sem entender a referência a cada vez que o Chico Bento, das histórias de Mauricio de Sousa, se atiçava diante de um formigueiro em dia de chuva.
Içá é um nome carinhoso para as fêmeas da formiga saúva. Em algumas regiões do Brasil – a exemplo da região Norte e do interior de São Paulo –, come-se bunda de içá como se fosse amendoim. A tradição é indígena e foi repassada aos tropeiros.

á quarenta anos, Ocílio Ferraz, de 75 anos, coleta as saúvas para consumo próprio e para venda. Em sua cidade, Silveiras, interior de São Paulo, quase todo mundo é caçador de formiga. A garrafa pet abarrotada de saúvas custa 100 reais. O negócio não chega a sustentar ninguém porque é sazonal. “Só tem formiga entre junho e novembro. Para caçar tem que ter chovido forte um dia antes e tem que ser um dia bem abafado, aí elas pulam do formigueiro”, conta o caçador.
Por causa da idade, hoje ele coleta pouco, prefere preparar a caça alheia: “Tenho um restaurante e envio farofa de formiga via Sedex para todo canto, até para o Sul.” Oitenta gramas da farofadelivery custam 40 reais, mais o frete.
Ocílio é ainda fornecedor de gente chique. Em São Paulo, suas formigas não são sujeitas à banha de porco que tanto agradava Monteiro Lobato, mas salteadas no azeite orgânico de alecrim pelochef Renato Caleffi, 38, doLe Manjue Organique. Depois desse verniz de azeite, o pratinho com quinze bundas de formiga passa a valer 41 reais. Por ano, o restaurante serve cerca de 200 porções de içá. “Quem pede é gente que passou a infância no interior e curiosos”, conta Bruno Amaro Fattori, 34, um dos sócios.
A farra da içá não prejudica o equilíbrio da região: o que se caça são fêmeas reprodutivas que estão indo fundar novas colônias. Sem interferência humana, a maior parte dessas formigas morreria de outras formas, explica Eduardo Almeida, professor de biologia da Universidade de São Paulo especializado em entomologia. Já a criação industrial de insetos poderia gerar problemas.
“Na década de 50, alguém teve a ótima ideia de trazer abelhas africanas para produção de mel no Brasil. O objetivo era mantê-las em cativeiro, mas se espalharam tanto que em 1980 já tinham chegado à América do Norte”, diz Almeida.
No Brasil ainda não há regra para caça e produção de insetos para consumo humano. Cabe à Vigilância Sanitária do município a inspeção em estabelecimentos que servem esses animais. Pela lei, o produto não pode ser comercializado de um estado para o outro nem, muito menos, exportado, já que não é registrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
O Ministério reconhece que vem discutindo a possibilidade de lançar uma legislação específica sobre insetos para possibilitar a tal “criação em escala industrial” sugerida pela ONU, mas o assunto é espinhoso e não há previsão de quando uma lei dessas seria aprovada.
Você ainda não parece convencido a fazer uso culinário daquela lagartinha que entrou em casa, mas Alan Bojanic está convicto de que o incentivo ao consumo de insetos é um trabalho de longo prazo. “Hoje a pessoa lê sobre a ideia e refuta. Daqui a um ano, lê e acha curioso. Acredito que em vinte anos os insetos estejam integrados à gastronomia de muitos países que ainda não têm essa cultura”, diz ele, e arrisca uma comparação: “Talvez o inseto seja o novo peixe cru. Muita gente torcia o nariz para o peixe cru, não é?” 

domingo, junho 02, 2013

GILLES VILLENEUVE

Fora a barbeiragem de Felipe Massa, outras duas se destacaram no Grande Prêmio de Mônaco.
A primeira: na 61ª volta, o alucinado Romain Grosjean, da Lotus, simples e literalmente atropelou, na Nouvelle Chicane, a Toro Rosso de Daniel Ricciardo. Isso depois de Grosjean ter passado a maior parte do tempo – tanto nos treinos quanto na corrida – protagonizando colisões bisonhas.
A segunda foi um susto só. Alex Chilton (Marussia) e Pastor Maldonado (Williams) se acharam, enquanto completavam o 45º giro. A “panca” foi bem forte. O bólido de Maldonado quase decolou. Por causa dessa batida, a prova permaneceu sob bandeira vermelha durante meia hora.
O que isso tem a ver com o canadense Gilles Villeneuve, que após a morte acabou se transformando em um dos mitos da Fórmula 1? Bom, em primeiro lugar acho que vocês aí na plateia devem imaginar como a história é um negócio esquisito.
Vou lhes dar um exemplo. Grande Prêmio da Bélgica. Circuito de Zolder, 1982. O clima entre os pilotos não era dos melhores. O GP anterior, em Imola, havia sido boicotado por várias das equipes, em razão do conflito de interesses entre os times que faziam parte do grupo da FOCA (associação dos construtores) e os pertencentes à FISA (Federação Internacional do Esporte Automobilístico). A inimizade também reinava na Ferrari. Didier Pironi e Gilles Villeneuve não se suportavam. E, por sentir que sua equipe tendia para o lado do francês, o canadense começava a conversar com Williams e McLaren.
Tudo isso está na história. Mas quem se importa com essas picuinhas? O que importa para a história mesmo é que nos treinos para a corrida, Villeneuve, em volta de classificação, bateu na lenta March de Jochen Mass. Se Maldonado não voou ao ter sido atingido por Chilton, o ferrarista não teve a mesma sorte. Seu carro capotou várias vezes, e o pobre piloto foi catapultado para as redes de proteção. Villeneuve morreu ainda na pista. A versão oficial garante que ele faleceu em Lovaina, na Bélgica. O certo mesmo é que, com esse falecimento, Villeneuve entrou para a seleta lista de fantásticos – em que se encontram, entre outros, Ayrton Senna, Juan Manuel Fangio e Jim Clark. Basta assistir ao espetáculo que ele proporcionou no GP do Canadá de 1981, debaixo de muita chuva e com a frente do seu carro detonada.
 De novo: para a história, isso é tudo o que importa.