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quinta-feira, janeiro 16, 2014

Nosso herói

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nosso-heroi-,1119026,0.htm

Luis Fernando Verissimo - O Estado de S.Paulo

Acho que falo por todos os gordinhos sem graça do mundo, por todos os homens por quem ninguém dá nada, todos os com cara daqueles tios que nas festas de família ficam num canto e nem os cachorros lhes dão atenção, ou fazem xixi no seu sapato, todos os que se apaixonam mas não têm coragem de se aproximar da mulher amada, quanto mais declarar sua paixão, todos os que são chamados de "chuchu", mas não é um termo carinhoso, é uma referência ao legume sem gosto, todos os sem sal, os sem encanto, os sem carisma, os sem traquejo, os sem lábia - enfim, os sem chance - do mundo se disser que o François Hollande é o nosso herói. Ele é tudo que nós somos e não somos. É um dos nossos, mas com uma diferença: no caso dele era disfarce.
A companheira de Hollande, Valerie Trierweiler, que mora com ele no palácio presidencial e o acompanha em eventos oficiais e viagens, e que também é chamada de Rottweiler pela ferocidade canina da sua dedicação ao presidente, está internada com uma crise nervosa provocada pela revelação de que François tem uma amante, a atriz Julie Gayet, com quem costuma se encontrar num apartamento perto do palácio. Hollande já teve como companheira uma das mulheres mais interessantes da França, Ségolène Royal, com quem a fera teve quatro filhos. A pergunta que se faz na França é: o que exatamente esse homem tem que explique seu sucesso com as mulheres? A questão não tem nada a ver com direito à privacidade. Trata-se de uma curiosidade científica. Se o que ele tem, e disfarça com aquela cara, puder ser reproduzido em laboratório será um alento para a nossa categoria.
E nossa admiração só aumenta com os detalhes das escapadas de Hollande. Ele vai para seus encontros com Julie numa motocicleta. O Hollande vai para seus encontros com a amante montado numa motocicleta! Pintado no seu capacete, quem sabe, um galo, símbolo ao mesmo tempo da França e do seu próprio vigor. Ainda há esperança, portanto. Se ele pode, nós também podemos. Pois se François Hollande nos ensina alguma coisa é que biologia não é, afinal, destino.

terça-feira, outubro 08, 2013

DAS VERDADES INCONTESTÁVEIS

Apenas para promover o retorno de uma daquelas adoráveis expressões “das antigas”, vamos começar estas considerações afirmando que o romancista Luiz Ruffato pôs a boca no trombone. Na abertura da participação brasileira na Feira do Livro de Frankfurt (Alemanha, meu povo!), o escritor detonou com seu discurso: disse que o Brasil “nasceu sob a égide do genocídio” (verdade); que a nossa “democracia racial” aconteceu à base de estupros (idem) e que no Brasil “reinam a impunidade e a intolerância” (idem²).
            Como diria o Décio Sá: “Quem é Luiz Ruffato, rapá?”. Bom, confesso que, até antes de ler a matéria que me inspirou este opúsculo, eu não fazia ideia da mera existência de um cidadão chamado Luiz Ruffato. Muito menos que fosse escritor. E ainda menos que havia a condição de “escritor” associada a seu nome.
            Eu estava mais ou menos no mesmo patamar de ignorância daqueles que até hoje desconhecem a importância do ex-vice-presidente Al Gore para o debate a respeito da contribuição decisiva – do ponto de vista negativo – da humanidade para o criminoso aumento do aquecimento global. Vocês aí já assistiram ao documentário Uma verdade inconveniente? Não? Então, não posso ser condenado por ainda não saber que existe uma criatura denominada Luiz Ruffato.
            E já que estamos falando tanto desse indivíduo, eis um brevíssimo apanhado de sua vida e de sua arte: nasceu em Cataguases (Minas) em 1961, é filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira de roupas. Formou-se em tornearia-mecânica pelo Senai e trabalhou como operário da indústria têxtil, pipoqueiro e atendente de armarinho. Por esse início de biografia, o sujeito poderia ter sido presidente do Brasil. Mas preferiu escrever livros. Romances. Eles eram muitos cavalos (?), de sua lavra, lançado em 2001, ganhou o troféu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Além disso, tornou-o um escritor reconhecido no país. Onde eu estava, enquanto isso acontecia? Na certa, tentando ser um escritor reconhecido aqui no Brasil. Patético!
            Pois esse grande gênio das nossas letras chutou o pau da barraca, com seu discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt. Não sei se ele acordou com o pé esquerdo, nem se a sua mula literária empacou onde a vaca nacionalista foi para o brejo. O que sei mesmo é que ele resolveu cavoucar a ferida com o indecente dedo médio em riste e disparou, na presença do vice-presidente, o nobilíssimo Michel Temer:
            “Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos”.
            Não que Michel Temer tenha a ver com a dizimação dos primeiros indígenas. Não que tenha sido um dos responsáveis ou mesmo o mentor intelectual do “estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos”. Mas como político situacionista, Temer (involuntariamente, é certo) faz parte de um sistema marcado tanto pelas desigualdades quanto pelas crueldades, como está, apontada pelo escritor:
“Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados”.
São verdades inconvenientes, como as divulgadas por Al Gore em seu documentário. E também incontestáveis. Para Ruffato, escrever é “compromisso”. É não enfiar a cabeça na areia e dizer que está tudo bem.

É, acima de tudo, acreditar que a literatura pode propiciar mudanças no cenário obscuro que ele mesmo denunciou, em seu discurso em Frankfurt.

segunda-feira, setembro 16, 2013

A ROMARIA



Romeiro, de pé no chão, mas sem a vela na mão.
            Não havia promessas a serem pagas, quando a romaria para São José de Ribamar chegou ao retorno da Forquilha. Pelo menos, não por mim. Tudo o que eu queria era me acertar diretamente com o Criador. Pedir perdão pelas minhas falhas – poucas, mas no meu entendimento significativas. Sem a necessidade de intermediários – mesmo que o “advogado” fosse São José de Ribamar – cuja família rumava para a cidade balneária em um carro que começou a dar problemas já nas imediações da Maiobinha. Foi necessário alguns dedicados devotos empurrarem o automóvel. E nesse empurra-empurra chegaram mais rápido do que o trio elétrico no qual viajavam os padres e os animadores da caminhada. E sem essa animação o trajeto teria sido muito complicado, por causa do calor e de alguns malas, que tentaram embaçar o processo.
            Os malas estão por toda parte, mesmo. Todo ano é isso: os babacas, sem São José no coração, em vez de brincar, festejar, primar pela diversão na exaltação, enchem a cara, se estranham com outros malas piores do que eles e promovem ilhas de confusão que procuraram arruinar a felicidade de quem “pernava” imbuído com os melhores propósitos de louvar a santidade do pai de Jesus Cristo. Ainda bem que a Polícia Militar colocou logo no bolso esses três ou quatro infelizes – assim pudemos seguir caminhando e cantando – e seguindo a canção.
            O que mais me agradou foi constatar que a romaria não é um teste de resistência e fé apenas para católicos. Eu a vi como uma grande confraternização, voltada não apenas para o apostólicos romanos. Todos os praticantes dos credos religiosos vigentes podiam participar. Podem fazer parte no ano que vem. Ou enquanto a romaria existir e persistir. Porque é popular, e tudo o que apresenta essa característica – desde que organizado com todo o cuidado, todo o profissionalismo – pode muito bem ser mais importante do que os Rock in Rio da vida.
            Já em Ribamar acontece um fenômeno interessante. A pessoa caminha durante seis, sete horas e, em vez de assistir à Missa da Acolhida, simplesmente desaba na praça principal e dorme que ronca. Eu, não. Logo depois de assistir à celebração da na concha acústica, dou uma passada na área ao redor das enormes estátuas de São José e do Menino Jesus. Para assistir ao espetáculo da alvorada na faixa litorânea pertencente ao município-santuário. Depois, antes de voltar para casa, me dirijo até o porto. É engraçado. Conheço gente que mora perto de praia me diz que gostaria de ficar longe de água salgada. Eu, se pudesse, faria o movimento contrário. Fico me imaginando adormecendo ao som da melodia do oceano. Sonho de consumo.
            Enquanto não se realiza, vamos participando da romaria. Sempre com os pés no chão, mas sem a vela na mão. Porque não é tempo para promessas e sim de arrependimento. Levar à mão ao peito esquerdo e sentir o coração bater contrito, angustiado, em busca do perdão divino que pode ou não ser obtido.
            Na romaria, entendi que a remissão dos meus pecados poderia se dar pelas minhas atitudes a partir deste momento. Dos pequenos gestos cotidianos, que talvez signifiquem passadas largas rumo à salvação.
            Agora, se não funcionarem e eu me dar mal no Dia do Juízo, pelo menos a gente se divertiu por demais. Creio que ainda estou no lucro, meu povo.

segunda-feira, julho 08, 2013

A LUZ NO FIM DO TÚNEL

“Os mortos no mar são como espinhos no coração”. Essa frase parece ter saído da pena de Melville ou de Jorge Amado – apenas para citar dois escribas que trataram com rara poesia a relação de amor e ódio e vida e morte da humanidade com o mar.
            No entanto, como o comercial daquele antigo anticaspa, parece, mas não é. Quem disse que os mortos no mar são como espinhos no coração foi o papa Francisco, quando esteve recentemente na ilha italiana de Lampedusa para “chorar” os muitos imigrantes do Oriente Médio e do norte da África que acabam perdendo a vida em naufrágios na tentativa de alcançarem o Velho Continente em busca de uma vida melhor, longe de guerras, da fome e das epidemias.
            Ainda lembrando ditos mais velhos do que andar para a frente, a impressão é a primeira que fica. E a que me passa a imagem do novo papa é a de um sujeito desencanado. Ou seja, a de alguém que encara sem problemas e com a dose certa de bom humor o imenso fardo de comandar uma das principais denominações religiosas do planeta. Basta recordar o discurso com que brindou a multidão aglomerada na Praça de São Pedro no dia de sua escolha: “Vocês sabem que o dever do conclave era de dar um bispo a Roma. Parece que meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo. Mas estamos aqui!”.
            Pois este simpático papa argentino – o primeiro pontífice nascido no continente americano –, que estará aqui no Brasil neste mês para a Jornada Mundial da Juventude, produziu a “quatro mãos” (aproveitou, segundo entendi, algumas ideias de seu antecessor, Bento XVI) a encíclica Lumen Fidei, “A Luz da Fé”, sua primeira encíclica.
            Para quem não sabe, encíclicas são documentos pontifícios – ou seja, produzidos pelos papas – dirigidos aos bispos do mundo inteiro e, por meio destes, para os fiéis. Por meio delas, o papa define a posição da Igreja Católica sobre um determinado tema.
            Com a Lumen Fidei, Sua Santidade basicamente nos diz que “a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões”. Por isso que a chamamos, em muitas ocasiões, de “a luz no fim do túnel”. Quando a maré da vida muitas vezes está contrária aos nossos objetivos, mesmo os menos ambiciosos, as pontadas de desespero nos atingem com força suficiente para nos atordoar ou para nos conduzir a gestos extremos, como o assassinato e o suicídio. É nessas horas que recorremos à Palavra, como esta passagem encontrada em Tiago 1: 5-8:
            “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé; não duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa. O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos”.
            Não é o caso do nosso bom Francisco. Cuja constância ocorre pela alegria que certamente marcará seu Pontificado. E, por ter deixado que seu coração se tornasse alegre e desprovido de espinhos para enfrentar os muitos problemas que ainda grassam pelo Vaticano e acabam afetando as dioceses de maneira geral, como um organismo doente, Jorge Mario Bergoglio tem tudo para realizar um bom governo. Prova disso é a sua Lumen Fidei, que transmite para todas as famílias mensagens de esperança quanto ao futuro – mesmo nestes tempos de violência desmedida.
            Ou, nas palavras do papa Francisco, anotadas em sua encíclica inicial: “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construirmos solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro”.
            Assinamos embaixo, Sua Santidade.


terça-feira, janeiro 08, 2013

Prece para um ano novo

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/carlosheitorcony/1211220-prece-para-um-ano-novo.shtml

08/01/2013 - 03h30


RIO DE JANEIRO - Depois do bife com batatas fritas, das pernas da Claudia Raia e da introdução de "No Tabuleiro da Baiana", do Ary Barroso, a maior criação de Deus foi o Diabo, o próprio, também conhecido como Demônio ou Satanás. E, segundo Guimarães Rosa, o Arrenegado, o Cão, o Sujo, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Tisnado, o Coxo, o Coisa-Ruim, o Marrafo, o Não-Sei-Que-Diga, o Rapaz, o Sem-Gracejos (apud "Grande Sertão: Veredas").
Tirando-se o citado Sem-Gracejos da história, nem haveria história, o mundo seria uma chatice, todo mundo tocando cítara e sem direito de votar, como nos tempos da ditadura, e sem poder ir para o diabo que o carregue.
Pensando assim, desde que li as obras completas de Tomás de Aquino, não me arrependo de ter, aos nove anos de idade, vendido minha alma ao Diabo a troco de um canivete de duas lâminas de um tal Sacadura, terror das ruas de Lins de Vasconcelos, onde nasci e vivi até que desconfiei que a barra ficara pesada para os meus lados. O que me obrigou a buscar refúgio num seminário, onde tentei desfazer o pacto diabólico -uma redundância, por sinal, porque, sem pacto ou com pacto, o Diabo já tinha o domínio do fato ("data venia" aos nossos ilustres ministros do Supremo Tribunal Federal).
Muita gente acredita que a maior obra de Deus foi a luz, o "fiat lux", que terminou virando uma caixa de fósforos. Em tempo de tantos apagões, que dona Dilma não cansa
de explicá-los, até que seria uma boa se tivéssemos uma nova edição, revista e aumentada, da criação do homem. Mesmo sem homem, mas com o Diabo, que, entre seus feitos satânicos, me deixou literalmente na mão, sem o canivete de duas lâminas do Sacadura. Com o qual eu poderia fazer justiça, livrando-me de todo o mal, amém.
Carlos Heitor Cony
Carlos Heitor Cony é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.

    quinta-feira, novembro 15, 2012

    ASTRONAUTA ENTRE DOIS POLOS


    Não sei se foi em “O Estado”, no fim de outubro, que li a respeito de Astronauta – Magnetar, de Danilo Beyruth. Pareceu-me interessante a proposta de releitura de um dos personagens mais fascinantes de Mauricio de Sousa – da visão que muitas crianças têm a respeito do espaço sideral a um ponto de vista mais “adulto”, por assim dizer. Mais voltado para os leitores na faixa etária dos 20 anos em diante.
                Esperei a graphic chegar às bancas daqui. Quando isso aconteceu e pude ter a revista em mãos, de imediato pipocaram nas minhas recordações duas ótimas histórias do Astronauta, uma relacionada à outra.
                Na primeira, o cosmonauta retorna à Fazenda Tangará, no interior de São Paulo, ansioso para rever os amigos, a família e, principalmente, o grande amor de sua vida. Mas ele não consegue encontrar Ritinha em lugar algum e o pessoal da fazenda se mostra reticente quanto a onde a moça poderia estar. As perguntas insistentes do Astronauta acabam vencendo essa resistência, e o coitado acaba recebendo a má notícia: a sua amada idolatrada casara-se com Bonifácio, um dos melhores amigos do herói.
                O aventureiro das galáxias finge aceitar numa boa o enlace. Acata as justificativas de Rita, segundo as quais estava cansada de esperar indefinidamente pelo retorno dele dos rincões mais distantes do universo. E no fim da história entra em sua famosa nave redonda e volta para as suas peripécias interestelares com o coração, naturalmente, partido sem chances de conserto.
                A segunda história é uma espécie de continuação da primeira. Com seu casamento com Bonifácio devidamente consolidado e depois de dar à luz um menino, Ritinha visita os pais do Astronauta e os três ficam refletindo sobre como poderia estar vivendo seu ex-namorado, naquele exato instante, talvez perdido em alguma dimensão ou fenda espacial. Pois no último quadrinho está a resposta: o Astronauta passa por uma dificuldade daquelas, sendo espancado por uma raça maligna de alienígenas. Nada muito sério, claro. Porradas com algum humor, para não chocar a criançada.
                O Astronauta de Danilo Beyruth é ainda mais solitário. Ainda mais obcecado em cumprir missões malucas determinadas pela direção da BRASA (Brasileiros Astronautas), que decerto muito foram lidas por Marcos Pontes em sua infância. Em Magnetar, essa obsessão é tanta que dá para interpretar que os perigos aos quais ele é submetido são autoimpostos – como uma espécie de punição inconsciente por ter abandonado tudo o que ama (ou amava) e lhe é (ou era) mais caro.
                Mas ao mesmo tempo em que se arrisca a vida para fugir do Magnetar e da nave que ameaça se transformar em seu caixão e sepultura, a saudade de sua terra natal está lá. Assim como um resquício de sua velha paixão por Ritinha. Uma dicotomia muito bem explorada por Beyruth na aventura de 83 páginas que concebeu e desenhou, como muito faziam tempos atrás John Byrne e outros consagrados pelo gênero.
                E essa dualidade me faz pensar em outro aventureiro, Amyr Klink, e numa homenagem a este grande explorador chego facilmente à conclusão de que o protagonista de Magnetar é um astronauta entre dois polos.

               
    NEY FARIAS CARDOSO

    REVISOR DE O ESTADO

    quinta-feira, novembro 08, 2012

    OTÁRIOS MIDIÁTICOS


    Otários estão por toda parte. Eles permanecem calados na maior parte do tempo, à espera do melhor momento para destilar sua verborragia antropofágica a respeito de qualquer assunto. Afinal, entendem de tudo um pouco e não aceitam opiniões contrárias.
                O que esses cretinos pensam que sabem é o que importa. E ponto final.
                Aos domingos , essa raça para na frente da tevê para assistir ao “Fantástico”. Só esse gesto implica um atestado de derrocada lenta e inexorável rumo ao marasmo da imbecilidade. Porque parar para ver o “Fantástico” é de um absurdo atroz. Na última vez, o raio do programa começou com o raio de um elefante que é capaz de reproduzir falas humanas. Ou alguma “bestagem” parecida com isso.
                Dá no mesmo se a “atração” for o “Videoshow” ou o “Domingão do Faustão”.
                Pois bem. Essas lástimas, naturalmente sem ter o que fazer, atualmente concentram-se em criticar as aparições de Ronaldo Fofômeno na “revista eletrônica”. O quadro de que participa o maior artilheiro da história das copas chama-se “Medida Certa” e tem como objetivo auxiliar celebridades gorduchas e sedentárias a perderem peso. Na estreia, teve como protagonistas o casal de apresentadores do “Fantástico”. Pelo que se viu, os graus de sucesso da dupla empreitada foram variados.
                O máximo de crítica que os dois devem ter lido ou ouvido (se não o fizeram são também dois otários) foi que os regimes e exercícios aos quais se submeteram  deram pouco ou, para caprichar ainda mais na sinceridade, quase nenhum resultado.
                Já Ronaldo vem sendo detonado sistematicamente por tentar perder peso em cadeia nacional de televisão. Porque, dizem, a Globo lhe pagou a bagatela de 6 milhões de reais para correr, malhar, suar à vontade e realizar outros escambaus para ficar fisicamente mais enxuto – mesmo que essa revolução lipídica não venha a transformá-lo em uma pessoa melhor.
                Desde então, as redes sociais se tornaram um verdadeiro pântano, no qual chafurdam os otários midiáticos. Todos batendo na mesma tecla: “A Globo dá seis milhões para Ronaldo e vem com essa história de ‘Criança Esperança’”.
                Quem pensa assim é, repetindo, um otário. Um pobre-coitado que não teve a capacidade, o talento e a inteligência para alcançar o Olimpo dos rostos mais conhecidos deste planeta. Alguém que deveria se preocupar mais com as desigualdades sociais, a fome, a miséria extrema e o analfabetismo – que pipocam praticamente de seu nariz ranhento. Pois coloquem essa em seus juízos equivocados: Ronaldo está pouco se lixando para o que bem ou mal falem dele ou bem ou mal deixem de falar.
                Outra cretinice vi no Facebook, outro dia. Um cristão (ou cristã, não lembro agora) afirmava de forma categórica que não lê o jornal “O Globo”, não assiste a nada que a Rede Globo transmite e muito menos acessa o portal globo.com. Segundo essa triste figura, as informações passadas pela principal emissora do país chegam até nós manipuladas. E mais: que o futebol e a novela (oi, oi, oi) não passam de farsas elaboradas para desviar o foco da patuleia para o entretenimento descartável, impedindo assim que reflita de forma crítica acerca dos reais problemas da nação.
                Posso concordar. Aceito a argumentação. Desde que, na outra ponta da comunicação, entenda-se que a única maneira de não aceitar a doutrinação imposta pelas grandes emissoras: usar o controle remoto para desligar a tevê. Em geral, o silêncio vale mais do que um milhão de bobagens.
                E depois da televisão desligada, ler um bom livro sempre será uma excelente alternativa. Muito melhor do que ficar se preocupando com as silhuetas ronaldísticas.
                Como diria minha santa mãezinha, mente vazia é a oficina do diabo.

    NEY FARIAS CARDOSO
    Revisor de O Estado

    segunda-feira, outubro 29, 2012

    A MORTE NOS QUADRINHOS


    Fiquei sabendo outro dia que, nos Estados Unidos, no fim de uma grandiosa saga que mostrou o conflito entre os X-Men e os Vingadores (mais uma Guerra Civil, mas agora envolvendo os principais mutantes do Universo Marvel), o professor Charles Xavier acabou morrendo. Não faço ideia de como foi que ele bateu as caçoletas. O que sei mesmo é que o recurso da “Morte de Fulano de Tal” é largamente empregado pela indústria quadrinística quando se quer alavancar as vendas de determinada revista.
                Os exemplos são muitos e variados.
                Tempos atrás, um grupo de heróis adolescentes da DC Comics foi reunido em uma empreitada bem-sucedida: a Turma Titã. Era formada basicamente por Robin (Dick Grayson), Aqualad, Kid Flash, Moça-Maravilha e Ricardito. Com o passar dos anos, a DC resolveu dar um enfoque mais adulto para esses personagens, e no fim das contas eles precisaram crescer para formar “Os Novos Titãs”. Para esse processo de amadurecimento, Dick Grayson já não podia mais ser o Robin. Passou a ser chamado de Asa Noturna. Logo, o Batman precisou encontrar um novo parceiro mirim que o ajudasse a combater o crime na sombria e perigosa Gotham City.
                Acabou encontrando Jason Todd. Um órfão (requisito comum entre aqueles que participam das peripécias do Homem-Morcego) que tentava roubar os pneus do Batmóvel. O guri naturalmente foi aceito. Vestiu naturalmente o manto de Robin. Fez naturalmente algum sucesso lá fora – aqui nem tanto -, até que os figurões da DC, talvez sentindo que as vendas das revistas do Batman não estavam mais indo de vento em popa, resolveram que o garoto fosse brutalmente morto pelo Coringa. Pelo que li a respeito, chegou-se a montar uma espécie de debate entre os leitores de quadrinhos norte-americanos. Afinal, eles acabaram decidindo pela morte de Jason. A estratégia deu certo. O arco de histórias no qual a morte é narrada arrebentou a boca do balão, nos States e aqui. Lembro que DC Especial em que o assassinato aconteceu vendeu feito pitomba de feira.
                E qual nerd não se lembra da morte do Super-Homem (“Superman” é imposição ridícula)? Essa jogada de marketing também funcionou de forma estupenda. Rendeu muita grana para a Editora Abril. Apesar dos muitos crimes editoriais que ela cometeu ao longo dos anos (basta pesquisar o que fez, por exemplo, com “Guerras Secretas”), a gente precisa dar a mão à palmatória. Foi um ótimo trabalho de tradução, adaptação e encadernação – concluído com a publicação das versões nacional e estadunidense da batalha em que Kal-El defendia até a morte sua amada Metrópolis da devastação promovida pelo monstro Apocalypse.
                A Marvel não fica atrás. Mas esta se destaca mais pelo outro lado da medalha: as ressurreições. Para ela, fazer um personagem voltar à vida parece render mais do que matá-lo. Foi o caso do Capitão América, cujo assassinato marcou o fim da Guerra Civil. O mais engraçado é que, numa determinada história do Thor, o Filho de Odin chega a conversar com o fantasma de Rogers. E daí? Esqueçamos esse lapso. Na verdade, Steve acabou se tornando um prisioneiro do tempo. Após o seu resgate, ele se tornou o comandante da Shield com a queda de Nick Fury e, em seguida, de Norman Osborn. E tem funcionado bem nesse papel, desde então.
                Os mutantes também tem sua cota de “mortos que voltam para perturbar”. Vejam só o caso de Jean Grey. Ela aparentemente morreu quando salvou os X-Men de virarem churrasquinho na reentrada da órbita da Terra (estou me expressando direito?). Ela acabou voltando tempos depois porque quem morreu mesmo foi um clone dela criado pela entidade Fênix – que também manteve a telepata-telecinética em um estado de animação suspensa no fundo do oceano, até ser providencialmente encontrada pelo Quarteto Fantástico. Ou foram os Vingadores? A memória anda uma droga.
                Como se vê, essa história de matar ou fazer voltar à vida personagens de destaque não passa de mero instrumento capaz de estimular e manter em rotatividade a indústria dos quadrinhos. Para quem acha que é só bobagem, trata-se de um mercado que movimenta milhões e milhões de dólares.
                Mas é preciso discernimento na hora de bater o martelo e determinar: “Tá na hora de Fulano de Tal bater as caçoletas”.
                Corre-se o risco da banalização.

    NEY FARIAS CARDOSO
    Revisor de O Estado

    VIVA JORGE AMADO!


    No sábado passado, à noite, chegou ao fim uma novela memorável.
                Tenho lá ressalvas quanto ao principal produto da mídia eletrônica brasileira voltado para o entretenimento. Tanto quanto o futebol, a novela é um instrumento das classes dominantes utilizado no sentido de manter a população num estado tal de abstração que a impede de discutir os muitos e variados problemas nacionais.
                Mas devo reconhecer que gostei de “Gabriela”.
                Em primeiro lugar, claro, por ter se baseado em uma das obras-primas de Jorge Amado. De todos os nossos escritores, acredito eu que tenha sido o único a declarar seu amor à sua terra natal – a Bahia. Como esquecer deste excelente começo de “Capitães da Areia”: “A grande noite de paz da Bahia veio do cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas. Os sinos já não tocam as ave-marias que as seis horas há muito que passaram. E o céu está cheio de estrelas, se bem a lua não tenha surgido nesta noite clara”.
                Em segundo lugar, com os atores escolhidos para o elenco de “Gabriela”, a novela não tinha como dar errado. Só um terrível acesso de incompetência do diretor para atirar na lata do lixo atuações impecáveis de Laura Cardoso (o “Jesus, Maria, José” de Dona Doroteia virou hit), José Wilker (que também ganhou o país com o seu “Eu vou lhe usar”), Antônio Fagundes e Ary Fontoura.
                Quando o folhetim começou, como tudo que é novidade, foi visto com imensas desconfianças. Eu ouvia muito isto, proferido por um representante da velha guarda: “Ah, os artistas estão muito longe dos que fizeram a primeira versão”. Posso até concordar. A Zarolha de 1975 era ninguém menos que Dina Sfat. O papel de Gerusa – recém-encarnado pela belíssima Luiza Valdetaro – foi dado para Nívea Maria. A cara cínica e safada de Tonico Bastos ficou muito melhor em Fúlvio Stefanini.
                Como último exemplo, temos a personagem-título.
                Ainda há pouco, encontrei um site (umdiasereidiva.blogspot.com.br) que mostra os donos dos papéis de maior destaque da novela da década de setenta e a que terminou de acabar. Em primeiro lugar, lógico, aparecem as fotos de Juliana Paes e de Sônia Braga. Penso que, enquanto a atuação da primeira ainda reverberar na memória, a pergunta não calará: Juliana portou-se bem como Gabriela?
                Entendo que não. Desde os primeiros anúncios do remeique pensou-se que os responsáveis por ele iriam apostar em “sangue novo”. Alguma atriz morena, belíssima, cravo e canela da gema, totalmente inédita. Mas não. Escolheram Juliana. Que é linda por demais, sem dúvida... mas cujo corpo – depois de ter passado pelo processo do parto e da amamentação – não fazia jus à sensualidade inerente à Bié de Jorge Amado. E depois ela nem de longe se destacou. Leona Cavalli mandou muito melhor, com muito mais intensidade. E ainda abiscoitou a capa e o recheio da “Playboy”. Talvez a direção da Globo nessa área de telenovelas tenha preferido não arriscar, não apostar no ineditismo. Às vezes, time que está ganhando precisa de peças de reposição.
                Mas no cômputo geral a “Gabriela” versão 2012 deu certo. Teve vários momentos de brilhantismo, como o encontro dessas três bandeiras da televisão brasileira – Tarcísio Meira, José Wilker e Antônio Fagundes – em uma mesma cena. Mas também teve lá seus instantes de canastrice inverossímil, como os motivos que levaram Mundinho Falcão a se atrasar, enquanto os jagunços o esperavam do lado de fora de sua residência e o coronel Ramiro morria no centro da praça principal de Ilhéus.
                A Rede Globo trabalha bem com novelas. E quando produz algo em cima das obras de Jorge Amado, esse trabalho flui com impressionante facilidade. Por isso, o mestre de “Jubiabá” e “A morte e a morte de Quincas Berro d’Água” deve ser homenageado todo. E ficar vivo em nossas memórias o tempo que for preciso.

    NEY FARIAS CARDOSO
    Revisor de O Estado

    sexta-feira, outubro 26, 2012

    A DESILUSÃO E O MEDO


    Muita gente por aí gosta de bater no peito e bradar: “Sou brasileiro e não desisto nunca”. São otimistas até debaixo d’água, como diria um filósofo contemporâneo. Pois diante da situação política do país pós-resultados do julgamento do mensalão e da definição do segundo turno em algumas capitais, domingo que vem, esses indivíduos até que se mostram corretos quando afirmam que, no fim das contas, o medo não conseguiu vencer a esperança.
                Eu não sei. Quando penso no que a tal da “classe política” vive aprontando e no que sem dúvida ainda aprontará neste nosso Brasil varonil, chego à conclusão de que não estamos mais nem no caso de colocarmos em pauta o medo versus a esperança e sim o medo versus uma baita desilusão.
                E sabem por que me sinto desiludido? Porque neste domingo não ficarei diante da urna eletrônica na minha seção, no colégio Gonçalves Dias, para escolher entre os candidatos Castelo ou Edivaldo Holanda quem será o prefeito de São Luís.
                Lamento dizer que, no meu caso, os melhores “candidatos” atenderão pelas alcunhas de “branco” e “nulo”.
                O caso é o seguinte: no meu modesto entendimento, São Luís está em maus lençóis. De um lado do ringue eleitoral está João Castelo. Que definitivamente não foi o prefeito que os ludovicenses esperavam. Ele tem obras para mostrar? Tem. Depois de um longo e tenebroso inverno, o mercado da Cohab e a Avenida Santos Dumont se transformaram em algo digno de elogios. Mas no contexto ele receberá menos apalusos do que gostaria.
                Como festejar um prefeito que deixou uma renca de crianças fora da sala de aula? Olha só: vocês aí sabem da história do Uruguai, não é? Segundo a Revista Piauí deste mês, “é o segundo menor país da América do Sul, o menos corrupto (segundo a ONG Transparência Internacional) e o mais seguro para se viver”. Além disso, “os salários subiram 36,6% nos últimos sete anos (...). O desemprego bateu recorde mínimo neste ano: 5,3%. Agora 13,7% dos uruguaios vivem abaixo da linha da pobreza, uma redução de cinco pontos em um ano. Quase não há analfabetismo no Uruguai e todas as crianças estão na escola. Nenhum dos países do Mercosul tem indicadores sociais tão bons”. Além disso, segundo a mesma reportagem, todos os alunos da rede pública receberam notebooks doados pelo governo federal de lá.
                E aí? Por que esses indicadores não puderam ser aplicados a São Luís? Tudo bem: é possível que o prefeito alegue problemas de orçamento para não reforçar a qualificação dos estudantes da rede municipal. Ele mesmo disse que a cidade já se encontra “no limite” da Lei de Responsabilidade Fiscal. Vá lá. Mas por essa razão deixar uma quantidade enorme de alunos fora das salas de aula porque não havia recursos para reformar ou mesmo realizar meros serviços de pinturas em escolas é simplesmente inaceitável.
                Quanto ao adversário do alcaide tucano, os “senões” também são dignos de nota. O caso da “milícia 36” já foi comentado até não poder mais. Serviu como combustível para o contra-ataque da turma do PSDB, no sentido de recuperar terreno perdido para os petecistas nas pesquisas. Portanto, não cabe mais aqui perder tempo com esse assunto. O que durante toda essa campanha me causou perplexidade foram as decisões de Edivaldo Holanda Júnior de, sempre que possível, não participar de debates importantes – inclusive acionando a Justiça para tanto. E quando se fez presente não mostrou o que realmente pretende, se eleito prefeito.
                Portanto, minhas senhoras e meus senhores, a meu ver não importa o que aconteça no debate da TV Mirante: meu medo de ver a partir do ano que vem uma cidade conduzida mal e porcamente por um administrador equivocado e minha desilusão em relação aos tais dos nossos representantes estão em pé de igualdade.
                Daí minha sincera opção pelo voto em branco ou por anulá-lo de uma vez.
                E o pior é que nem se trata de uma questão de protesto.


    NEY FARIAS CARDOSO
    Revisor de O Estado

    sábado, outubro 20, 2012

    A FARSA DO “OI, OI, OI”


    Eu não devia levar esse assunto tão a sério. Afinal de contas, novela é trabalho  de ficção, produto inteiramente voltado ao entretenimento. Termina uma e logo esta é esquecida pelo “grande sucesso” da temporada seguinte.
                Mas não posso deixar de comentar a grande enganação dos últimos tempos da televisão brasileira. Refiro-me ao derradeiro último capítulo de “Avenida Brasil”.
                Anticlímax foi pouco. O autor do folhetim, João Emanuel Carneiro, depois de brindar seus telespectadores (ou pelo menos os que foram capazes de percebê-los) com altas referências literárias, tais como  “O Assassinato no Expresso do Oriente” para basear o mistério em torno da morte de Max e “O Primo Basílio” para a chantagem que Nina/Rita exerceu sobre Carminha durante os capítulos mais memoráveis da trama, no meu entendimento fracassou por completo em surpreender ou mesmo chocar os milhões de brasileiros que pararam a vida ontem (a primeira versão deste opúsculo tem como destino primeiro as redes sociais) para acompanhar os momentos finais de um trabalho que poderíamos considerar “muito bom” e que mobilizou (ou “desmobilizou”, porque todo mundo ficou mesmerizado na frente da telinha por mais de uma hora) esta nação de uma forma que apenas “Vale Tudo” foi capaz.
                Contudo e no entanto, a farsa do “oi, oi, oi” foi se revelando à medida que avançavam os lances do capítulo final. Em primeiro lugar: que fim teve Gepeto/Albieri/Santiago? O bandidão levou um tiro no pé, ficou à mercê de Carminha... e depois? Foi preso? Teleportou-se de volta para os idílios paradisíacos de “O Clone”? Não se sabe. Pode ser que tenha sido preso. Talvez no “Vale a Pena a Ver de Novo” ou, daqui a algum tempo, no Canal Viva alguém dê um jeito de informar o que aconteceu com o vilão.
                Em segundo lugar, o ponto nevrálgico do engodo. Cármem Lúcia, por fim, se redimiu de seus muitos pecados. A grande vilã, a adúltera, a mentirosa manipuladora que não aguentava ficar perto da própria filha... terminou absolvida com a “redenção”. Ora, o sr. Carneiro já havia sinalizado para essa possibilidade em recente entrevista, na qual afirmara que colocaria sua Carminha “em um altar”. Por esse motivo, resolveu transformá-la na grande heroína da trama, detendo o “bandido verdadeiro” e salvando a vida de Nina/Rita em um par de ocasiões.
                Coerente com essa defesa apaixonada, ele não poderia ter feito outra personagem a assassina de Max. Eles foram amantes, parceiros em diversos atos ignominiosos contra o bovino Tufão e sua família, brigaram também violentamente quando as circunstâncias exigiram o brusco rompimento – mas depois retornaram um para o braço do outro porque dois corações vagabundos, de fato, se atraem. Até, é claro, a ruptura definitiva, com o cocoruto do Max sendo arrebentado por uma enxada pela representante do óbvio, que acabou ululando vitorioso.
                Um desassuntado, no Face, disse que o status quo cumpriu seu objetivo de vender o produto “Avenida Brasil” do Oiapoque ao Chuí e que não deveríamos esperar “nada de muito surpreendente”. Pois confesso que aguardava essa surpresa, senhoras e senhores. Queria que o Max tivesse sido morto pela Olenka, por exemplo, desde que tivesse uma baita justificativa para tanto. Qualquer um, menos a Carminha. Menos o que estava na cara que ia acontecer. Porque o autor mostrou durante os 2.627 capítulos da novela que tinha condições de deixar todos nós em polvorosa, discutindo e debatendo até agora (são quase 16h de sábado enquanto massacro o teclado do computador com estas indignações) como ele teria sido capaz de se transformar no escritor de folhetins eletrônicos mais importante de todos os tempos da televisão brasileira se tivesse decidido dar o salto de fé em nome da ousadia.
                Mas não. O sr. João Emanuel Carneiro seguiu o padrão global do “tudo bem está quando bem acaba”. Nina/Rita, Jorginho e o pimpolho que geraram no fim sentaram-se à mesa, no fim das contas, tomando café com a mesma criatura que, até recentemente, tanto odiaram. Ainda bem que Tufão não foi capaz de perdoar Carminha. Para ele, apenas dois gestos benignos jamais apagariam uma vida inteira de pusilanimidades. Porque é isso mesmo o que acontece na vida real. Uma pessoa passa quase toda a existência cometendo todos os males possíveis. Mais lá na frente, muda do vinagre para a água benta – se converte, aceita Jesus no coração e tenta praticar somente boas ações, se possível até o fim da vida. O problema é que com frequência ninguém está disposto a esquecer o crime de que foi vítima. E a vingança tarda, mas não falha.
                Não vou comentar o absurdo do “Adauto Chupetinha”. Trata-se de um episódio lamentável, que era para ter sido engraçado e acabou se tornando digno de pena.
                De resto, devo tirar o chapéu que nem mesmo uso: de farsa em farsa, a Rede Globo tem a população brasileira nas mãos. Para fazer com ela o que bem quiser.

    sábado, outubro 06, 2012

    A SABEDORIA DE DEPOIS



                Na última semana de setembro, depois de boa caminhada pelo calçadão da Litorânea, parei no bar e restaurante Coração do Mar para degustar duas Brahmas antes de retornar à Cidade Operária. Um hábito salutar que cultivo já faz um bom tempo, seguido por outro, nem um pouco saudável, mesmo se apreciado com a devida moderação.
                Era um sábado e ainda assim o bar contava com meia dúzia de três ou quatro clientes, incluindo a minha pessoa. Entrei, fui logo pedindo a um dos garçons a primeira cerveja do início da tarde e escolhi a mesa em frente ao balcão. Fui servido, abri o “Diário”, de Andy Warhol, que havia comprado mais ou menos uma hora antes na livraria Nobel (a sobrevivente) do Tropical Shopping, e estava para me concentrar na leitura do volumoso volume quando ouvi a seguinte pérola: “Tu não vai mais ferrar um centavo meu, sua filha disso e daquilo!”. Jesus, Maria, José, os palavrões abalariam as estruturas das famílias de São Luís.
                O assunto não era da minha conta, sem dúvida alguma. No entanto, a curiosidade me fez virar a cabeça para a criatura que havia acabado de proferir o imprompério: um sujeito negro, de estatura mediana, atarracado e barrigudo. Ele também olhou para mim, ao mesmo tempo em que guardava seu Nokia no bolso de sua bermuda. Nós dois estávamos sozinhos – ele com seus motivos, eu com os meus. Pelo que vi, o indivíduo já estava a caminho de sua terceira Skol. Apesar do sorriso, uma nuvem negra bem pesada pairava sobre seu rosto, que andava precisando de uma gilete.
                “Desculpa, seu moço”, ele me disse. “Não quis atrapalhar sua leitura. É que hoje finalmente decidi colocar um ponto final numa certa exploração”.
                Repito: não era absolutamente da minha conta se o sujeito era explorado por quem quer que fosse. Tanto que meus propósitos mais firmes depois dessa declaração para mim tão inútil quanto indecifrável eram esquecê-lo de uma vez por todas e finalmente dar início à leitura do diário. Mas às vezes os melhores planos acabam naufragando por completo.
                Meu novo amigo sem-nome voltou à carga, agora em um tom melancólico:
                “Ah, se arrependimento matasse...” Suspirou, tomou mais um pouco de Skol e prosseguiu: “Sabe, a gente comete muitos erros. Eu vacilei feio só uma vez... e agora essa droga que eu fiz vai me persegui a vida inteira. Sabe que besteira foi essa?”
                Talvez a bebida o tivesse deixado comunicativo. Ou só ressaltou uma tagarelice que poderia ser apenas um aspecto latente. O que sei mesmo é que já estava pensando em me transferir para outro bar. Ou voltar para casa de uma vez. Mas não quis ser indelicado com a figura. Até porque não me parecia ser um desses loucos perigosos.
                “Eu me casei”, ele disse. “Essa foi a grande besteira da minha vida. Não pelas crianças, é claro. Sou louco por elas. Mas é por ela. Por essa filha disso, filha daquilo...”
                “Senhor”, interrompeu o garçom que me atendera. “Vou ter que lhe pedir para moderar a linguagem. Ou então vai ter que se retirar”.
                “Tudo bem, tudo bem...” O sujeito suspirou mais uma vez e repetiu o ato de embriagar-se aos poucos. De ir se matando aos poucos. Como quem fuma. Como quem não consegue deixar de se apaixonar pela mulher do próximo com o próximo estando por perto. Somos suicidas inconscientes e inconsequentes.
                “Queria voltar no tempo, sabe. Como um super-herói das revistas. E voltaria não para impedir meu casamento. Voltaria mais atrás. Coisa de 20, 30 anos. E diria para o garoto ingênuo daquela época para ele ir pra direita, em vez de ir pra esquerda. Pra ser mais inteligente. Pra não se deixar enfeitiçar por qualquer bu...” Deteve a língua ébria e revoltada. Respirou fundo. “Por qualquer rostinho bonito”. Fechou os olhos. Tornou a abri-los no instante seguinte e me perguntou: “O que você, que parece gostar de ler muitos livros, acha dessa minha ideia?”
                Ora pois, muito bem. Eu, que tanto gosto de ler livros, acabei aprendendo com eles uma lição e outra. Uma delas é esta e ofereci “de grátis” ao meu querido estranho embriagado. Não lembro mais qual foi a reação dele, mas o que eu disse foi basicamente o seguinte: esse negócio de voltar no tempo para corrigir equívocos é uma tremenda bobagem. Caso eu resolvesse fazer isso no sentido de impedir alguma tragédia, estaria fazendo mais mal do que bem. Como se sabe, um abismo atrai outro. E depois, tiraria a chance de, pela experiência – boa ou má -, forjar o caráter pela capacidade de escolher justamente entre o certo e o errado.
                E terminei meu breve discurso com o que considero uma dessas verdadeiras verdades tão importantes porque indispensáveis para o nosso crescimento particular, pessoal e intransferível: essa sabedoria de depois, essa que adquirimos geralmente ao fazermos algo que os adultos consideram supostamente divertido, no fim das contas nos chega quando já não nos serve para nada.
                Só o tempo pode definir isso. Dir-se-ia “o tempo e o vento”, mas um escritor muito melhor teve essa ideia primeiro. E já faz muuito tempo.

    terça-feira, julho 24, 2012

    A ARTE DA BOA GRAÇA

    Fazer humor é um negócio complicado. E tem lá seus riscos. O chiste, o gracejo e a anedota estão delimitados pelo bom senso e pelas relações interpessoais. Um passo em falso e pronto: vira ofensa e, se ninguém impedir, pode motivar legítimas guerras civis.
    O exemplo de Rafinha Bastos é exemplar. Antes da molecagem de mau gosto que cometeu relacionada a uma determinada personalidade que na época estava grávida, o “humorista” (as aspas são por minha conta, em razão de avaliações totalmente particulares do que vejo na TV atual) foi execrado. Tanto que hoje os programas dos quais é a atração principal amargam índices de audiência inexpressivos. Ou mesmo ridículos.
    Por sua vez, a charge nos mostra como a arte da boa graça é uma questão de estado de espírito. No sentido de propiciar o ridendo castigat mores, ela e sua irmã, a caricatura, devem ser leves e não ter muita preocupação com a riqueza de detalhes. Fazer uma pessoa rir é fácil. Difícil mesmo é levá-la ao mesmo tempo a se divertir e promover reflexões acerca de determinado evento – nacional ou não – que chamou a atenção, seja pela gravidade ou pelo inusitado.
    Uma vez, encontrei na “Folha de S.Paulo” uma genial. Tratou da visita do príncipe William a este nosso país tropical. Na charge, um grupo de assaltantes o aborda e ordena: “Passa o relógio”. No quadrinho seguinte, os bandidos sobem uma favela carregando o Big Ben.
    Ou seja, a base desses exercícios humorísticos (crônicas visuais, por assim dizer) é a simplicidade. Se você, chargista, demonstra extrema preocupação com detalhes mínimos e perfeitamente dispensáveis, fazendo uso de balões de pensamento e caixas de diálogo, fracassou por completo nessa função, e é melhor nesse caso que mude de emprego. Charge que se preze não pode passar mais de dois minutos sem ser entendida.
    O Facebook está cheio de pérolas humorísticas. Essa rede social é um campo fértil para a ascensão de comediantes dos quais ninguém suspeita. Aquele seu amigo “enfarento”, que se parece muito com o frentista do comercial de posto de gasolina (“Você não ri de nada, cara! Tá com algum problema?”), de repente se mostra o Chaplin das redes sociais. Aí, ele publica preciosidades como esta: “Amigo de verdade não fica ofendido quando você o xinga. Ele te xinga de volta com algo pior”.
    Tinha outra muito legal. É mais ou menos assim: “Marly, qual o seu sobrenome? Já que você gosta do Fábio Flores, homenageia ele. Coloca ‘Marly Flores’. Eu prefiro Marly Laranja. Porque as flores todo mundo só cheira...”.
    Às vezes, o humor está oculto nas entrelinhas de um opúsculo que, em princípio, está voltado para a seriedade. Vejam só: aconteceu de um grupo de sem-noção assaltar a residência do vereador ludovicense Astro de Ogum. Os loucos fizeram a festa. Roubaram uma quantidade estúpida de dinheiro e diversos objetos de valor. Como a vítima pertencesse à classe política, a polícia respondeu rapidamente à ação e prendeu os integrantes da quadrilha de paspalhos. Até aí, tudo bem. O grande lance foi mesmo a matéria que tratou desse crime. Vocês têm três chances para adivinhar o nome da operação na qual os trouxas foram enquadrados. Desistem? Lá vai: “Operação Pedra Ametista”. Sacaram? “Pedra ametista”, “o astro”? Precisamos reconhecer que foi, acima de tudo, uma jogada de mestre.
    Para encerrar os trabalhos, mais uma do Facebook. Como se sabe, o Flamengo anda numa pior. Só não perde quando não joga. Mas sabe como são os antiflamenguistas, não é mesmo? Teve um que jogou um cartaz com a foto do deputado federal mais votado nas últimas eleições cujos dizeres eram os seguintes: “Para técnico do Flamengo, Tiririca – Pior do que tá não fica”.
    É isso aí: a gente é pobre, mas se diverte. E não empurra, que é pior.

    Luz, câmera, esculhambação

    Por João Ubaldo Ribeiro em 24/07/2012 na edição 704

    Reproduzido do Estado de S.Paulo, 22/7/2012; intertítulos do OI

    Meu avô de Itaparica, o inderrotável coronel Ubaldo Osório, não era muito dado a novas tecnologias e à modernidade em geral. Jamais tocou em nada elétrico, inclusive interruptores e pilhas. Quando queria acender a luz, chamava alguém e mantinha uma distância prudente do procedimento. Tampouco conheceu televisão, recusava-se. A gente explicava a ele o que era, com pormenores tão fartos quanto o que julgávamos necessário para convencê-lo, mas não adiantava. Ele ouvia tudo por trás de um sorriso indecifrável, assentia com a cabeça e periodicamente repetia “creio, creio”, mas, assim que alguém ligava o aparelho, desviava o rosto e se retirava. “Mais tarde eu vejo”, despedia-se com um aceno de costas.

    O único remédio que admitia em sua presença era leite de magnésia Phillips, assim mesmo somente para olhar, enquanto passava um raro mal-estar. Acho que ele concluiu que, depois de bastante olhado, o leite de magnésia fazia efeito sem que fosse necessário ingeri-lo. Considerava injeção um castigo severo e, depois que as vitaminas começaram a ser muito divulgadas, diz o povo que, quando queria justiçar alguma malfeitoria, apontava o culpado a um preposto e determinava: “Dê uma injeção de vitamina B nesse infeliz.” Dizem também que não se apiedava diante das súplicas dos sentenciados à injeção de vitamina, enquanto eram arrastados para o patíbulo, na saleta junto à cozinha, onde o temido carcereiro Joaquim Ovo Grande já estava fervendo a seringa. (Naquele tempo, as seringas eram de vidro e esterilizadas em água fervente, vinha tudo num estojinho, sério mesmo.)

    “Amoleça a bunda, senão vai ser pior!”, dizia Ovo Grande, de sorriso viperino, olhos faiscantes e agulha em riste, numa cena a que nunca assisti, mas que não devia ser para espíritos fracos.

    Um furtivo pecadilho

    Sim, mas acabo fazendo a biografia de meu avô e não chego ao assunto que, pelo menos quando me sentei faz pouco para escrever, tinha a ver com fotografia. O coronel não evitava codaques, nome por que chamava indistintamente qualquer máquina fotográfica, mas só admitia ser fotografado se houvesse a preparação que ele considerava essencial. Nada do que então se chamava “instantâneo”. Ele fazia a barba, tomava banho, vestia paletó e gravata, botava perfume e posava imóvel como uma rocha, diante da codaque. Daí a um mês, mais ou menos, as fotos voltavam, reveladas e copiadas, de um laboratório da cidade – e sua chegada era uma espécie de festa, que reunia parentes, amigos e correligionários.

    Se o coronel estivesse vivo hoje, acho que acabaria tomando o leite de magnésia. Aproxima-se o dia em que seremos filmados, fotografados e monitorados em absolutamente todas as circunstâncias, inclusive no banheiro. Claro, reconheço que deliro um pouco, mas somente um pouco, quando imagino que, num futuro em que a água será escassa, cada morador terá cotas para todo tipo de uso da água e sofrerá penalidades diversas, se ultrapassá-las. Facilmente, a monitorização saberia quantas vezes e com que finalidade o freguês usou o vaso, estatística talvez considerada indispensável para a formulação de políticas sanitárias e de saneamento básico. Não saberemos como teremos vivido sem isso, até então.

    Entrando em elevadores, dei para perceber gente olhando para as câmeras e se ajeitando como se fosse entrar no ar dentro de alguns instantes. Algumas moças chegam mesmo a passar a mão na nuca e ajeitar faceiramente os cabelos com um movimento de cabeça, como nos comerciais de xampus. Foi-se a manobra, tão praticada em gerações pretéritas, em que, tendo-se a sorte de encontrar no elevador a dadivosa e adrede acumpliciada vizinha do 703, apertava-se o botão de emergência, parava-se a cabine entre dois andares e davam-se os dois a um furtivo e inesquecível pecadilho da carne. O clipe já estaria no YouTube assim que ambos chegassem em casa, com dezenas de “visualizações”, inclusive do marido e da família da vizinha.

    “Desta vez eu saio no Fantástico”

    Antigamente, a gente só tinha que dizer “que gracinha”, “que beleza” ou “muito interessante” umas duas ou três vezes por amigo de boteco, no máximo. Era quando ele mostrava a foto da última neta, o retrato de toda a família junta ou um documento velho. Hoje a gente assiste a várias dezenas de clipes de celulares e sucessões de slides por dia, enquanto todo mundo fotografa e filma todo mundo, o tempo todo.

    E outro dia, num noticiário de TV, apareceu a notícia de um sequestro-relâmpago em que um dos sequestradores filmou tudo com seu celular. Fico querendo adivinhar qual a razão para isso e me ocorre que, em muitos criminosos, suas ações talvez despertem um certo orgulho autoral e eles agora têm muitos recursos para documentar seus feitos para a História. De qualquer maneira, presenciamos o primeiro making of de um ato criminoso e espero somente que algum filósofo francês não saiba disso e publique um livro designando essa atividade como uma nova forma de arte, para que depois um porreta de uma agência governamental qualquer ache isso científico e premie com absoluta impunidade qualquer assalto, ou semelhantes, para o qual o seu autor haja preparado um making of de qualidade, gerando empregos e estimulando a arte. É bom viver onde o seguinte diálogo pode ocorrer:

    “Então, como se foi de assalto hoje?”

    “Ah, legal. Só faltou me levar as calças, mas em compensação a crítica considera esse cara o melhor diretor de filmagem de assalto do Brasil, tablete de 12 megapixels, tudo muito profissional. Desta vez eu saio no Fantástico com certeza.”

    ***

    [João Ubaldo Ribeiro é jornalista e escritor]