quinta-feira, novembro 19, 2009

Saiba quais dos melhores livros da década possuem edição em português

da Livraria da Folha

O diário britâncio "The Times" escolheu os cem melhores livros da década. Alguns ainda não possuem edição em português, mas a Livraria da Folha selecionou os que podem ser comercializados no país. Veja a seguir:

"A Estrada" é o melhor livro da década; veja os dez primeiros

11. "Guerra e Paz", de Liev Tolstói
Publicado originalmente em 1869, este grande clássico da literatura escrito por Liev Tolstói narra invasão (e a retirada) francesa comandada pelo imperador Napoleão à Rússia no início do século 19.

12. "Uma Comovente Obra de Espantoso Talento", de Dave Eggers
Narra os acontecimentos trágicos que tomam conta da vida de Eggers quando ele tem apenas 22 anos. Os pais morrem, ele é obrigado a amadurecer e sai em busca de uma vida nova viajando pelos EUA.

13. "Austerlitz", de Winfried Georg Sebald
O professor de história da arquitetura Jacques Austerlitz explora a estação ferroviária de Liverpool Street, em Londres, coletando material para pesquisas, quando é tomado por uma visão que talvez o ajude a explicar não a arquitetura da era capitalista, mas o sentimento incômodo de ter vivido uma vida alheia.

14. "Lendo Lolita em Teerã", de Azar Nafisi
Esta brilhante história é um retrato fascinante do Irã na época mais acirrada do sangrento conflito com o vizinho Iraque. A partir do sutil olhar feminino, aprendemos como era a vida e a luta das mulheres no Irã revolucionário nesta obra de grande paixão e beleza poética, escrita de maneira surpreendentemente original.

15. "Deus, um Delírio", de Richard Dawkins
Eleito um dos três intelectuais mais importantes do mundo, Richard Dawkins contesta a irracionalidade da fé e mostra como a religião alimenta a guerra, fomenta o fanatismo e doutrina as crianças.

17. "Harry Potter e as Relíquias da Morte", de J. K. Rowling
Na sétima parte da série, Harry Potter é incumbido pelo professor de transfiguração de uma tarefa funesta e aparentemente impossível: localizar e destruir os Horcruxes de Voldemort ainda existentes.

19. "As Correções", de Jonathan Franzen
Jonathan Franzen, uma das revelações da literatura americana, conta uma saga contemporânea tragicômica que vai de Nova York à Lituânia, e expõe dramas pessoais, crises conjugais e os conflitos que separam duas gerações de uma típica família dos EUA nos anos 1990. Sucesso de público e crítica, o romance recebeu o National Book Award 2001.

20. "Dentes Brancos", de Zadie Smith
Livro de estreia de Zadie Smith narra a história de dois amigos que se conheceram durante a Segunda Guerra Mundial. O final da guerra os separa, mas eles vão se encontrar em Londres 30 anos depois.

21. "Complô Contra a América", de Philip Roth
Philip é de uma família judia que vive nos Estados Unidos. Seu pesadelo começa durante o suposto tempo em que Charles Lindbergh foi presidente americano, um defensor ardoroso da Alemanha nazista.

22. "A Luneta Âmbar", de Philip Pullman
A obra fecha a trilogia do autor. Lyra desaparece e, em seu encalço, estão: Will, que quer ajudar a amiga; a Igreja, que a considera a nova Eva e, por isso, tenta eliminá-la antes que a menina repita o pecado original; e Lorde Asriel, comandante de um exército de anjos, humanos e pequenos seres alados que, ciente do poder revolucionário de Lyra, a quer ao seu lado.

24. "Não me Abandone Jamais", de Kazuo Ishiguro
Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades. No entanto esse internato idílico esconde uma terrível verdade: todos os "alunos" de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.

25. "O Estranho Caso do Cachorro Morto", de Mark Haddon
Este livro é original e envolvente. Na história de mistério e descobertas, Haddon convida o leitor a embarcar ao lado de Christopher em uma emocionante viagem que vai virar o mundo do jovem de cabeça pra baixo.

28. "O Resto É Ruído", de Alex Ross
Crítico musical explica o fenômeno da música clássica contemporânea, através do contexto histórico, social e biográfico. Além de compositores, cita eventos que influenciaram a música no século 20.

29. "Por Acaso", de Ali Smith
Tudo parece transcorrer na mais absoluta normalidade nas férias da família Smart. Mas a tranquilidade familiar logo é abalada pela súbita presença de uma estranha: surgida do nada, Amber se imiscui na intimidade da família e começa a ganhar a confiança e a afeição de todos. Encantados, os Smart passam a lhe revelar o que não dizem nem mesmo entre (e para) si. Em pouco tempo, estarão enredados na intricada psicologia de seus mundos e conflitos interiores.

30. "O Caçador de Pipas", de Khaled Hosseini
Best-seller mundial, este romance de Khaled Hosseini conta a história da amizade de Amir e Hassan, dois meninos quase da mesma idade, que vivem vidas muito diferentes no Afeganistão da década de 1970.

32. "Tudo se Ilumina", de Jonathan Safran Foer
Um jovem escritor judeu vai para a Ucrânia em busca de uma misteriosa mulher que ajudou seu avô a escapar dos nazistas. A viagem real de Jonathan Safran Foer o inspirou a criar esta obra, misturando realidade e ficção numa trama em que conta a história de sua família desde o século 18, de forma divertida e também melancólica.

33. "Crônicas (Vol. 1)", de Bob Dylan
Inicia trilogia autobiográfica do ícone da música. Em suas recordações, Dylan retrata não somente a carreira, mas também a vida levada em festas noturnas, os amores passageiros e amizades inabaláveis.

34. "Seabiscuit", de Laura Hillenbrand
Após a Grande Depressão, um pequeno cavalo de corrida de pernas tortas virou uma celebridade nos EUA. Em 1938, o campeão Seabiscuit teve mais cobertura na mídia que Roosevelt, Hitler e Mussolini.

38. "O Demônio do Meio-Dia", de Andrew Solomon
Ir ao fundo do poço é uma expressão leve para descrever a experiência de vida do autor Andrew Solomon. Ele desceu mesmo foi às profundezas do inferno para vencer uma das síndromes que mais aflige a humanidade nos dias de hoje: a depressão. Fruto de sua dolorosa, dramática e vitoriosa trajetória durante doença, este livro é intensamente envolvente, sagaz, construtivo e humano.

39. "Fugitiva", de Alice Munro
Os oito contos reunidos em "Fugitiva" apresentam mulheres às voltas com seu passado. Alice Munro consegue captar, seja nos momentos decisivos de uma vida, seja nos episódios cotidianos, as tragédias mais profundas que movem suas personagens. A partir de escolhas erradas, descobertas súbitas e armadilhas da sorte, essas mulheres encaram suas mentiras: as que lhes foram contadas, as que elas contaram aos outros e aquelas com que buscaram enganar a si mesmas.

42. "Fun Home", de Alison Bechdel
Este é um livro de memórias onde a quadrinista Alison Bechdel revisita a sua infância e adolescência, especialmente a descoberta de sua homossexualidade e a difícil relação com seu pai Bruce Bechdel.

44. "Freakonomics", de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner
O economista Steven Levitt e o jornalista Stephen J. Dubner estudam a rotina e os enigmas da vida --da trapaça à criminalidade, dos esportes à família-- com conclusões que desmentem o senso comum.

46. "Middlesex", de Jeffrey Eugenides
Middlesex, segundo romance de Jeffrey Eugenides, é sobre Calliope Stephanides, um hermafrodita que foi criado como menina mas que é, na verdade, homem.

48. "Breve História de Quase Tudo", de Bill Bryson
Uma obra que ensina de uma forma divertida todas as matérias científicas que você achava pedantes no colégio. O livro fuge dos jargões técnicos e mostra como a ciência pode ser empolgante.

49. "O Fantasma", de Robert Harris
Ele sempre sorria para as câmeras à porta de Downing Street. Ao lado do presidente norte-americano, engajou-se ativamente na guerra contra o terror. Seu mandato foi fortemente abalado pela explosão de bombas no metrô de Londres. Ao longo de quase uma década, Adam Lang foi primeiro-ministro britânico. Após o triste e solitário ocaso político, recebe, pelas suas memórias, um dos maiores adiantamentos da história do mercado editorial. Isolado com a esposa e um ghost-writer em uma casa de veraneio, ele começa a dar forma à sua biografia.

50. "Sem Logo: A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido", de Naomi Klein
Em 1992, a Nike pagou 20 milhões de dólares a Michael Jordan para estampar o rosto do rei do basquete nas propagandas de seu mais novo tênis. A quantia fica ainda mais impressionante quando se descobre que é muito superior do que a que a empresa pagou a todo o conjunto de 30 mil trabalhadores indonésios que efetivamente fabricaram os calçados.

53. "Irmão Lobo", de Michelle Paver
O primeiro livro da série Crônicas das Trevas Antigas leva o leitor para uma viagem de volta à Idade da Pedra, seis mil anos atrás, onde o jovem Torak conta apenas com a ajuda de um filhote órfão de lobo e com sua habilidade como caçador para sobreviver aos perigos da floresta e derrotar um poderoso inimigo. O livro fala sobre lealdade, amizade e coragem.

55. "A Vida Imperial na Cidade Esmeralda", de Rajiv Chandrasekaran
No meio da zona de guerra de Bagdá ergue-se um enclave fortemente murado e protegido, a Zona Verde, onde se localiza o contingente da administração de ocupação norte-americana no Iraque. É um mundo à parte, com vivendas luxuosas, piscinas, bares, centros comerciais, jipes novos, e todas as comodidades que encontraríamos nos Estados Unidos. Com base em entrevistas que fez com pessoas que ali vivem e recorrendo a documentos confidenciais, o autor elabora uma crítica ácida aos representantes do governo dos EUA no Iraque e à distorção da realidade que os rodeia.

56. "Se Ninguém Falar de Coisas Interessantes", de Jon McGregor
Escrito de maneira diferente, esse livro narra a vida dos moradores de uma rua londrina de forma bastante original: é uma história que se passa em uma rua qualquer, em um dia qualquer, em que coisas comuns parecem acontecer.

60. "Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso", de Jared Diamond
Diamond explica como o colapso global pode ser evitado, analisando civilizações do último milênio, e investiga porque umas se extinguiram enquanto outras prosperaram.

61. "A Linha da Beleza", de Alan Hollinghurst
Um retrato da juventude yuppie dos anos 80 num dos templos de sua consagração, a Inglaterra de Margaret Thatcher, a Dama de Ferro do neoliberalismo. Esse é o pano de fundo do romance que consagrou o romancista britânico Alan Hollinghurst com o Booker Prize de 2004, englobando todos os países da Comunidade Britânica e a Irlanda. A trama se desenvolve em 1983 ao redor de Nick Guest, um jovem de 20 anos, recém-saído da Universidade de Oxford e fazendo doutorado em letras.

62. "Na Ponta dos Dedos", de Sarah Waters
Escritora inglesa mistura neste romance vitoriano ladrões e golpistas, mansões e manicômios, intriga e desilusão, erotismo e farsa, além de toques contemporâneos, muito suspense e diálogos afiados.

63. "Tábula Rasa", de Steven Pinker
A partir de conhecimentos da ciência da linguagem, da psicologia e da genética, o renomado cientista Steven Pinker questiona o dogma de que o ser humano é tábula rasa ao nascer, e defende a conjugação das influências sociais e da biologia para a compreensão da personalidade e do comportamento.

65. "Nas Peles da Cebola", de Gunter Grass
Em agosto de 2006, o vencedor do Prêmio Nobel de 1999, Günter Grass, revelou em seu livro de memórias que fez parte da tropa de elite nazista, durante a II Guerra Mundial. A declaração provocou reações em todo mundo.

69. "Meu Nome É Vermelho", de Orhan Pamuk
Construído por 19 vozes narrativas, o romance combina trama policial a um panorama histórico e cultural da Turquia, país dividido entre Oriente e Ocidente. Pamuk tem livros traduzidos em mais de vinte línguas.

72. "A História do Bando de Kelly", de Peter Carey
Carey incorpora a identidade de um homem visto tanto como herói nacional quanto criminoso comum --toda criança australiana cresce ouvindo as aventuras de Kelly e seus camaradas. Num país famoso por ter começado sua história como uma colônia penal inglesa, Kelly substitui facilmente histórias de princesas e sapos. Carey acompanha a vida de Kelly desde seu nascimento até a sua morte, com apenas 26 anos.

79. "Jimmy Corgan, o Garoto Mais Esperto do Mundo", de Chris Ware.
Saga familiar de quatro gerações, um retrato amargo da timidez e as relações claustrofóbicas entre parentes são o centro deste livro, uma das mais importantes graphic novels já publicadas do gênero.

80. "O Tigre Branco", de Aravind Adiga
Livro do romancista Aravind Adiga, abre uma larga porta na Índia e revela ao leitor um país dividido por castas, miséria, corrupção e onde o milagre econômico alcançou apenas uma pequena minoria.

81. "Os Filhos do Imperador", de Claire Messud
Marina, Danielle e Julius se conhecem na universidade e se tornam amigos. Todos têm algo em comum; estão certos de que em muito pouco tempo estarão fazendo algo extremamente importante para o mundo. Porém, quando chegam perto dos 30, as coisas não estão do jeito que devem estar.

84. "Bondade", de Carol Shields
Casada há 26 anos com um médico bem-sucedido e mãe de três filhas crescidas, Reta Winters possui motivos que ultrapassam o seio familiar para ser considerada uma pessoa feliz. Tudo parece perfeito até que, na primavera de seus 44 anos, em Ontário, onde reside, sua filha mais velha, Norah, toma a decisão repentina de sair de casa para pedir esmolas numa esquina de Toronto, com uma placa pendurada no pescoço com a palavra "bondade" escrita à mão.

88. "Pureza Fatal", de Ruth Scurr
Robespierre ganha uma impressionante e esclarecedora biografia, que ajuda a compreender uma das mais importantes mudanças para a França e para o mundo, a Revolução Francesa, ocorrida em 1789.

89. "A Feiticeira de Florença", de Salman Rushdie
Mesclando habilmente realidade e ficção, "A Feiticeira de Florença" aproxima a cidade de Machiavelli de um império oriental que atinge, também no século 16, apogeu nas artes e no pensamento filosófico.

90. "Crepúsculo", de Stephenie Meyer
No primeiro livro da série de Stephenie Meyer conta a história de Bella, uma garota que se muda para uma cidadezinha e acaba se apaixonando por Edward Cullen, um garoto lindo, misterioso...e vampiro!

93. "A Ascensão do Dinheiro", de Niall Ferguson
Neste ensaio, o autor Niall Ferguson examina a história financeira do mundo e defende o desenvolvimento da moeda e do sistema bancário como um dos sintomas do processo civilizatório da humanidade.

96. "O Vulto das Torres", de Lawrence Wright
Quando achávamos que o fim da Guerra Fria marcava o fim da história e a humanidade enfim viveria em paz, o atentado terrorista de 11/9 mergulhava o mundo em perplexidade. De repente, tomamos conhecimento de entidades e personagens até então desconhecidos --a Al-Qaeda, Osama bin Laden, os campos de treinamento de terroristas no Afeganistão. Mas o que é a Al-Qaeda? Como surgiu? Aonde pretende chegar? Qual é sua ideologia? Qual o papel dos serviços de inteligência americanos no caso? São estas perguntas que Lawrence Wright, através de um trabalho de jornalismo investigativo, procura esclarecer neste livro.

97. "A Fantástica Vida Breve de Oscar Woo", de Junot Diaz
Vencedor do Pulitzer 2008, Junot Díaz narra em seu romance de estréia a vida nada fácil de Oscar, um nerd dócil e obeso, de origem dominicana, que vive com a mãe e a irmã em um gueto em Nova Jersey.

98. "Meio Sol Amarelo", de Chimamanda Ngozi Adichie
Jovem escritora nigeriana revela o horror da guerra de Biafra, em um romance de proporções épicas, que nunca perde de vista a matéria humana da qual deriva. Livro vencedor do National Book Critics Circle Award e do Orange Prize de ficção 2007.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Trecho de "Caim", de José Saramago

Não é usual, posto que este Blog vai virar um diário mesmo a partir do ano que vem.
Mas acredito que cabe aqui uma verdade proverbial, anotada pelo ateu José Saramago em seu ótimo romance:

"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele".

Concordemos ou não, aí está.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Clarice Lispector, o sol escuro do Brasil

THE NEW YORK TIMES
Tomás Eloy Martinez

Há pouco mais de meio século, a força de transformação da literatura da América Latina assombrava os países centrais, que haviam alcançado a modernidade graças ao desenvolvimento de suas indústrias, suas descobertas tecnológicas, suas redes de comunicação, seus trens e aviões. Mas sua linguagem e sua capacidade de narrar a sociedade estavam apergaminhadas, cansadas, e supriam a falta de ideias e sangue novos com jogos teóricos que não levavam a lugar nenhum. Na América Latina, o afã de criar esse mundo novo expresso pela revolução cubana parece ter se concentrado na literatura.

Enquanto os países do Rio da Prata, México e Colômbia respiravam a plenos pulmões os novos ares, o gigante Brasil mantinha-se impermeável a tudo o que não vinha de si mesmo. O Brasil mudava de pele, mas se alimentava de sua própria música e de sua própria herança literária. Certa vez perguntaram a João Gilberto por que ele fazia tão poucos shows no estrangeiro, onde sua música tinha um sucesso clamoroso.

"Para quê?", respondeu. "No Brasil meu público é tão numeroso como no resto do mundo e, além disso, ele me escuta com mais felicidade".

Em meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo o de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que escreveu uma sucessão de obras mestras mediante o simples recurso de observar atentamente a paisagem interior dos pensamentos e dos sentimentos para contá-los de uma maneira incomum, inesperada. Um de seus maiores herdeiros é João Guimarães Rosa, que impressiona mais do que tudo por seu virtuosismo verbal e pelo ouvido finíssimo com que capta a música das vozes do sertão, no nordeste profundo de seu gigantesco país.

Entretanto, a única filha direta e legítima de Machado de Assis é Clarice Lispector, cuja obra misteriosa começa a difundir-se nos Estados Unidos com tanto ímpeto quanto a de Roberto Bolaño. O chileno foi consagrado pela revista The New Yorker, e o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Lispector com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo.

Moore adverte que a fama magnética de Lispector se deve em parte aos estudos sobre sua obra reunidos por Hélène Cixous, a quem as universidades francesas devem o apogeu dos estudos sobre a mulher. Na França, recorda Cixous, a extraordinária abstração da prosa de Lispector fez com que a vissem como uma filósofa. Quando ela assistiu a um encontro de teóricos sobre sua obra, abandonou a sala na metade da homenagem, dizendo que não entendia uma só palavra do jargão.

Uma das primeiras vezes que se ouviu falar de Lispector em Buenos Aires foi no final dos anos 70, quando circulou a lenda de que ela havia se queimado viva em sua casa no Rio de Janeiro.

Em 1969 o mítico editor argentino Paco Porrúa havia publicado na editora Sudamericana alguns de seus livros: os romances "A Maçã no Escuro", "A Paixão Segundo G.H." e "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", assim como os admiráveis contos de "Laços de Família". Lispector rompia com todas as convenções da arte de narrar e arrancava de cada palavra um tremor secreto, enigmático. Suas revelações eram como as de um teólogo oriental participando de uma dança ritual africana.

Quando a lemos, deslumbrados, na revista "Primera Plana", pensamos que era imperativo viajar para o Rio de Janeiro para decifrar seus segredos. Sara Porrúa, que na época era mulher de Paco, quis ser a primeira nessa busca.

As primeiras notícias que enviou dissipavam a fábula de que Lispector fora queimada viva. Sua cama havia se incendiado acidentalmente quando dormiu com um cigarro aceso. Mas a haviam resgatado a tempo. Sua estranha beleza tártara (os olhos amendoados e rasgados, as maçãs do rosto salientes, a constante expressão de angústia de seu rosto) havia desaparecido quando queimou o lado direito do corpo, imobilizando-lhe o braço. Nada, entretanto, apagava sua paixão por narrar o mundo.

Sara a encontrou mais algumas vezes e, com sua imagem intensa, inesquecível, perdeu-se nas selvas da Guatemala e transformou-se em personagem de Cortázar.

Dar uma ideia de sua imaginação só é possível através de algumas citações. O começo do romance "Uma Aprendizagem..." (1969) é uma frase que vem do nada. A porta de entrada desse livro é uma vírgula: ", estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos...".

Antes desse comentário doméstico e trivial, Lispector surpreendeu o leitor com uma advertência que é também uma afirmação de seu ser:

"Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte que eu. C.L."

E no final de "Água Viva", ergue a voz: "Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto".

Seu desmedido desafio à morte impregna muitas das crônicas reunidas em "Revelación del Mundo", que incluem todas as que escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Outras, inéditas, serão publicadas no ano que vem em espanhol sob o título de "Descubrimientos".

Lispector continua sendo um enigma velado que assombra em cada frase, em cada desvio da vida. Morreu aos 57 anos de um câncer nos ovários, depois de ter passado os últimos anos fechada na solidão de sua casa do Leme, perto das areias de Copacabana.

Seu autorretrato cabe em uma frase: "Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa".

Tradução: Eloise De Vylder

Tomás Eloy Martínez
Analista político e escritor, o argentino Tomás Eloy Martínez é autor de livros como "Vôo da Rainha" e "O Cantor de Tango".

sábado, novembro 14, 2009

O livro que Nabokov não queria que você lesse

RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Vera, mulher de Vladimir Nabokov (1899-1977), foi quem salvou "Lolita" quando o autor começou a pôr fogo nos manuscritos no quintal de casa, em 1950. Ele só via defeitos ali. Publicado cinco anos depois, o romance o consagraria. Agora, leitores de vários países terão acesso a "O Original de Laura", outra obra cujo destino seriam as chamas não fosse a interferência de Vera.

Com uma diferença. Nabokov não só não teve tempo de mudar de ideia quanto à qualidade desses últimos rascunhos como não pôde concluí-los, já que morreu antes. Seu derradeiro pedido à mulher foi que ateasse fogo aos papéis caso o romance não fosse finalizado. Sem coragem para queimá-los, Vera os guardou até morrer, em 1991. Dmitri, filho do casal, manteve desde então a dúvida sobre a publicação.

Em 2008, fechou com as editoras Knopf/Random House (EUA) e Penguin (Inglaterra). Dmitri alega que se trata de um romance "brilhante". A primeira crítica, feita em julho pela "Publishers Weekly" a partir de um trecho, foi negativa (leia ao lado) e alimentou os comentários sobre o interesse financeiro na decisão -sabe-se que, aos 75, debilitado, o filho de Nabokov precisa pagar internações e exames caros na Suíça.

O livro terá lançamento depois de amanhã, num evento em Nova York que contará com a presença do escritor inglês Martin Amis e do irlandês Brian Boyd, mais renomado biógrafo de Nabokov. No Brasil, sai no próximo final de semana, editado pela Alfaguara.

Em entrevista à Folha por telefone, da Nova Zelândia, onde vive, Boyd demonstra sentimentos ambíguos em relação ao lançamento. Ele foi consultado por Dmitri ao longo de todo o processo e chegou a ajudá-lo com ideias para a edição, mas ainda lembra a impressão que teve quando, em 1987, tornou-se a primeira pessoa fora da família a ver os rascunhos.

"Não fiquei bem impressionado. Quando Vera e Dmitri me perguntaram o que deveria ser feito dos manuscritos, falei para eles os destruírem. Tive medo... Não tinha gostado dos últimos romances dele e tive medo de que 'Laura' fosse o sinal evidente do declínio", diz. Boyd ressalva que, naquele momento, só conseguiu ler os rascunhos na frente de Vera, "o que pode ter influenciado no mal-estar em relação ao texto".

Biógrafo muda de ideia
O biógrafo -que hoje edita uma coletânea de cartas de Nabokov- diz pensar diferente agora. "Quando reli o material, em 2001, meu conceito melhorou muito. Não é uma história incrível, como "Ada ou Ardor", mas tem malícia, capacidade de envolver, um jeito de fazer as coisas acontecerem mais rápido do que o leitor pode lidar. Num ponto baixo de sua carreira, Nabokov descobre novas formas de narrar."

O "Original de Laura" tem semelhanças com "Lolita" -envolve a relação entre um homem maduro e uma garota. Flora, cuja vida sexual conturbada levou um ex-amante a escrever escandaloso livro ("Laura"), casa-se com um homem bem mais velho, Philip Wild. Ao longo do livro, Nabokov remete à morte de Wild. Os textos foram escritos em 138 cartões, com situações centrais a partir das quais Nabokov desenvolveria a história. O autor já estava com vários problemas de saúde nos meses em que os rascunhou.

Boyd diz que a edição tem a vantagem de deixar claro que não se trata de um trabalho final. A versão em inglês traz reproduções dos cartões que podem ser retiradas e devolvidas ao livro. No Brasil, o livro sairá com os fac-símiles, em inglês, e a tradução ao lado.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Após susto, Vasco vira, derrota o América-RN e confirma o título da Série B

Raphael Raposo
No Rio de Janeiro

A festa estava toda pronta no Maracanã, mas o América-RN veio para estragá-la. E até conseguiu ao fazer 1 a 0, ainda no primeiro tempo. Porém, mesmo perdendo pênalti (com Elton), o Vasco virou, fez 2 a 1, e, de forma antecipada, conquistou o título da Série B do Campeonato Brasileiro, na noite desta sexta-feira, pela 36ª rodada da competição. A última conquista do Cruzmaltino tinha sido o Estadual de 2003.

Elton e Alex Teixeira fizeram os gols do Vasco, enquanto Lúcio marcou para o América-RN. Com o triunfo, o time cruzmaltino chegou aos 76 pontos e não pode ser mais alcançado por ninguém. Já a equipe potiguar parou nos 42 e segue sua luta contra o rebaixamento à Série C do Campeonato Brasileiro.

"Parabéns para esta torcida maravilhosa. O nosso grupo também foi brilhante, mesmo com todas as dificuldades ao longo do ano. Só nós sabemos o que passamos para conquistar o título da Série B e o acesso à Série A", disse o técnico Dorival Júnior.

Na próxima rodada, o Vasco, mais uma vez no Maracanã, encara a Portuguesa. Já o América-RN recebe o Ipatinga, no Machadão, em Natal. As duas partidas serão realizadas no sábado, dia 21, às 17h (horário de Brasília).

Na partida contra o América-RN, o Vasco, finalmente, jogou com a camisa comemorativa pelo retorno à elite do futebol nacional. Ela deveria ter sido usada diante do Campinense, na última terça-feira, mas, para não confundir com o uniforme da equipe paraibana, o árbitro do duelo acabou vetando.

Jogando em casa e precisando de uma simples vitória para deixar o Maracanã com o título da Série B, o Vasco começou em cima do América-RN. Porém, com uma marcação forte, o time potiguar minou a equipe cruzmaltina e equilibrou as ações.

Não demorou muito para o América-RN, aos 13 minutos, abrir o placar por intermédio de Lúcio. A desvantagem deixou o Vasco nervoso. A situação piorou com a resposta vinda da arquibancada. Irritada, a torcida passou a vaiar o time, que não se encontrou mais. O primeiro tempo terminou mesmo 1 a 0 para os visitantes.

O Vasco voltou para o segundo tempo com Fumagalli no lugar de Ernani. E, na saída de bola, o meia sofreu pênalti de Leandro, que acabou expulso. Elton, aos três minutos, bateu, mas Rodolpho pegou, evitando o empate cruzmaltino.

Mesmo com o pênalti perdido, o Vasco não "baixou a guarda". O time, aproveitando a vantagem numérica, encurralou o América-RN. O jogo passou a ser de ataque contra defesa. O empate era questão de tempo e ele veio, de pênalti, aos 15 minutos, através de Elton.

A igualdade no placar fez o Vasco acreditar que a virada aconteceria a qualquer momento. Porém, somente aos 40 minutos, com Alex Teixeira, que o Cruzmaltino virou a partida, deu números finais ao confronto e carimbou o título antecipado da Série B do Campeonato Brasileiro.

VASCO 2 x 1 AMÉRICA-RN

Vasco
Fernando Prass; Fagner (Aloísio), Vilson (Philippe Coutinho), Titi e Ramon; Nilton, Souza, Ernani (Famagalli) e Carlos Alberto; Alex Teixeira e Elton.
Técnico: Dorival Júnior

América-RN
Rodolpho; Thoni, Leandro, Edson Rocha e Jackson; Julio Terceiro (Ramirez), Ricardo Oliveira, Somália e Juninho (Wilton Goiano); Lúcio e André Luís (Geovane).
Técnico: Ricardo Dia
Data: 13/11/2009 (sexta-feira) Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Árbitro: José Henrique de Carvalho (SP) Auxiliares: Marcelo Carvalho Van Gasse (SP) e Nilson de Souza Monção (SP)
Público: 50.237 (pagantes) e 52.985 (presentes) Renda: R$ 746.330,00
Cartões amarelos: Alex Teixeira (Vasco). Leandro, Ricardo Oliveira, Júlio Terceiro e Edson Rocha (América-RN).Cartão vermelho: Leandro, aos 27 segundos do segundo tempo (América-RN).
Gols: Lúcio, aos 13 minutos do primeiro tempo. Elton (pênalti), aos 15 minutos; e Alex Teixeira, aos 40 minutos do segundo tempo.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Definidos os grupos do Campeonato Carioca

Vinicius Castro
RIO DE JANEIRO

A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) definiu, nesta quinta-feira, os detalhes do Campeonato Carioca de 2010. A competição terá início em 16 e 17 de janeiro com a mesma fórmula dos últimos anos, sendo dividida em Taça Guanabara e Taça Rio. Os dois melhores do Grupo A e os dois melhores do Grupo B classificam-se para às semifinais.

O sábado de Carnaval e a Quarta-Feira de Cinzas terão jogos das semifinais da Taça Guanabara. Os clássicos também foram definidos. Na terceira rodada do primeiro turno, Botafogo e Vasco se enfrentam, no dia 24 de janeiro. No fim de semana seguinte, Flamengo e Fluminense duelam no Maracanã.

Na Taça Rio, Fluminense e Botafogo se encaram no dia 7 de março, Vasco e Flamengo se enfrentam no dia 14 de março, Botafogo e Flamengo duelam no dia 21 de março, e Vasco e Fluminense jogam no dia 28 de março.

O presidente da Ferj, Rubens Lopes, comentou o sorteio da tabela da competição:

- Tivemos um arbitral muito tranquilo e o critério foi muito bem definido. Ninguém pode reclamar.Trabalhamos com a utilização do Maracanã, mas se houver alguma mudança, o Engenhão vai sediar os clássicos - afirmou.

A novidade fica por conta de uma equipe de engenharia civil colocada à disposição dos clubes pela Ferj. Além dos laudos da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária, os estádios precisam estar aptos a receber as partidas através de um laudo da engenharia civil. A Ferj também está reformando todos os gramados com o auxílio de engenheiros agrônomos.

Por fim, Rubens Lopes celebrou o Campeonato Carioca:

- Sem dúvida é o melhor campeonato estadual do país - encerrou.

Confira abaixo os grupos e as estreias do quatro grandes (com datas ainda a serem definidas):

GRUPO A
Flamengo
Fluminense
Americano
Bangu
Boavista
Volta Redonda
Duque de Caxias
Segundo colocado da Série B

GRUPO B
Vasco
Botafogo
Macaé
Madureira
Friburguense
Resende
Tigres
Campeão da Série B

Jogos de estreia dos grandes (sem as datas definidas):

Flamengo x Duque de Caxias
Americano x Fluminense
Vasco x Tigres
Macaé x Botafogo

quarta-feira, novembro 11, 2009

Universidades desprezam escritores populares, diz crítica literária premiada

SÉRGIO RIPARDO
Colaboração para a Livraria da Folha

Os estudos acadêmicos costumam desprezar os autores de grandes tiragens. A avaliação é da crítica literária e professora universitária Marisa Lajolo, 65, que ganhou neste ano o prêmio Jabuti, o mais tradicional da literatura brasileira, na categoria "não-ficção".

"Monteiro Lobato: Livro a Livro" foi planejado e organizado pela professora da Unicamp e pelo professor João Luís Ceccantini, da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

"O Lobato é uma figura muito popular, mas a academia cuida muito pouco do Lobato. Ninguém se interessa pelos autores que todo mundo lê. As pessoas querem aqueles autores desconhecidos, encafuados, que alguém descobriu que era ótimo", disse Lajolo.

Monte sua biblioteca sobre Lobato

Para a crítica literária, seu livro chamou atenção neste ano por abordar a obra de um escritor famoso.

"A academia falou de um autor que todo mundo conhece e todo mundo leu. Isso deu um temperinho diferente ao livro."

"Monteiro Lobato: Livro a Livro" levou mais de quatro anos para ser organizado, contando com a participação de alunos de pós-gradução da Unicamp e da Unesp.

Os pesquisadores analisaram os originais e as edições dos livros infantis de Monteiro Lobato (1882-1948), bem como ilustrações e até cartas que o autor de "Reinações de Narizinho" recebia dos seus leitores.

Os capítulos dissecam as várias edições das obras de Lobato, trazendo detalhes sobre cada publicação e a respectiva correspondência registrada pelo autor de livros infantis, famosos com a adaptação para a TV, como a série "Sítio do Picapau Amarelo", exibida na Globo desde os anos 70.