sexta-feira, junho 21, 2013

Antonio Bandeira, Cais noturno

http://www.blogdoims.com.br/ims/antonio-bandeira-cais-noturno-%E2%80%93-por-ana-candida-de-avelar-fernandes/

Por Ana Cândida de Avelar


Antonio Bandeira
Cais Noturno, 1962/1963
Óleo sobre tela
97 x 162 cm


Em Cais noturno (1962/1963), pinceladas vermelhas e amarelas são aplicadas sobre um fundo negro. Uma camada de tinta branca produzida pelo derramamento de tinta das bordas para o centro, provavelmente ao inclinar a tela em diferentes direções, mostra-se, desse modo, destituída da gestualidade da pincelada. O efeito não é de espontaneidade, como nos gotejamentos de Jackson Pollock, mas de planejamento e ação contida. Sobrepondo-se às camadas mencionadas, estabelece-se uma grade azul descontínua e de traçado irregular – intuitiva até – que não estrutura propriamente a composição. Em alguns momentos, as linhas azuis horizontais e verticais ultrapassam o limite da tela estendendo-se pela moldura; um procedimento também utilizado por outros artistas visando integrar o suporte ao trabalho. Apesar do caráter abstrato da composição, é evidente a referência à paisagem noturna – pontos luminosos se projetam devido às cores vibrantes em meio ao efeito de profundidade criado pelo uso do preto.
Na época em que esse trabalho é produzido, Bandeira já havia vivido em Paris por muitos anos, desde meados de 1940, participado de várias Bienais de São Paulo e de Veneza, exposto em diversos museus e galerias no Brasil e no exterior, em mostras tanto coletivas como individuais. Muitos críticos se interessaram por seu trabalho – Antonio Bento, Clarival do Prado Valladares, Lourival Gomes Machado, Mário Pedrosa. Mesmo Waldemar Cordeiro, líder do grupo concreto Ruptura, escreve sobre a pintura de Bandeira. É considerado, portanto, um artista consagrado.
Durante o período inicial da estada de Bandeira na França, quando o pintor chega a Paris com uma bolsa de estudos oferecida pelo governo francês (no Brasil, seu trabalho tendia a uma figuração de sabor expressionista, com certo teor dramático), assiste às aulas da Escola Nacional Superior de Belas Artes, mas abandona essa instituição interessado em estudos menos tradicionais, frequentando então a Académie de la Grande Chaumière.
Nessa primeira temporada, permanece em Paris entre 1946 e 1950, período em que se desenvolve e se difunde a abstração expressiva, frequentemente interpretada como uma resposta ao clima de pessimismo generalizado decorrente das duas grandes guerras que prevalecia na Europa desse momento. A leitura mais comum desse abstracionismo não geométrico e gestualizado entende essa pintura como uma negação das possibilidades de construção da forma.
Todavia, a obra de Bandeira, entre outros artistas daquele momento, se estabelece entre a “dissolução e a construção” ou entre “a fluidez e a solidez”, nas palavras de Ruben Navarra. Embora o crítico paraibano estivesse se referindo à produção figurativa anterior do artista, a ideia de reunir qualidades opostas com o sentido de expressão versus estrutura serve perfeitamente para indicar que o uso da grade em conjunto com a mancha, como acontece em Cais noturno, opera no intervalo ou na interseção entre o construtivo ou abstrato-geométrico e a abstração lírica. Ao mesmo tempo, demonstra como esses polos supostamente dicotômicos podem se encontrar, embora os discursos de época sugiram a oposição entre racionalidade e expressão ou subjetividade. Árvores contra construção (1951) parece indicar que Bandeira, desde então, embora inicialmente apenas nas obras em papel, domina conscientemente o uso simultâneo dessas linguagens formais, associando uma grade gráfica, delineada delicadamente, a manchas sutis, decorrentes da utilização do guache bastante diluído.
Bandeira não estava sozinho nessa via intermediária; na realidade ele exemplifica produções de muitos artistas que atuavam no limite entre essas posturas formais. As posições mais radicais de alguns artistas abstratos eram, muitas vezes, estratégias retóricas ou momentâneas, a serviço da defesa de um grupo e conquista de espaço no meio artístico. Basta observar como, nesse segundo pós-guerra e até a primeira metade do decênio de 1960, inúmeros artistas transitaram entre vários procedimentos da abstração, mostrando interesse por experimentar diferentes linguagens não-figurativas.
Quando Bandeira chega ao continente europeu, o alemão Wols, pintor atualmente considerado paradigmático da vertente expressiva, estava estabelecido na França e já desenvolvia uma pesquisa nesse sentido. O trabalho de Wols habita um intervalo entre abstração e figuração, optando por formas aparentadas com elementos orgânicos, porém inidentificáveis. Tais formas são geralmente centralizadas e geradas por grossas camadas de tinta, o chamado impasto, que recebem incisões de um instrumento pontiagudo provocando a extração de parte da matéria acumulada.
Embora seja recorrente na bibliografia sobre Bandeira a referência à amizade com Wols, sugerindo uma aproximação entre o trabalho de ambos, que existe apenas em raros momentos, basta um simples cotejamento entre as obras para se notar que a maioria das pinturas do brasileiro assume soluções distintas daquelas do pintor alemão. Se essa convivência teve conseqüências, talvez não tenham sido tão aparentes nas escolhas formais desses artistas. No entanto, é provável que, por intermédio de Wols, um artista respeitado no meio artístico parisiense do pós-guerra, Bandeira tenha transitado entre círculos de artistas interessados pela abstração lírica, pois é evidente, tanto nos trabalhos como nos escritos que deixou, seu domínio do debate acerca do abstracionismo expressivo que se configura naquele momento.
Segundo alguns comentadores, Wols, Bandeira e o pintor e poeta Camille Bryen teriam formado o grupo Banbryols, que acabaria com a morte precoce de Wols. A existência desse grupo já foi questionada, porém, se o cotejo se der entre a obra de Bandeira e Bryen, surgem diálogos formais possíveis. Bryen opera, por vezes, com estruturas similares às grades de Bandeira, entretanto estas sofrem mais intervenções, resultando no quase desaparecimento das estruturas e num efeito mais enfático de dispersão.
Mais especificamente, também é possível aproximar o modo de abstração de Bandeira daqueles desenvolvidos por Roger Bissière e Alfred Manessier, figuras centrais do abstracionismo parisiense nos anos 1930, portanto, antes do que viria a ser denominado “informal”, um tipo de abstração mais gestualizada desenvolvida e difundida após 1945. Bissière havia ministrado aulas na Academia Ranson, em Paris, incentivando artistas mais jovens, como Manessier, Maria Helena Vieira da Silva e Jean Le Moal, a desenvolver uma abstração expressiva a partir da natureza. É evidente o compartilhamento de uma estrutura semelhante na produção de todos eles e, se observadas de perto, não deixam de ecoar composições de Paul Klee.
Em 1941, a exposição Jovens pintores da tradição francesa apresenta obras de Manessier, Le Moal e Jean Bazaine, entre outros, visando assim marcar essa pintura como uma nova manifestação da arte nacional – reafirmando o caráter “francês” da produção abstrata contemporânea. Outro dado curioso acerca de Manessier e Bazaine é a relação com o catolicismo, que, ao mesmo tempo que permeia o interesse pela abstração, buscando um afastamento da iconografia tradicional em direção a novas formas, favorece uma resposta otimista à situação do pós-guerra.
Bandeira certamente tomou contato com essa produção bastante popular na época em que se transfere para a capital francesa. Em pinturas do final dos anos 1940, ele trabalha paisagens geometrizadas, antecedentes mais próximas da abstração estruturada em grades, que passa a produzir nos primeiros anos de 1950. A figuração não é abandonada por completo, mas permanece como assunto e base para organizar a composição.
A percepção de Navarra sobre a simultaneidade do construtivo e do informal – que sugere pelo termo “dissolução”, no sentido de forma dissolvida, irregular, sem contornos precisos – ressoa na escrita do cronista Rubem Braga, que descreve a produção de Bandeira como um “construtivismo sem dureza” cuja “disciplina da composição não estraga o frescor da invenção lírica”. A grade é uma constante nos trabalhos dos anos 1950, atuando como um anteparo das formas que parecem prestes a se dispersar.
Nos anos que se seguem a Cais noturno, Bandeira alterna o uso intensivo da grade, que cobre praticamente toda a tela tornando-se elemento principal e de fato estruturando o espaço – A grande cidade (1964) e Cidade (1964) – com a dispersão das linhas, acompanhada de respingos concentrados em algumas áreas do trabalho quase que encobertando completamente o que restou das linhas verticais e horizontais – L’arbre s/bleu (1965).
“Ordenado, mas como as estrelas.” A frase de Padre Antônio Vieira, apropriada pelo historiador e crítico Luiz Marques para discutir a obra de Bandeira, ilumina o paradoxo que encerra a obra do pintor: nos toques pontuais e comedidos do pincel, alinhavado pelo uso atento da estrutura e de uma geometria mais livre, mostra-se o convívio entre construção e expressividade. A ausência de rigidez dos trabalhos, enfim, possibilita vislumbrar como as coisas no mundo se organizam de forma flexível, sem tanto rigor, mesmo quando previamente planejadas.
Ana Cândida de Avelar é doutora em História, Teoria e Crítica de Arte pela ECA/USP

A Passeata dos Cem Mil de junho de 1968

http://www.blogdoims.com.br/ims/a-passeata-dos-cem-mil-de-junho-de-1968/

A primeira Passeata dos Cem Mil, a de 26 de junho de 1968, foi documentada por David Drew Zingg (1923-2000), o americano que se estabelecera poucos anos antes no Brasil para se tornar um fotógrafo fundamental da vida do país, sobretudo de seus artistas. Após uma nova manifestação que levou cem mil pessoas às ruas do centro do Rio de Janeiro, além de outras milhares que participaram de atos em diversas cidades brasileiras neste 17 de junho, o Blog do IMS mostra um conjunto de dez fotos feitas por Zingg naquele momento histórico, no qual o alvo principal dos protestos era a ditadura militar. É possível ver nas imagens artistas como Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, Nana Caymmi, José Celso Martinez Corrêa, Renato Borghi, Ittala Nandi e Othon Bastos, além de Vladimir Palmeira (na sexta foto de cima para baixo), então a maior liderança estudantil do país. Evandro Teixeira, outro importante fotógrafo que documentou amplamente a passeata, aparece com sua máquina na penúltima foto. E há os cartazes de então, os gestos de anônimos, a multidão.
O acervo de Zingg está sob a guarda do IMS. Parte dele será exposto na Casa do IMS durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho.
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles
David Drew Zingg | Acervo Instituto Moreira Salles

quarta-feira, junho 19, 2013

O monstro foi para a rua

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2013/06/1297394-o-monstro-foi-para-a-rua.shtml

Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, e o ex-presidente Juscelino Kubitschek estava num almoço quando lhe perguntaram o que acontecia no Brasil.
- O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.
Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa e prosseguiu:
- Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.
- Que monstro?
- A opinião pública.
Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o monstro levou-o no ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart.
Em 1984 o general Ernesto Geisel estava diante de uma fotografia da multidão que fora à Candelária para o comício das Diretas Já.
- Eu me rendo --disse o ex-presidente, adversário até a morte de eleições diretas em qualquer país, em qualquer época.
Demorou uma década, mas o monstro prevaleceu. O oposicionista Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e a ditadura finou-se.
O monstro voltou. O mesmo que pôs Fernando Collor para fora do Planalto.
No melhor momento de seu magnífico "Pós Guerra", o historiador Tony Judt escreveu que "os anos 60 foram a grande Era da Teoria". Havia teóricos de tudo e teorias para qualquer coisa. É natural que junho de 2013 desencadeie uma produção de teorias para explicar o que está acontecendo. Jogo jogado. Contudo, seria útil recapitular o que já aconteceu. Afinal, o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo, não se pode saber o que seja.
Aqui vão sete coisas que aconteceram nos últimos dez dias:
1) O prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin subiram as tarifas e foram para Paris, avisando que não conversariam nem com os manifestantes. Mudaram de ideia.
2) Geraldo Alckmin defendeu a ação da polícia na manifestação de quinta-feira passada. Mudou de ideia e pacificou sua PM.
3) O comandante da PM disse que sua tropa de choque só atirou quando foi apedrejada. Quem estava na esquina da rua da Consolação com a Maria Antônia não viu isso.
4) Dilma Rousseff foi vaiada num estádio onde a meia-entrada custou R$ 28,50 (nove passagens de ônibus a R$ 3,20).
5) O cartola Joseph Blatter, presidente da Fifa, mandarim de uma instituição metida em ladroeiras, achou que podia dar lição de moral aos nativos. (A Viúva gastará mais de R$ 7 bilhões nessa prioridade. Só no MaracanãX, torraram R$ 1,2 bilhão.)
6) A repórter Fernanda Odilla revelou que o Itamaraty achou pequena a suíte de 81 m² do hotel Beverly Hills de Durban, na África do Sul, e hospedou a doutora Dilma no Hilton. (Por determinação do Planalto, essas informações tornaram-se reservadas e, a partir de agora, só serão divulgadas em 2015.)
7) A cabala para diluir as penas dadas aos mensaleiros que correm o risco de serem mandados para o presídio do Tremembé vai bem, obrigado. O ministro Dias Toffoli, do STF, disse que os recursos dos réus poderão demorar dois anos para ir a julgamento.
Para completar uma lista de dez, cada um pode acrescentar mais três, ao seu gosto.

Elio Gaspari Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por "As Ilusões Armadas". Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de "Poder".

A passeata

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2013/06/1297427-a-passeata.shtml

Tinha punk de moicano e playboy de mocassim. Patricinha de olho azul e rasta de olho vermelho. Tinha uns barbudos do PCO exigindo que se reestatize o que foi privatizado e engomados a la Tea Party sonhando com a privatização de todo o resto. Tinha quem realmente se estrepa com esses 20 centavos e neguinho que não rela a barriga numa catraca de ônibus desde os tempos da CMTC. (Neguinho, no caso, era eu). Tinha a esperança de que este seja um momento importante na história do país e a suspeita de que talvez o gás da indignação, nas próximas semanas, vá para o vinagre.
Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância.
Anteontem, depois da passeata, assisti ao "Roda Viva" com Nina Capello e Lucas Monteiro de Oliveira, integrantes do Movimento Passe Livre. Ficou claro que, embora inteligentes e bem articulados, eles tampouco compreendem onde é que foram amarrar seus burros. "Vocês começaram com uma canoa e tão aí com uma arca de Noé", observou o coronel José Vicente. Os dois insistiram que não, o que há é um canoão, e as mais de 200 mil pessoas que saíram às ruas no Brasil, segunda-feira, lutavam por transporte público mais barato e eficiente. A posição dos ativistas de não se colocarem como os catalisadores de todas as angústias nacionais e seguirem batendo na tecla do transporte só os enobrece --mas estarão certos na percepção?
Duzentas mil pessoas de esquerda, de direita, de Nike e de coturno por causa da tarifa?
"Por que você tá aqui no protesto?", perguntou a repórter do "TV Folha" a uma garota na manifestação do dia 11: "Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui, na verdade", foi sua resposta. Corrupção, impunidade, a PEC 37, o aumento dos homicídios, os gastos com os estádios para a Copa, nosso IDH, a qualidade das escolas e hospitais públicos são todos excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país --mas já o eram duas semanas atrás: por que não havia passeatas? Será porque a chegada do PT ao poder anestesiou os movimentos sociais, dificultando a percepção de que o Brasil vem melhorando, melhorando, melhorando e... continua péssimo? Ou será porque agora o Facebook e o Twitter facilitam a comunicação?
Se as dúvidas sobre as motivações --que brotam do solo minimamente sondável do presente-- já são grandes, o que dizer sobre o futuro do movimento? Marchará ou murchará? Caso cresça: conseguirá abaixar a tarifa? E, no longo prazo, terá alguma relevância? Mais ainda: adianta ir às ruas, fazer barulho? Ou a própria passeata extingue o impulso de revolta que a criou e voltamos todos para o mundinho idêntico de todos os dias, com a sensação apaziguadora de que "fiz a minha parte"?
Não tenho a menor ideia, estou mais confuso que o Datena diante da enquete, mas num país injusto como o nosso, em que a única certeza parecia ser a de que, aconteça o que acontecer, o Sarney estará sempre no poder, as dúvidas dos últimos dias são muitíssimo bem-vindas.

Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles "Meio Intelectual, Meio de Esquerda" (editora 34). Escreve às quartas na versão impressa de "Cotidiano".

terça-feira, junho 18, 2013

LAÇOS

http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/notas/lacos.html

No final do ano passado, a Maurício de Sousa Produções entrou no mercado de graphic novels com o lançamento de Astronauta – Magnetar, primeiro título do selo Graphic MSP, que promete lançar cerca de três álbuns por ano, todos com releituras de personagens já consagrados de Maurício de Sousa. O debut trazia roteiro de ficção científica tendo o Astronauta como protagonista adaptado pelo quadrinista Danilo Beyruth, autor de Bando de Dois e Necronauta. Agora, a história é outra: sob os leves traços dos irmãos mineiros Vitor e Lu Cafaggi, Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão vivem uma aventura que os fazem redescobrir o valor da amizade. Na trama, o cachorro do Cebolinha, Floquinho, desaparece e o quarteto segue o rastro do bichinho para encontrá-lo a qualquer custo.
Trip bateu um papo com os autores.
Trip: Como vocês tiveram a ideia do roteiro?
Vitor: Eu e a Lu queríamos uma história que mostrasse bastante como é a relação de amizade entre a Mônica, a Magali, o Cascão e o Cebolinha, a importância que eles têm para eles mesmos. Queríamos uma história sobre a amizade, mesmo. Usamos bastante recordações da nossa infância.
O título Laços, então, tem tudo a ver com a amizade dos quatro?
Lu: Totalmente. Quem fechou mesmo o título foi o Sidney [Gusman, editor da Maurício de Sousa Produções], mas eu e meu irmão queríamos um nome que representasse essa metáfora da amizade, que fosse uma palavra que pudesse ser encontrada várias vezes na história, mas escrita de modos diferentes.
Vitor: O título quase foi Nós, que representaria tanto os quatro juntos quanto os nós que o Cebolinha sempre deu nas orelhãs do coelho da Mônica, o Sansão, mas, no finalzinho, o Maurício falou: "Com a turma da Mônica, os laços são mais fortes do que os nós". Isso é verdade. Daí, ficou.
Em Laços, tem muito do jeito de vocês dois de contar histórias, tem muito dos seus trabalhos anteriores – ValentePuny Parker e Los Pantozelos. Eles funcionaram mesmo como base para vocês criarem a história?
Lu: Isso aconteceu sem querer. Mas, sim, nós procuramos criar uma história que fosse a cara da turma da Mônica, mas que também fosse uma coisa nossa, que tivesse nosso jeito de ver a turma e o mundo também. São os nossos traços, nosso jeito... Sem contar o assunto principal, a amizade, que é uma coisa de que a gente sempre falou nos nossos quadrinhos.
Vitor: Queríamos uma história o mais intimista possível, que é a característica do nosso trabalho. Sempre falamos muito de amizade, amor, infância, inocência, sempre com olhos de criança.
E já caiu a ficha que vocês, agora, têm uma história com a Turma da Mônica?
Vitor: De vez em quando cai [risos], mas ainda é surreal. Crescemos lendo as revistinhas da turma da Mônica e agora ter uma história nossa... É incrível.
Vai lá: Laços
Autores: Vitor e Lu Cafaggi
80 páginas
Preço: R$ 29,90 (capa dura); R$ 19,90 (capa cartonada)
Editora: Panini Comics
www.paninicomics.com.br

PRIMAVERA TUPINIQUIM

Para quem está do lado de fora, parece ter acontecido de uma hora para a outra.
            De repente, um grupo de brasileiros se juntou a outro grupo de brasileiros – que por sua vez convocou outro grupo de brasileiros -, todos esses grupos formaram uma massa compacta de indignados e, para o nosso espanto, lá estava essa galera toda enfrentando a polícia, com sprays de pimenta espirrados em dezenas de rostos e balas de borracha machucando quem tinha e quem não tinha a ver com a “primavera tupiniquim”. Belo nome, não? Melhor do que “primavera do vinagre”.
            Mas é claro que não foi algo pensando em cima da hora. É claro que ninguém acordou numa bela manhã, se espreguiçou e disse, sem mais nem para quê: “Ponte que partiu! Hoje vou protestar contra o aumento de vinte centavos na passagem do ônibus”.
            Trata-se de um movimento pensado, arquitetado e projetado para desestabilizar os poderes constituídos vigentes, isso em plena ocorrência de um evento que, em tese, deveria ajudar este país a pelo menos sonhar com a sua transformação em um dos players internacionais. Pois a Copa das Confederações não está contribuindo. Porque a atenção da mídia foi desviada. Difícil pensar nas peripécias de Neymar, Luiz Gustavo e Dani Alves enquanto quase todo o país protesta por razões que acha as mais justas.
            Aqueles que protestam acharam por bem aceitar o suporte logístico de partidos considerados de “oposição”. Muitas imagens mostravam pessoas portando enormes faixas nas quais apareciam a sigla “PSTU”. Muito bem, em democracias que pretendem ser levadas a sério é legítimo o auxílio à população lutar pelos seus direitos – desde que ela aceite cumprir numa boa com seus deveres, como parte do quid pro quo constitucional. O que me incomoda nessa questão é a manipulação ideológica evidente do núcleo marginal que depredou na segunda-feira uma Assembleia Legislativa e feriu um grupo de policiais militares.
            Fico incomodado porque esse tipo de manifestação precisa ser pacífico. Não pode descambar para a violência, não pode propiciar a destruição de patrimônio, não deve tornar o país refém de uma rebeldia casuística, que não tem outro objetivo além de criminalizar um movimento que pode mesmo modificar os rumos deste país. Nada de radicalismos! Nada de fundamentalismos! A selvageria e a ignorância não devem representar aqueles que entregam flores brancas a policiais que, ao fim e ao cabo, tem como objetivo primordial garantir a ordem e o progresso – elementos basilares que tornaram nosso país uma das mais ordeiras do mundo. Por causa desses dois itens, não somos hostis às nações vizinhas do Mercosul e, acima de tudo, enviamos regularmente ajuda humanitária para o Haiti, devastado por um terremoto.
            Como disse a presidente Dilma Rousseff, a voz das ruas precisa ser ouvida. A voz que protesta contra o aumento da passagem, contra os gastos abusivos propiciados para a construção dos estádios da Copa do Mundo. Contra educação e saúde de má qualidade. Contra a mortalidade infantil. Contra a prostituição de crianças, cujos pais desesperados desejam não vê-las morrer de fome porque estão desempregados e só o Bolsa-Família não basta. Essas vozes não devem se calar. Essas vozes devem ecoar todos os dias, de agora em diante.
            Não posso concordar com o presidente da Fifa. Tampouco com o dirigente máximo da federação internacional de futebol. O esporte bretão não pode ficar acima dessa vontade popular legítima de modificar esta nação para melhor. E mais: a Copa das Confederações não é nada diante da luta contra mazelas como a corrupção.

            Esse tipo de arrogância insensata é que não pode ser tolerado.