segunda-feira, julho 08, 2013

A LUZ NO FIM DO TÚNEL

“Os mortos no mar são como espinhos no coração”. Essa frase parece ter saído da pena de Melville ou de Jorge Amado – apenas para citar dois escribas que trataram com rara poesia a relação de amor e ódio e vida e morte da humanidade com o mar.
            No entanto, como o comercial daquele antigo anticaspa, parece, mas não é. Quem disse que os mortos no mar são como espinhos no coração foi o papa Francisco, quando esteve recentemente na ilha italiana de Lampedusa para “chorar” os muitos imigrantes do Oriente Médio e do norte da África que acabam perdendo a vida em naufrágios na tentativa de alcançarem o Velho Continente em busca de uma vida melhor, longe de guerras, da fome e das epidemias.
            Ainda lembrando ditos mais velhos do que andar para a frente, a impressão é a primeira que fica. E a que me passa a imagem do novo papa é a de um sujeito desencanado. Ou seja, a de alguém que encara sem problemas e com a dose certa de bom humor o imenso fardo de comandar uma das principais denominações religiosas do planeta. Basta recordar o discurso com que brindou a multidão aglomerada na Praça de São Pedro no dia de sua escolha: “Vocês sabem que o dever do conclave era de dar um bispo a Roma. Parece que meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo. Mas estamos aqui!”.
            Pois este simpático papa argentino – o primeiro pontífice nascido no continente americano –, que estará aqui no Brasil neste mês para a Jornada Mundial da Juventude, produziu a “quatro mãos” (aproveitou, segundo entendi, algumas ideias de seu antecessor, Bento XVI) a encíclica Lumen Fidei, “A Luz da Fé”, sua primeira encíclica.
            Para quem não sabe, encíclicas são documentos pontifícios – ou seja, produzidos pelos papas – dirigidos aos bispos do mundo inteiro e, por meio destes, para os fiéis. Por meio delas, o papa define a posição da Igreja Católica sobre um determinado tema.
            Com a Lumen Fidei, Sua Santidade basicamente nos diz que “a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões”. Por isso que a chamamos, em muitas ocasiões, de “a luz no fim do túnel”. Quando a maré da vida muitas vezes está contrária aos nossos objetivos, mesmo os menos ambiciosos, as pontadas de desespero nos atingem com força suficiente para nos atordoar ou para nos conduzir a gestos extremos, como o assassinato e o suicídio. É nessas horas que recorremos à Palavra, como esta passagem encontrada em Tiago 1: 5-8:
            “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Peça-a, porém, com fé; não duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte. Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa. O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos”.
            Não é o caso do nosso bom Francisco. Cuja constância ocorre pela alegria que certamente marcará seu Pontificado. E, por ter deixado que seu coração se tornasse alegre e desprovido de espinhos para enfrentar os muitos problemas que ainda grassam pelo Vaticano e acabam afetando as dioceses de maneira geral, como um organismo doente, Jorge Mario Bergoglio tem tudo para realizar um bom governo. Prova disso é a sua Lumen Fidei, que transmite para todas as famílias mensagens de esperança quanto ao futuro – mesmo nestes tempos de violência desmedida.
            Ou, nas palavras do papa Francisco, anotadas em sua encíclica inicial: “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construirmos solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro”.
            Assinamos embaixo, Sua Santidade.


Marcada por improvisos, Flip 2013 é uma das menos literárias de todas

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1307794-marcada-por-improvisos-flip-2013-e-uma-das-menos-literarias-de-todas.shtml

DOS ENVIADOS ESPECIAIS A PARATY (RJ)

A Festa Literária Internacional de Paraty que acabou na noite de ontem foi bastante diferente daquela que a organização tinha em mente duas semanas atrás.
Foi uma festa de improvisos, com três baixas de última hora entre os convidados, a inclusão de mesas extras sobre os protestos no país, tema que se impôs nas semanas anteriores ao evento, e a integração física dos manifestos aos debates, com gritos de grupos locais invadindo a Tenda dos Autores anteontem.
Se em outras edições a Flip já precisou correr para cobrir desistências com poucos dias de antecedência, desta vez ela precisou fazer isso inclusive no decorrer da festa.
A novela envolvendo a participação do palestino Tamim Al-Barghouti, "o poeta da Revolução Árabe", começou no dia de abertura, quarta, quando um golpe militar no Egito levou ao cancelamento de voos saindo daquele país.
Após enfim conseguir embarcar no Cairo, na manhã de sexta, Al-Barghouti perdeu o passaporte na escala em Londres. "Eu poderia ser perdoado se o obstáculo tivesse sido algo dramático, como um tanque na rua ou um tiroteio na rodovia, mas foi uma mente distraída", disse ele, pedindo desculpas, em carta à Flip.
Editoria de Arte/Folhapress
Flip Flop
Flip Flop
Mas as emendas deram bons resultados. Debates sobre protestos, escalados após a desistência do francês Michel Houellebecq, atraíram inclusive um público mais jovem, que participou ativamente com perguntas a T.J. Clark, Vladimir Safatle e André Lara Resende.
O mexicano Juan Pablo Villalobos, substituto do norueguês Karl Ove Knausgård, foi um dos melhores debatedores desta edição -confirmado um dia antes do evento, teve seu "Festa no Covil" entre os mais vendidos na livraria oficial da Flip, a Travessa.
E o tão temido bloqueio na ponte de acesso à Tenda dos Autores, no sábado, não incomodou turistas -que, ao menos temporariamente, atentaram para temas ambientais e sociais que preocupam o povo local.
Nenhuma mesa causou mais comoção nesta edição que a de Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli recitando poemas de Fernando Pessoa. Bethânia deu à amiga espaço para brilhar, e dona Cleo, 96, levou o público pela mão. Poucas vezes na Flip se ouviram aplausos tão duradouros na Tenda dos Autores.
Sessenta anos mais nova, a franco-iraniana Lila Azam Zanganeh arrebatou o auditório cantarolando o "fazcarigudum" do "Trem das Onze", de Adoniran Barbosa. Virou a musa da Flip e a autora best-seller desta edição, com 500 cópias de seu "O Encantador" vendidas em Paraty. Cleonice foi a segunda mais vendida.
Mas, no geral, a ausência de grandes estrelas literárias, somada a mesas sobre ficção que pouco repercutiram, como a de John Banville e Lydia Davis, fez desta uma das Flips menos literárias de todos os tempos. Isso deu espaço para nomes de outras áreas, como o arquiteto Eduardo Souto de Moura e o cineasta Eduardo Coutinho, protagonizarem alguns dos debates mais interessantes.
A Flip do improviso se fez notar até na mesa final, em que autores leem trechos de seus livros favoritos: a tradutora não recebeu antes o texto escolhido por Laurent Binet, e fez uma tradução livre do russo Vasily Grossman.
Na entrevista de balanço, foi anunciado que a 12ª edição da festa, no ano que vem, acontecerá em agosto, para não coincidir com a Copa do Mundo.
(MARCO AURÉLIO CANÔNICO, MARCO RODRIGO ALMEIDA, RAQUEL COZER, RODRIGO LEVINO)
Editoria de Arte/Folhapress
UMA FESTA EM FRASES

domingo, julho 07, 2013

"Foi divertido esquecer que Jackson era uma celebridade", diz ensaísta que escreveu sobre o cantor

http://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2013/07/07/foi-divertido-esquecer-que-jackson-era-uma-celebridade-diz-ensaista-que-escreveu-sobre-o-cantor.htm

Mirella Nascimento
Do UOL, em São Paulo

Flip 2013 (julho de 2013)55 fotos

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7.jul.2013 - Convidado para escrever sobre Michael Jackson após a morte do cantor, em 2009, o ensaísta americano John Jeremiah Sullivan participou da Flip na mesa de debates "A arte do Ensaio" Walter Craveiro/Divulgação
Convidado para escrever sobre Michael Jackson após a morte do cantor, em 2009, o ensaísta americano John Jeremiah Sullivan buscou no lado mais humano do cantor a base para contar a sua história.
"Fiquei ouvindo a música dele por algumas semanas. Havia liberdade de prestar atenção no que eu não vi escrito em nenhum lugar. Foi divertido esquecer que ele era uma celebridade e tentar me conectar com ele", disse o escritor na mesa "A arte do ensaio", na noite deste domingo (7) na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
O escritor contou que pensou em outros destinos que a vida de Jackson poderia ter tomado a partir de sua infância em Indiana longe do sucesso. "Tentei pensar em como essa experiência iria mudar um ser humano. Ninguém perguntou se ele queria ser famoso. Quando ele se tornou consciente de quem ele era, ele já era famoso", completou.
Sullivan e o britânico Geoff Dyer, dois grandes ensaístas da atualidade, classificaram o ensaio como uma forma "livre" de estudar sobre assuntos de seu interesse sem se especializar neles.
O britânico, que acaba de lançar no Brasil "Todo Aquele Jazz", com textos sobre músicos como Chet Baker e Thelonious Monk, comparou a escrita de ensaios aos deveres de casa que fazia quando estava na escola.
"Passei os últimos 35 anos fazendo o dever de casa. Depois que eu saí da universidade, eu não queria ir à escola. Escrever ensaios é uma forma de estudar, de me aprofundar em assuntos que eu gosto", disse Dyer.
Ele fez ainda um contraponto da escrita solta do ensaio com as pesquisas acadêmicas: "A academia tende a afunilar as pessoas em uma especialização. O ensaio é uma antiespecialização, uma certa miscelânia, sempre se espalhando".
O amadorismo e a ignorância sobre o assunto a ser escrito são o ponto de partida para o ensaio, na opinião de Sullivan, autor de "Pulphead", que reúne ensaios de assuntos diversos, inclusive um festival de rock cristão, o neoconseradorismo americano e Michael Jackson.
"A confusão do ensaio faz parte da atração da forma. É uma forma um pouco solta, que funciona bem para amadores", disse Sullivan.

A LENTIDÃO

Às vezes, quando menos se espera, há um ótimo livro no meio do caminho.
Dois dias atrás, comprei na livraria Nobel, do Tropical Shopping, A Lentidão, do ótimo escritor tcheco Milan Kundera. Quem aí na plateia já leu, também dele, A Insustentável Leveza do Ser ou O Livro do Riso e do Esquecimento? Se ainda não o fez, fica aqui a recomendação.
Volto aos trilhos. Em A Lentidão, Kundera filosofa a respeito da superficialidade que tomou conta dos tempos modernos e sobre como seria interessante se pudéssemos superar as pressões e obrigações cotidianas e pisássemos um pouco mais no freio, em favor de prazeres mais mundanos, por assim dizer.
E determinado trecho da obra se relaciona com aquele que veste uma balaclava, esconde o rosto dentro de um capacete e arrisca a vida a 300 por hora pelos circuitos deste mundo:
“Tudo muda quando o homem delega a uma máquina a faculdade de ser veloz: a partir de então, seu próprio corpo fica fora do jogo e ele se entrega a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase”.
E de êxtase Sebastian Vettel certamente entende. Pela primeira vez, o alemão da Red Bull venceu em casa. Acabou com essa esquisitice de um sujeito, tricampeão do mundo, não terminar uma corrida em primeiro em seus domínios. Mais importante: o sujeito dá largas e tranquilas passadas rumo ao tetracampeonato. E não há ninguém atualmente, no grid da Fórmula 1, capaz de impedi-lo de alcançar esse objetivo.
Não com Felipe Massa abandonando mais uma vez uma prova e mais uma vez de forma ridícula e medíocre. A ideia se reforça: o brasileiro ferrarista teve a sua chance de ser campeão. Hamilton não permitiu. Desde então, Massa não chegou nem perto de pelo menos se mostrar competitivo. Ainda por cima, ousou sonhar em ocupar o cockpit da RBR que ficará vago com a saída de Mark Webber. Como diria a Waldirene, “é demais”.
         Por último, mas não menos importante: a bruxa anda solta nos bastidores da Fórmula 1. No Canadá, um fiscal morreu atropelado por um guindaste. Na Inglaterra, houve a situação absurda da explosão de pneus em retas de alta velocidade.
         Ontem, na Alemanha, um “show” de falhas humanas. Teve pneu voador que quase tirou a vida de um cinegrafista, nos boxes, e a Marussia de Jules Bianchi ganhando viva própria e atravessando desgovernado a pista.

         Numa lentidão extremamente arriscada.

quarta-feira, julho 03, 2013

Convidado da Flip, escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura

http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2013/06/1301363-convidado-da-flip-escritor-transforma-axl-rose-e-michael-jackson-em-literatura.shtml

ISABELLE MOREIRA LIMA
DE NOVA YORK

Prazos, para escritores, são sempre tensos: o editor quer menos tempo, o autor quer mais. Nos agradecimentos do livro de ensaios "Pulphead - O Outro Lado da América" (Cia. das Letras), o escritor John Jeremiah Sullivan menciona "aqueles que demonstraram gentileza e compromisso com o prazo".
John leva entre seis e nove meses para produzir um ensaio. E, eventualmente, atrasa. A justificativa? Pesquisa extensiva e extremo apuro formal.
Em seu último livro, com trabalhos escritos entre 1997 e 2011, sobre assuntos como um festival de rock cristão, a aura do neoconservadorismo americano e a genialidade esquecida de Michael Jackson, o ensaísta teve de revisitar e aprofundar textos há tempos publicados e abandonados. "Odeio o meu trabalho de uma semana atrás, nem tenho cópias dos meus livros em casa. Foi terrível."

John Jeremiah Sullivan

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Sebastian Lucrecio
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O escritor americano John Jeremiah Sullivan, que vem para a FLIP, mistura estilos diferentes para escrever sobre temas não menos distintos: do fim do Guns N’Roses até suas relações familiare
O fruto dessa "terrível" experiência, sucesso de público e crítica, será assunto na próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre os dias 3 e 7 de julho, em que ele participa de uma mesa sobre "a arte do ensaio".
Nos EUA, "Pulphead" foi considerado um dos cem livros notáveis do ano pelo "New York Times". Para a "Time", ficou entre as dez melhores obras de não ficção, sob a justificativa de que, "com David Foster Wallace e Hunter S. Thompson mortos e Tom Wolfe praticamente aposentado, não restam muitos escritores com coragem e cérebro para confrontar nossa cultura e não se deixar contaminar pelos seus absurdos".
A primeira ideia era que eu o acompanhasse na festa trimestral da revista "Paris Review", em que trabalha como editor, em Nova York. Seria interessante -eu repetiria seus próprios passos, quando acompanhou Miz, subcelebridade conhecida pelo reality show "The Real World", da MTV, em uma balada.
A segunda opção seria uma viagem à Carolina do Norte, para conhecer a casa onde vive com a família. Fiquei espantada com sua generosidade: ele me disse que eu poderia dormir lá.
Acabamos em um banco de praça, em Nova York. Era uma tarde de sábado. Ali, John falaria, entre tragadas de um cigarro que ele mesmo enrolou, sobre sua vida de escritor, o livro que lança no Brasil, seu próximo trabalho e a entrevista em si. "O meu trabalho é fazer exatamente o que você está fazendo."
VELHO NOVO ENSAIO
John discorda dos críticos que o consideram expoente de um estilo batizado como "o novo ensaio". "Se você lê bastante, vai ver que esse jeito de escrever sempre existiu. O que acontece é que, de vez em quando, as pessoas voltam a ficar interessadas no assunto e colocam a palavra 'novo' na frente."
Como ele mesmo define, o formato ensaio, em sua versão "século 21", dá conta de uma escrita em primeira pessoa, caracterizado pela análise e argumentação em torno de um tema. E faz uso de estratégias literárias, como o cuidado com a forma e a tensão narrativa, "como se fazia no século 18".
Geralmente, há dois caminhos para quem passa meses trabalhando em um texto assim, que requer extremo aprofundamento do tema: a repulsa ou a obsessão. John costuma ser vítima do segundo.
Há 15 anos, ele trabalha na pesquisa para um livro, a ser publicado em 2014. É a história de um advogado alemão que foi ao sul dos EUA, em 1730, e tentou fundar uma república iluminista utópica entre índios. Foi perseguido pelos ingleses e morreu na prisão, em 1743. Para o trabalho, aprendeu a ler em alemão.
"Você está perto de terminar?", pergunto. "A resposta depende do quão deprimido estou. Algumas vezes, diria que tenho 60%. Em outras, tenho 4%."
Na segunda locação da entrevista, um café ao lado do hotel em que estava hospedado com a mulher e as duas filhas, de dois e sete anos, ele fala devagar, com longas pausas entre as ideias. Com o olhar distante, dá a impressão de ter deficit de atenção. Mas o raciocínio seguinte à pausa é tão articulado que logo a hipótese é descartada.
John acredita ter se tornado escritor na infância. Nascido em Louisville, Kentucky, no sul dos Estados Unidos, em 1974, filho de um jornalista esportivo e de uma professora de inglês, ele conta que nunca teve muita esperança de "escapar do carma de escritor".
Escreveu ficção e poesia antes de chegar ao ensaio, aos 20 anos, quando disse ter ouvido sua própria voz. Para James Wood, crítico de literatura da revista "New Yorker", sua principal característica é a qualidade de camaleão, de adaptar a voz narrativa ao assunto que está sendo abordado.
Paulo Whitaker/Reuters/Michael A. Mariant/Associated Press
Convidado da Flip(Festa Literária de Paraty) escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura
Convidado da Flip(Festa Literária de Paraty) escritor transforma Axl Rose e Michael Jackson em literatura
ESQUISITOS E PROBLEMÁTICOS
Mas talvez o traço mais marcante do autor seja a capacidade de retratar personagens esquisitos, problemáticos ou fracassados com doses iguais de humor e generosidade. "Eu parto do pressuposto de que todos nós somos prejudicados pela vida. Tento ver o personagem não com empatia, mas a partir de uma postura de igualdade."
Após a terceira e última mimosa (espumante com suco de laranja), diz que quer saber mais sobre o Brasil. Quase foi ao país para acompanhar a ação da polícia no Complexo do Alemão, em 2010. Agora, espera conhecer outras cidades além de Paraty, Rio e São Paulo. "Você me recomenda alguma outra região?"
Por ele ter nascido no sul dos EUA, digo que o Nordeste poderia apresentar paralelos interessantes. Falo sobre a colonização, sobre Salvador, sobre a influência africana na cultura da região. Apaixonado por música (toca vários instrumentos e escreve seguidamente sobre o assunto), ele pergunta sobre os artistas locais. E a conversa termina com um interrogatório sobre Caetano Veloso.
Não duvidaria se dali nascesse uma nova obsessão.
VEJA TRECHO DE "O ÚLTIMO RETORNO DE AXL ROSE", DE "PULPHEAD"
Será que a banda não deveria voltar? Será que não percebem o impacto gigantesco que isso causaria? Dana Gregory me contou que Slash e Izzy nunca mais vão tocar numa banca com Axl. "Conhecem ele bem demais."
Eu não conheço nem um pouco do Axl. Se o pessoal dele tivesse deixado a gente conversar, talvez ele tivesse me mordido, me batido e me mandado manter meus pirralhos de merda dentro de casa, e eu seria capaz de transcender esses sentimentos.
Mas, nas circunstâncias atuais, tudo que posso fazer é ouvir "Patience" mais uma vez. Não sei como são as coisas aí onde você mora, mas aqui no Sul dos Estados Unidos, onde estou, essa música ainda toca o tempo todo.
E eu assobio junto e espero por aquela voz, perto do fim, quando ele canta "Ooooooo, I need you. OOOOOO, I need you". E naquele primeiro Ooooooo ele alcança uma nota capaz de esgarçar tecidos. Ela conjura a imagem de alguém arrancando o próprio escalpo como se fosse uma casca de uva.
Preciso tomar cuidado para não tentar cantar junto nessa parte, porque isso pode fazer você meio que se engasgar e quase vomitar um pouquinho. E no segundo OOOOOO você enxerga apenas um crânio desnudo, verde e brilhante pairando ali, vibrando de boca escancarada numa cela de prisão.
Ou sei lá eu o que você enxerga.

terça-feira, julho 02, 2013

TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Sabem qual é a minha favorita? A da rápida proliferação das TVs por assinatura. É mais ou menos assim: porcarias como Fausto Silva, Xuxa et caterva são propositalmente alimentadas pela indústria do entretenimento para forçar o cidadão com algum poder aquisitivo a comprar, por exemplo, uma antena da Sky.
            No site ahduvido.com.br/50-teorias-da-conspiração, há uma definição interessante: “Toda história tem várias versões e cada versão depende do ponto de vista de quem a conta. Geralmente, para evitar discussão e mais confusão, o coletivo adota o que chamamos de ‘versão oficial’, quase sempre emitida por um órgão que seja de confiança do povo. Não obstante, muitos acontecimentos no decorrer da História mostram que aquilo que é apresentado como versão oficial nem sempre é a realidade do acontecido. E nesse ponto é onde surgem as Teorias da Conspiração. Teoria da Conspiração nada mais é do que uma versão alternativa à versão adotada pela maioria para explicar determinado evento”.
            Outra pesquisa rápida coloca na lista das conspirações o assassinato do presidente John Kennedy, a suposta morte de Elvis Presley (no filme “Homens de Preto”, um dos personagens principais diz que ele só “voltou para casa”, aludindo a uma hipotética origem extraterrestre do Rei do Rock); o Triângulo das Bermudas; os Illuminati e a Cientologia.
            No futebol, essas teorias são corriqueiras. Aqui no terrinha, elas pipocam em todo fim de Campeonato Brasileiro desde a mudança da era dos mata-matas (emocionante para quem se acostumou com as grandes decisões) para a dos pontos corridos (sistema bem mais justo, no qual o vencedor foi realmente o melhor ou então o “mais regular”). Toda vez, na derradeira rodada, surge a história da tal da “mala branca”. Ou seja, a acusação de que o Time A, a fim de evitar o rebaixamento, decide pagar uma pequena fortuna para o Time B garantir o resultado exato capaz de evitar a queda da equipe A. Com uma vitória ou uma derrota com sabor de marmelada.
            São especulações que pipocam de acordo com as conveniências, prontamente desmentidas por dirigentes das agremiações envolvidas... ainda que todos aqueles que conhecem bem os esportes de massa não ignorem a existência dos crimes de manipulação de resultados. Em razão desse crime, na terça-feira, 25 de junho, noticiou-se que a Uefa impediu o vice-campeão turco da temporada 2012-13, o Fenerbahce, de disputar a Liga Europa e a Liga dos Campeões da Europa 2013-14.
            Essa história toda de teorias conspiratórias nos remete de imediato à Copa da França, em 1998. Para muitos, a Seleção teria facilitado a vitória francesa na final para que a Europa apoiasse a candidatura do Brasil a sede do Mundial de 2006. O que se provou um rematado absurdo, porque a Alemanha ficou com o certame e esse privilégio só tivemos longos oito anos mais tarde.
            Este ano, nem bem terminou a Copa das Confederações, os teóricos da conspiração estão a deitar a rolar.
            Antes, é preciso que se declare o que todo mundo viu na decisão: a Seleção Brasileira sobrou durante a partida. Em nenhum momento lembrou a equipe apática, sem nenhuma confiança, que passou um bom tempo sem derrotar um time de ponta do futebol mundial e sem conquistar um título de expressão – limitando-se aos obtidos contra a Argentina. No dia 30 de junho, pelo menos por 90 minutos, voltamos a ser os melhores do planeta bola, com uma inapelável vitória por 3 x 0.
            Mas um grupo de filisteus tem afirmado que o massacre brasileiro – com direito a olé verde e amarelo – se deveu ao fato de que o Brasil precisava com urgência dessa conquista para escapar da séria crise política e social que então enfrentava e, por meio da necessária injeção monetária (como se sabe, a Espanha como nação vê o fantasma do desemprego agigantar-se um dia após o outro), entrou em acordo com os representantes da Fúria. “Uma derrota por um prato de comida”, segundo alguns desses patifes.

            Em suma: torcedores espanhóis, vão chorar na cama, que é lugar quentinho.

O FIM DO QUE NUNCA EXISTIU! Pressionado por tucanos, deputado retira projeto apelidado pela imprensa e por ativistas de “cura gay”

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-fim-do-que-nunca-existiu-pressionado-por-tucanos-deputado-retira-projeto-apelidado-pela-imprensa-e-por-ativistas-de-cura-gay/

Nunca existiu um projeto propondo a cura gay. Essa é uma falácia militante que uniu a quase totalidade da imprensa ao ativismo gay, hoje o mais organizado do país. Basta que ele aponte o dedo contra esse ou aquele, e o sujeito que se vire para provar que tomada (modelo antigo) não é focinho de porco.
Pra começo de conversa, reportagens chamavam o Projeto de Decreto Legislativo de “Projeto de Lei”. O texto, como já demonstrei aqui, derrubava dois trechos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia que não encontram paralelo em lugar nenhum do mundo: interferem de forma indevida na relação entre paciente e psicólogo e patrulham até os eventos de que os profissionais da área podem participar.
Criou-se, no entanto, a farsa, repetida na imprensa cotidianamente como verdade, de que o texto “propunha” a “cura gay”. Um “inteliquitual” chegou a dizer na GloboNews que isso acarretaria custos ao estado. O texto foi aprovado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara e gerou um quiproquó danado. A maioria das pessoas que se posiciona a respeito não leu nem a Resolução do Conselho nem o PLD.
Bem, o autor do Projeto de Decreto Legislativo — e não do Projeto de Lei — é o deputado João Campos (PSDB-GO). O partido o pressionou e chegou a emitir nota opondo-se ao texto. Ele acaba de anunciar que abandonou o texto — que já estava condenado. Como já foi aprovado em uma comissão, pode, em tese, ter sequência, ser submetido a outras, até chegar a plenário. Mas não vai acontecer. Sem paternidade, será arquivado.
Bem, chega dessa história! Morre, assim, o que nunca houve: um projeto de “cura gay”. A resolução do Conselho Federal de Psicologia, como está (ver link), permite travestir mera perseguição, até ideológica, de questão técnica. Insisto no paralelo: é como se um Conselho Federal de Jornalismo (por enquanto, não existe) estabelecesse que “nenhum jornalista pode participar de eventos contrários às organizações populares”…
Lembro que o Projeto de Decreto Legislativo, que não era Projeto de Lei, mantinha intocado o trecho da resolução que deixa claro que homossexualidade não é patologia — logo, não se cura o que não é doença. O texto apenas protegia alguns profissionais de uma intromissão indevida no seu trabalho. Andrei recebendo alguns desaforos de psicólogos e psicólogas e coisa e tal. Como sabem, não dou bola nem para alarido das ruas. Apresentem-me uma só resolução semelhante no mundo, que seja judiciosa até sobre o tipo de eventos de que psicólogos podem participar, e a gente começa a conversar.
Também nesse caso, vale a máxima: se a coisa só existe no Brasil, ou é jabuticaba ou é besteira. A militância venceu os fatos. Não é a primeira nem será a última vez.
Por Reinaldo Azevedo