terça-feira, julho 16, 2013

Grandes Entrevistas: Tony Kanaan

http://revista.warmup.com.br/edicoes/39/grandes-entrevistas-tony-kanaan.shtml

“Existem várias maneiras para você se tornar um ídolo. E acho que agora sou pela minha personalidade, por tudo o que eu passei, pela minha história de vida”


VICTOR MARTINS, de São Paulo
HUGO BECKER, de Guarulhos


Tony beija o troféu da vitória nas 500 Milhas de Indianápolis: "É a realização de um sonho. Você está nas nuvens" (Foto: Chris Graythen/Getty Images)
tempo passa, e já faz quase um mês que aquela vitória colocou fim a um tempo de 12 anos de espera e os últimos dois de agruras e dificuldades na profissão. O “melhor, estraga” que soltou prontamente quando a Revista WARM UP disse se nem era necessário perguntar estar tudo bem, dias depois à conquista, nem deve representar a realidade. A ingrata e apressada Indy não lhe deu tempo suficiente para comemorar, jorrando corridas sem parar desde então, e os resultados não foram iguais nem suficientes para colocá-lo entre os líderes do campeonato.

Mas para quem já tem um título no bolso, as 500 Milhas de Indianápolis são mais que tudo. A eternização vem expressa com o “rosto feio” no Troféu Borg-Warner e com os milhões que caem nas contas, sua e da KV, que lhe servem como segurança pelo resto da carreira e da vida. A voz ao telefone expressava isso tudo: a felicidade e a exaustão. E, também, as que não se furtou em definir.

“É a realização de um sonho. Você está nas nuvens. No dia que você fica irritado, de mau humor, fica tudo muito bem. Não é que eu estou sempre feliz da vida, mas sabe quando acontece alguma coisa, algum imprevisto, alguma notícia que você não quer durante o dia de trabalho, que você fala: 'Putz, isso não é tão legal'? Pois você vai e lembra que você ganhou as 500 Milhas.

Eu me lembro que a semana da Indy 500, nos últimos 11 anos, era sempre a pior semana que eu tinha. Porque eu estava exausto, desgastado e ainda estava puto. Então tem sido completamente diferente.”

A vida de alguém que venceu em Indianápolis pela primeira vez causa um cansaço que bate na extremidade. O alerta já havia sido dado pelos amigos Helio Castroneves e Dario Franchitti.

“Os dois me falaram muito. Na verdade, como eu ganhei o campeonato em 2004, já passei um pouco por isso. E como eu ganhei na última corrida, todas essas coisas de entrevistas e tudo, eu fiz, mas não havia uma corrida no fim de semana seguinte. Então está sendo realmente bem diferente, muito cansativo, porque dar entrevista, parece que não, mas cansa. Você repetir a mesma coisa 60 mil vezes... Chega uma hora em que você começa até a ficar confuso.”
Tony lidera Ryan Hunter-Reay em momento decisivo da 97ª edição das 500 Milhas de Indianápolis. (Foto: Robert Laberge/Getty Images)
E o nó na cabeça aumenta quanto tudo é o mesmo em duas línguas. “E aí você tem que dar as respostas, começa falando em português e tem que responder em inglês, e vice-versa”, diz. O alívio pela vitória acaba sendo o remédio. “É a maior conquista da minha vida, com certeza, mas não é que eu tenha tirado um peso. Eu realizei uma coisa que teria a possibilidade de não acontecer nunca.”

Por mais que Tony seja otimista, a hipótese de tentar tantas vezes que fosse e falhar em todas era algo que povoava sua cabeça.

“Cheguei a pensar que eu tinha que me acostumar com a possibilidade de que poderia não acontecer, principalmente pela questão dos patrocínios. Esse ano, por exemplo, eu não sabia se eu ia voltar lá no ano que vem. Então, tive de me acostumar com essa possibilidade. Mas isso não me fez deixar de acreditar que eu poderia ganhar, entendeu. Eu sempre achei que em todas as vezes que eu fosse correr em Indianápolis, eu teria chances de vencer.”

Nem por isso, uma outra hipótese, a de abandonar a carreira, passou pela cabeça – apesar de o recado dado ao filho Léo, minutos após a vitória, de que “o papai está voltando”, pudesse sugerir que seria o acordo.

"Eu amo minha profissão, e nos últimos cinco anos, desde que me separei da mãe dele, eu sei que é essa a minha realidade. Nem cogito. E falo desde já: nem quando eu me aposentar, vou voltar a morar no Brasil. Sou uma personalidade aqui. Muitas coisas ainda vão pintar para mim em termos profissionais para eu fazer aqui. Eu me vejo sempre indo e voltando. Hoje em dia, já recebo um monte de convites. Acho que vai ser algo natural. Ou ser comentarista de TV ou ser tipo um instrutor de pilotos, para alguma equipe que me contratar.

E eu não sou de largar de mão. Fiquei mais puto. Foi aí que eu disse: 'Quer saber? Agora é que eu vou atrás mesmo, vou arrumar essa porra e vou mostrar para esses caras [da Andretti] que eles vão se arrepender de terem me mandado embora’.”
“Vou mostrar para esses caras [da Andretti] que eles vão se arrepender de terem me mandado embora”
Andretti, um caso curioso nessa história toda. O campeonato atual vem tendo um domínio dos carros da equipe de Michael, embora o líder seja Helio Castroneves, da Penske. Andretti que foi a casa de Kanaan durante oito temporadas e que provocou os perigos dos últimos anos por fazer o piloto ter de correr para se virar. Andretti que o cumprimentou pela vitória na Indy 500 como nos velhos tempos.

“É que vocês não viram, infelizmente... Os caras pegaram o [Ryan] Hunter-Reay, aí o carro foi para a frente, e vieram o Marco, o Michael e o Mario. Eles vieram falar comigo. O acordo que ele me deu quando ele me mandou embora... Eu não tenho que ficar puto com o cara, porque eu aceitei. Se eu não quisesse aceitar, eu ia 'pro pau'. É lógico que ele não é meu amigo, não é um cara com quem eu converso todo dia, que eu chamo para jantar, mas a gente já conversou algumas vezes. Quando o [Dan] Wheldon morreu, por exemplo, naquele fim de semana, antes de assinar com ele, o Michael veio me perguntar se eu já estava certo para correr no outro ano, e eu já tinha contrato de dois anos com a KV. Ele não me perguntou se eu queria guiar para ele, mas queria saber se eu estava disponível ou não.”

Ganhar em Indianápolis de um jeito que muitas vezes lhe tirou a vitória – em bandeira amarela – e justamente em 2013 trouxe um par de ironias que passam exatamente pelo amigo que morreu há mais de um ano e meio, Dan Wheldon.

“Pensei nele na hora em que eu cruzei a linha de chegada... Na hora em que eu comemorei, eu pensei... E como ele ganhou a antepenúltima, o Dario [Franchitti], a última e eu, essa, os nossos rostos no troféu vão estar um ao lado do outro. Não querendo ser poético, mas, bicho, é difícil você falar que não existe coincidência, destino. Se você for pensar, parece a história de um filme. Esperar todo esse tempo, e aí, quando eu ganho, vou estar ao lado dos meus dois melhores amigos em um lugar que é uma lenda do automobilismo.”

Ainda, a vitória se deu depois de um malogro em São Paulo que o viu, novamente, em uma enrascada da KV. Kanaan parou na reta principal no meio da prova sem combustível quando tinha chances reais de se consagrar frente a seu povo. Foi maior que a dor que carregava na mão direita avariada depois do choque com Oriol Servià em Long Beach. E o desempenho nos treinos em Indianápolis não o credenciava como um dos favoritos.

“Pois é... Você perguntava pros caras, nego não sabia nem que eu existia. Eu acho que as pessoas me respeitam porque elas sabem o quanto eu mando bem lá, entendeu? Mas se você falasse: ‘Ah, o Tony tá lá, em 12º, 15º, em todos os treinos...’”
Tony comemora o título da Indy em 2004, obtido pela Andretti, equipe que o dispensou em fins de 2010. (Foto: Robert Laberge/Getty Images)
 
E a edição deste ano foi a que mais gerou audiência e comentários nas redes sociais nos últimos tempos, o que aumentou a importância do feito. Tony, aos 38, foi catapultado a uma condição de herói, e não só nacional. Algo que o brasileiro não tem como dimensionar.

“Estou percebendo cada vez mais dos meus amigos, com quem eu falo, e agora vocês me confirmando isso, que realmente os caras falam: 'Velho, você não tem noção. Foi realmente uma das melhores corridas que o Brasil viu'. Percebi um pouco pelo meu Twitter, as mensagens, mas eu não tenho ideia. É legal até você falar, porque isso é uma coisa gratificante.

E eu, sinceramente, não sei o que aconteceu nesses últimos dois anos, mesmo no Brasil. Eu fiquei muito famoso. Famoso não, popular. Na corrida do Brasil, foi impressionante, nem eu acreditava. E em Indianápolis, está pior ainda. No Brasil, o autódromo inteiro era para mim, e aqui também. Aí você fala assim: 'Mas cacete, meu. Mas por quê? Será que o pessoal tem pena que eu não ganhei, ainda? Será que o pessoal gosta de mim por essa personalidade que eu tenho, de ser superaberto com todo mundo? De repente é um mix de tudo isso'... Tomou uma proporção muito grande. A hora que os caras falaram meu nome, deu até vergonha. Porque era só para mim.”
Tony em 1997, quando chegou nos Estados Unidos. "Já estou correndo aqui há 16 anos. É muito tempo" (Foto: Mike Powell/Allsport/Getty Images)
Um não-americano sendo aclamado na terra deles: uma visão bem diferente da vista no Brasil, onde é praticamente obrigatório torcer por brasileiros na cultura de massa difundida pelas emissoras de TV. “Eles não são bairristas. São zero bairristas. Foi uma coisa muito legal, muito legal, mesmo. Isso tomou uma proporção muito grande aqui”, diz. Se parece que o pedestal demorou muito a erguê-lo ao posto de ídolo, Tony fica na dúvida.

“Não sei o que é tarde e o que é cedo. Existem várias maneiras para você se tornar um ídolo. Ao mesmo tempo, um ídolo se constrói por respeito, por admiração. Leva tempo para as pessoas descobrirem quem você é. Vamos usar um caso que todo mundo conhece: o caso do Senna. O Ayrton não se tornou um ídolo quando estava correndo na Toleman. Todo mundo gostava dele, quando ele foi para a Lotus todo mundo falava: 'Esse cara é bom', mas quando ele ganhou o campeonato na McLaren, aí fodeu. Acho que essa foi a minha lei natural, também. Ganhei um campeonato, mas pô... Um brasileiro nos EUA, que é um lugar que tem uma porrada de esportes, as pessoas foram descobrindo o Tony. E acho que agora sou pela minha personalidade, por tudo o que eu passei, pela minha história de vida... As pessoas admiram muito essas coisas. Já estou correndo aqui há 16 anos. É muito tempo.”

E depois de tanto tempo, sempre o tempo, finalmente veio algo para ajudar Kanaan. “Muito. Vai ajudar muito”, ressalta. “Porque eu estou sem emprego. Meu contrato vence neste ano”, completa. Mas agora está “tudo certo”. Um vencedor em Indianápolis não tem como ficar sem patrocínios. A Sunoco, que estampou sua marca no carro de Townsend Bell, da Panther, passou para o carro de Tony, sem contar nos outros menores que vão ajudá-lo até o fim da temporada. “Nós vamos terminar o ano. Não teria cabimento isso não acontecer, graças a Deus. Só com o 'prize money' que a gente ganhou, a gente já termina o campeonato. A preocupação é só para o ano que vem”, fala. A KV, então, que abra os olhos – e os cofres – para manter seu passe.

“Tem possibilidade de eu sair? Tem. Não é que eu esteja querendo sair. Mas o negócio é o seguinte: meu contrato está vencendo. Eu sou um piloto que está disposto a guiar para quem me oferecer um contrato. Estou muito bem onde eu estou. Estou com a equipe que eu construí. Hoje, tenho um grupo de pessoas que são os caras que eu realmente quero que trabalhem para mim. Só que a gente precisa arrumar o dinheiro. Se a equipe não arrumar o dinheiro, e acontecer de eu arrumar metade do orçamento e achar, de repente, uma outra equipe que tenha um pouco mais de grana, que quer me pegar porque eu ganhei e que tem a outra metade, vou ter que fazer uma avaliação disso.”

A KV, aliás, chegou à primeira vitória nesta Indy reunificada e justamente depois de seu pior ano. Kanaan não era nem louco de dizer que brigaria pelo título da temporada na abertura em São Petersburgo. Só que agora os tempos – sempre eles – são outros.

“A gente deu uma melhorada muito grande nesses últimos três meses, em algumas coisas que a gente descobriu no túnel de vento. Fizemos um teste de amortecedor que o carro deu uma melhorada boa. A equipe deu uma crescida grande. No Brasil a gente estava superbem. Em Long Beach, também. A gente está entre os cinco. Na minha opinião, dá para a gente ganhar o campeonato porque ele está muito atípico. Se você falasse para mim que o Will Power estaria em 17º ou 18º no campeonato depois de Indianápolis, eu ia rir da sua cara. Então isso abriu uma possibilidade para nós, porque os caras que dominavam estão muito para trás, e os caras que estão na frente não são tão constantes. Isso abre o campeonato para qualquer um.”
“Minha meta principal, agora, é construir uma equipe, se Deus quiser na KV, como uma Ganassi, uma Penske. É o meu projeto”
Mesmo sendo a KV então uma equipe quase sem estrutura, Tony estreou no time em 2011 com um pódio em São Petersburgo. (Foto: Mike Ehrmann/Getty Images)
O que quer dizer, então, que não é impossível pensar que Tony possa reatar o laço com a tal Andretti que o deixou na mão.

“Nada é impossível. Mas eu acho muito difícil, porque hoje ele tem três pilotos muito bons. A equipe está muito boa. Ele não precisa do Tony lá. Ele não vai mandar o Hunter-Reay nem o [James] Hinchcliffe embora porque são pilotos que estão ganhando corrida. É aquela coisa do 'timing' da história, é o ciclo. Esses pilotos vão embora e vão entrar outros. Esse ciclo está no meio desses caras. Por que é que o cara vai mandar o Hunter-Reay embora e me colocar? Não tem por quê. A não ser que ele faça um quarto carro, a gente arrume um patrocínio, eu leve metade, leve a Itaipava, que está superempolgada com a história... Quem sabe? Mas aí eu continuo pagando, e se for para continuar pagando, prefiro tentar fazer uma coisa muito sólida onde eu já estou, porque construí minha casa lá. O combinado é três anos lá, e agora que a gente acertou um pouquinho, vamos melhorar. Não dá, também, para abandonar o negócio.”

E com a evolução já falada, a KV não é aquela pequena que se mostrou no ano passado. “A gente não está tão atrás em termos de acerto, mas nossa equipe ainda continua sendo pequena. A gente não tem o mesmo número de pessoas que eles têm. São coisas que ainda faltam. Mas acho que a gente não está tão atrás deles”, diz. E se percebe que os anos ao lado de Jimmy Vasser embutiram uma gratidão inerente. Não é qualquer dinheiro ou proposta que vá tirar Kanaan assim, num estalar de dedos, da KV.

“Minha meta principal, agora, é construir uma equipe, se Deus quiser na KV, como uma Ganassi, uma Penske. É o meu projeto. Agora que a gente conseguiu um título tão importante, minha meta é continuar correndo com eles, tentar ganhar o maior número de títulos e corridas e construir uma equipe sólida como tem que ser.”

Tal objetivo, claro, tem de vir com um alto orçamento. “E eu vou ficar extremamente decepcionado e indignado se eu não arrumar emprego para correr no ano que vem, diante de tudo o que a gente está fazendo com a equipe que a gente tem. Eu sei que existem injustiças no automobilismo, mas é uma coisa que eu acho impossível de acontecer, sinceramente. Acharia uma puta sacanagem. Não é que a gente foi lá, os cinco primeiros bateram e a gente ganhou a corrida com um puta rabo. Andamos entre os seis primeiros em todas as voltas da corrida”, desabafa.
 
Kanaan teve como adversários na Indy 500 os velhos conhecidos da Andretti, mas um novato encardido: Carlos Muñoz ficou em segundo e poderia até ter ganhado não fosse a bandeira amarela amiga do fim, na volta 198. “Ele mandou muito bem. Ele é um futuro Montoya da vida”, define Tony.

“Ele se posicionou muito bem. Ele entrou para fazer Indianápolis numa puta equipe, só que a gente tem de ser realista. Ano passado, a mesma equipe tinha outros carros com outros pilotos. Dois anos atrás, a Andretti não conseguiu classificar os carros. O moleque já chegou lá, foi a melhor Andretti na classificação e a melhor na corrida. Você tá brincando? Estamos falando de nego que está lá há anos. O Hunter-Reay é fodido, não é bobo. Eu esperava que ele fosse fazer alguma cagada, e o moleque não fez nada, nenhuma cagada. O meu maior medo era ele fazer uma cagada e me levar junto! Quando ele veio por fora, pensei que ele fosse lançar para me passar por fora.”

Beber o leite derramado é incomparável, algo que o brasileiro não relaciona a nada que tenha feito em sua carreira. “Passou um filme pela minha cabeça no domingo à noite”, admite, pensando no sonho que se transformou em realidade.

“A vida é feita de momentos. Para qualquer pessoa, naquele momento, aquilo foi a melhor coisa que aconteceu. Passam os anos, acontece outra coisa que vai ser a melhor que aconteceu. Eu teria que fazer uma lista, sei lá, dos dez melhores momentos da minha vida. Eu me lembro de quando assinei meu primeiro contrato de Indy, que foi uma coisa muito especial. Quando ganhei minhas primeiras 500 Milhas, lá em Michigan, também foi muito especial. E assim vai. Mas um título como esse, que é uma corrida que é ‘a’ corrida, não tem jeito. Você vira uma lenda do automobilismo para o resto da vida. Com certeza, foi minha maior conquista.”

E há de virem maiores conquistas. Há tempo para isso. 

segunda-feira, julho 15, 2013

Panfletário, crítico de todos os governos

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed754_panfletario_critico_de_todos_os_governos

I. F. STONE (1907-1989)


Por Matías M. Molina em 09/07/2013 na edição 754


O jornalista I. F. Stone levou um convidado para almoçar no National Press Club de Washington. Era um antigo juiz federal, formado em Harvard, antigo deão de uma famosa faculdade de direito e que, até recentemente, ocupara um alto cargo na Secretaria da Guerra. Stone foi informado pelo gerente do clube de que não poderiam ser atendidos: o convidado era negro. Insistiu em que, como membro do clube, tinha direito a ser servido. Nenhum garçom apareceu e saíram depois de uma hora. Stone tentou convocar uma reunião especial para discutir o assunto e mudar as regras, mas só conseguiu reunir nove assinaturas. Indignado, pediu desligamento do clube. O episódio ocorreu em 1943.
Quando, em 1981, o National Press Club quis homenageá-lo com um jantar, Stone exigiu que a direção do clube procurasse o convidado negro que fora insultado quase quatro décadas antes e o convidasse – era governador das Ilhas Virgens. Depois, insistiu em que o escritor Edward Said, palestino árabe, fosse incluído na mesa principal.
Stone tem um lugar especial na história da imprensa. É o protótipo do jornalista radical, apaixonado, engajado, pouco propenso a fazer concessões. Perseguiu uma utopia: o socialismo com liberdade. Disse que se tornara radical lendo, quando adolescente, Jack London, Herbert Spencer, Piotr Kropotkin e Karl Marx. Mas a influência principal foram, além de Marx, Thomas Jefferson e a Constituição. Intelectual ativista, conhecia história, literatura, filosofia, política, direito. Tentava dar aos fatos do dia uma perspectiva histórica, com o apoio de vasta cultura humanística. Mas procurava minuciosamente os fatos, apesar dos problemas na vista – as lentes pareciam fundo de garrafa – e no ouvido, obrigando-o a usar aparelho.
Tinha pontos de vista firmes, mas se dobrava ante a evidência dos fatos. Dizia estar preparado para aceitar verdades desconfortáveis e não tinha inibições em mudar de ponto de vista. Alfinetou todos os ocupantes do poder. Partia do princípio de que todo governo é dirigido por mentirosos. Foi um capitalista bem-sucedido e, talvez, o último dos grandes panfletários americanos. Era vaidoso, egocentrista, “prima donna”, autoritário e difícil de tratar.
Morreu em 1989. É considerado exemplo de jornalista investigativo. Foram criados com seu nome vários fundos, prêmios jornalísticos e bolsas de estudo. O interesse sobre sua figura continua atraindo biógrafos. A obra mais recente é American Radical, reeditada no ano passado. Seu autor, D. D. Guttenplan, não é acrítico mas, como os biógrafos anteriores (ver acima), ficou excessivamente fascinado pela personalidade do biografado.
Direito contra direito
Stone nasceu na Filadélfia, filho de judeus ucranianos, em 1907. Seu primeiro nome foi Isadore Feinstein, que mudaria para Isidor Stone, a conselho de um editor; ficou conhecido como I. F. Stone ou Izzy Stone. Autodidata, não chegou a formar-se pela universidade da Pennsylvania. Trabalhou como repórter em jornais locais e foi um precoce ativista político de causas radicais; ele se considerava, quando jovem, um anarcocomunista.
Ante o desemprego e a miséria da Depressão dos anos 30, ficou próximo dos movimentos de esquerda, dos sindicatos e do Partido Comunista. Foi um consciente colaborador, mas sem tornar-se membro, e considerava a União Soviética “um baluarte contra a guerra e a agressão” fascista. O pacto Molotov-Ribbentrop de não-agressão, em agosto de 1939, e a invasão e partilha da Polônia, no mês seguinte, deixaram Stone desorientado e desiludido; Stálin passou a ser o “Maquiavel de Moscou”. Quando a Finlândia foi atacada pela URSS, comparou essa ação ao ataque fascista contra a República espanhola. Desde então, deixou de ser um apologista cego da URSS, mas continuaria a desculpar, durante anos, os excessos do regime. Para ele, a ameaça fascista era mais perigosa que o comunismo; seria mais tolerante com os regimes totalitários de esquerda do que com os da direita. Criticou asperamente os EUA durante a Guerra Fria.
Depois de uma viagem à URSS nos anos 1950, escreveu: “Esta não é uma boa sociedade e não é governada por homens honestos”. Mas acrescentou que jogar toda a culpa em Stálin era obviamente inadequado; o comunista médio estava preparado para acreditar em qualquer coisa sobre qualquer pessoa que diferisse dele no mais mínimo e que, para ele, “a liquidação da oposição não era apenas um dever, mas uma prazer selvagem”. O legado do comunismo no Ocidente, disse, era de uma subserviência absoluta a Moscou. Ainda um ferrenho esquerdista, afirmou que nada acontecera na Rússia que justificasse a cooperação no exterior entre a esquerda independente e os comunistas.
Perseguindo a quimera do socialismo com liberdade, Stone depositou esperanças no regime comunista da Iugoslávia de Tito, que rompera com a URSS e seguiu um caminho independente para o socialismo, mas percebeu que se tratava, igualmente, de um regime totalitário.
Outra decepção foi o Estado de Israel. Visitou a Palestina em 1945, na época sob mandato concedido pela Sociedade das Nações em 1922 à Inglaterra, que os judeus queriam transformar em sua pátria. Stone, “um devoto judeu ateu”, disse que na Palestina “um judeu pode ser um judeu. Ponto. Sem desculpas, sem demorados argumentos sobre se os judeus são uma raça, uma religião, um mito, um acidente. Ele não precisa explicar nada, ele se sente profundamente em casa.”
Mas percebeu o perigo da insistência dos judeus em terem um Estado próprio. “Sou judeu, me enamorei da Palestina. Quero desesperadamente ajudar os judeus sem lar da Europa Central e Oriental a encontrar um lar aqui (...) Não os culpo por se recusarem a aceitar um status inferior num Estado árabe (...) Mas igualmente não culpo os árabes da Palestina por lutarem contra um status inferior num Estado judeu.” Sua solução era um Estado binacional. A proposta não agradou a nenhum dos dois lados.
Suas reportagens da Palestina dobraram a circulação do PM, o jornal vespertino de Nova York em que trabalhava. Cobrindo o julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg, escreveu: “Meus pais nasceram na Rússia. Se não tivessem emigrado na virada do século para a América, eu poderia ter ido para as câmaras de gás”.
Em 1946, Stone participou da viagem ilegal de um navio que levou imigrantes judeus clandestinos à Palestina, burlando as cotas de imigração fixadas pelos ingleses. De novo, a circulação de PM disparou com suas reportagens. Escreveu um livro sobre a viagem, “Underground to Palestine”. Cobriu de maneira muito parcial a guerra de 1948 e a independência de Israel e esteve ao lado do primeiro-ministro David Ben-Gurion quando este assinou a Declaração do Estado de Israel, em maio de 1948. Chegou a pensar em mudar com a família para o novo país.
Durante a guerra de 1956, de Israel, Inglaterra e França contra o Egito, o sentimento tribal prevaleceu: “Porque tantos laços me ligam a Israel, estou preparado para apoiar uma guerra preventiva. Festejo quando meu lado ganha. Embora pregue a colaboração internacional e apoie a ONU, procuro para Israel a escusa de que os nacionalismos guerreiros sempre encontram escusas para romper a paz (...). É assim que sempre foi e é assim como começa, e ofereço a palha no meu próprio olho”. Também escreveu que Israel ganharia essa guerra, a próxima e a próxima. “Mas haverá guerras e guerras e guerras, até que Israel chegue a um acordo com os palestinos. O caminho para a paz está no campo de refugiados palestinos”.
Depois da vitória de Israel na guerra de 1967, insistiu em que o triunfo tornava a conciliação com os árabes mais urgente e que o futuro e a paz mundial pediam um acordo geral e final para o problema palestino e que o ponto principal estava em encontrar novos lares para os refugiados árabes, alguns dentro de Israel, outros fora, com a compensação para as terras e propriedades perdidas. Isso, disse, seria mais importante e mais permanente que qualquer vitória militar. Segundo ele, o conflito árabe-judeu era uma tragédia, a luta de direito contra direito. Foi criticado por intelectuais judeus. A respeito dos ataques palestinos contra Israel, disse que “as guerrilhas árabes estão fazendo contra nós o que nossos terroristas e sabotadores do Irgun, Stern e Haganah fizeram contra os ingleses”.
Uma duríssima reação contra ele, até o fim de sua vida, por parte de vários escritores judeus, era previsível. Foi acusado de defender a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e de pregar abertamente que todos os judeus de Israel fossem massacrados. Mas algumas sinagogas dos EUA pediram que fizesse palestras. Numa delas, disse: “Não estamos lutando contra Adolf Hitler. Somos um povo irmão lutando pela mesma terra”. Segundo seu biógrafo, os principais críticos não eram mais os direitistas, mas os judeus.
Mudança de maré
Desde que largara a universidade para ser jornalista, Stone trabalhou em publicações de esquerda. Escreveu para as revistas The Nation e The New Republic e foi repórter e editorialista de diários como New York Post e PM e de seus sucessores, New York Star e Daily Compass. Quando este jornal fechou, em 1952, ele não encontrou lugar para trabalhar. Era a época da caça às bruxas do senador Joseph McCarthy, por quem era visto como um perigoso subversivo. Estava também na mira de Herbert Hoover, o vingativo e arbitrário diretor do FBI, que o mantinha sob estreita vigilância. Todos seus passos eram seguidos, sua correspondência lida, seu lixo revirado, seu telefone grampeado. A agência sabia que livros ele lia e qual era seu prato favorito nos restaurantes. Sua ficha tinha 6 mil folhas, três vezes mais que a de Al Capone. Foi proibido de viajar ao exterior.
Com a indenização recebida do último jornal em que trabalhou e um pequeno empréstimo de um amigo, decidiu lançar seu próprio jornal, o I. F. Stone's Weekly, um semanário de quatro páginas, conteúdo radical e apresentação conservadora, sem títulos sensacionalistas. Usando o “mailing list” dos jornais em que tinha trabalhado, conseguiu 5 mil assinantes, que pagaram US$ 5 cada. Entre os primeiros estavam Albert Einstein, Eleanor Roosevelt, Bertand Russell. Ele era o publisher, repórter, redator, revisor e levava pessoalmente os exemplares ao correio. Sua mulher, Esther, administrava a empresa.
Não tinha fontes exclusivas e se recusava a participar de entrevistas “off the record”. Segundo ele, os repórteres das agências ou dos grandes jornais logo ficavam cativos do Departamento de Estado ou do Pentágono, que contam com uma legião de assessores de imprensa, cuja função é dar forma favorável à informação, e têm meios de punir o jornalista que sai da linha. “Quando o secretário de Estado convida você para almoçar e pede sua opinião, você já está no bolso”, dizia.
Preferia garimpar informações ignoradas por outros repórteres em documentos oficiais, estudos, estatísticas, em depoimentos no Congresso, na leitura de The Congressional Record e dos principais jornais. Procurava também o “detalhe significativo”, o fato negligenciado que ilumina uma situação. Usava as fontes oficiais para mostrar as contradições da linha oficial. Tentava fazer uma publicação bem escrita, com um tom pessoal e um toque de humor. Dizia que “os repórteres do 'establishment' sabem, sem dúvida, muitas coisas que não sei. Mas muito do que eles sabem não é verdade”.
Em grande parte, sua fama atual se deve ao êxito do I. F. Stone's Weekly, lançado em janeiro de 1953. Deu, persistentemente, informações que mais ninguém tinha e se tornou leitura obrigatória nas embaixadas e no corpo diplomático. É considerado o “primeiro blogueiro” da imprensa americana.
Durante a guerra do Vietnã, informou que 95% das armas usadas pelos vietcongs não tinham sido fornecidas pela China ou a União Soviética, mas eram americanas, entregues aos guerrilheiros pelas tropas do Vietnã do Sul. A fonte: dados oficiais enterrados no anexo de um documento do Departamento de Estado.
Quando os EUA negociavam com Moscou um acordo para monitorar testes nucleares, Edward Teller, o “pai da bomba de hidrogênio”, e a Comissão de Energia Atômica, contrários ao acordo, afirmavam que os testes só poderiam ser detectados dentro de um raio de 200 milhas (320 km). Stone, com base em medições oficiais, escreveu que testes foram detectados a uma distância de 2.300 milhas (3.680 km). O acordo foi assinado.
Por ocasião de um conflito naval no Golfo de Tonkin, durante a guerra do Vietnã, o presidente Lyndon Johnson, alegando que navios americanos tinham sido atacados, conseguiu do Congresso aprovação para estender as hostilidades ao Vietnã do Norte. O semanário mostrou que as provas usadas pelo governo eram falsas.
A circulação cresceu continuamente e o semanário chegou a tornar-se um excelente negócio. Com a mudança da maré política, nos anos 1960, Stone foi um herói popular para os estudantes que se opunham à guerra do Vietnã e seu prestígio cresceu para os defensores dos direitos civis e da igualdade racial.
Depois de 19 anos, cansado, ele parou a publicação de seu jornal, quando tinha 70 mil assinantes, e cedeu o “mailing list” à The New York Review of Books, para quem escreveu profusamente.
Liberdade para discordar
Livre da obrigação de editar uma publicação, voltou-se para uma antiga obsessão: pesquisar a liberdade de pensamento e de expressão através da história. Estudando a antiguidade clássica, na qual, segundo ele, começaram essas liberdades, ficou intrigado com uma questão: por que uma democracia como a ateniense, que cultuava a liberdade de palavra e em que todas as questões eram publicamente debatidas, condenou Sócrates a beber cicuta por exercer essa liberdade? Stone considerou contraditórias e insatisfatórias as explicações existentes e, não querendo depender de traduções, aprendeu grego clássico para ter acesso direto às fontes, no original. Montou uma vasta biblioteca de obras em grego, latim, inglês, alemão, francês e se dedicou a estudar a questão. (Curiosamente, a dedicação foi criticada por intelectuais judeus, para quem o helenismo era incompatível com o hebraísmo). O resultado foi uma obra, O Julgamento de Sócrates.
Segundo Stone, Sócrates era profundamente hostil à democracia ateniense. Ele pregava o poder absoluto, rejeitava o debate público e desprezava o homem comum. Seus discípulos viam a democracia ateniense com desprezo. Dois deles seguiram seus ensinamentos e ajudaram a instalar em Atenas uma ditadura sangrenta, dominada por uma oligarquia, os Trinta Tiranos, que tornou a cidade indefesa ante os ataques de sua inimiga Esparta. Quando a democracia foi restaurada, Sócrates foi julgado como inimigo do povo. Stone afirma que o próprio Sócrates manipulou o júri, para ser condenado, e que ele teve a possibilidade, que recusou, de optar pelo exílio. Precisava tornar-se um mártir mediante esse sacrifício que, de acordo com Stone, foi um crime trágico, que “deixou uma mancha perpétua na democracia”. Ainda segundo Stone, teria sido fácil livrar Sócrates da pena de morte, invocando a liberdade de expressão em que se baseava a democracia ateniense. Tanto Sócrates como Stone criticaram profundamente o país em que viveram e ambos se tornaram indesejáveis para o Estado.
Stone morreu em julho de 1989, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim e do fim do socialismo soviético, que tanto o entusiasmara quando jovem e o decepcionara ao longo da vida. Até o fim, afirmou que nenhuma sociedade pode ser sadia sem liberdade de expressão para a independência criativa e para discordar.
***
Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição

domingo, julho 14, 2013

A SITUAÇÃO ATÉ AQUI

Fórmula 1 agora só no dia 28, com as 70 voltas do Grande Prêmio da Hungria, no circuito de Hungaroring, um dos circuitos mais travados da categoria.
Para qualquer cronista, assunto não é problema. Inclusive, a falta de assunto pode servir muito bem como ponto de partida para um texto. O problema é que, dando uma boa olhada nas matérias referentes à F-1, os temas não rendem.
Exemplo: “Venda de Nürburgring gera debate sobre verba pública e polêmica”. E no subtítulo: “Moradores de Nürburg estão insatisfeitos com a decisão do governo de colocar circuito à venda”. Notícia voltada a um público restrito. Sem dúvida alguma atrairia muito mais atenção se tivesse sido divulgada durante a corrida da semana passada.
O GP da Alemanha entrou para a história. Quem venceu, venceu. Quem não venceu terá (ou não) outra chance no ano que vem. E ponto final.
Por essas e por outras, entendi por bem fazer um balanço do que aconteceu no Circo da Velocidade até este momento. E o que tem acontecido reforça a certeza de que Sebastian Vettel será o próximo tetracampeão mundial e que não há, no grid, piloto capaz de impedi-lo de alcançar esse objetivo.
Os números, então, lhe são altamente favoráveis. Ele foi terceiro na Austrália; venceu em Sepang; chegou em 4º na China (mas ficou com a volta mais rápida, no 53º giro); cruzou a linha de chegada em primeiro no Bahrein; 4º na Catalunha, onde (pasmem!) foi superado por Felipe Massa, o terceiro; 2º em Mônaco; imbatível no Canadá e na Alemanha. Seu único fracasso ocorreu na Inglaterra porque, afinal, nem tudo pode ser perfeito, nesta vida.
A pontuação dos três primeiros na classificação do Mundial de Pilotos é a seguinte: Vettel (157 pontos), Fernando Alonso (123) e Kimi Raikkonen (116). O segundo colocado é o melhor que a Ferrari tem a oferecer, nesta temporada. Seu companheiro de equipe amarga o sétimo posto (ridículos 57 pontos) e não há perspectiva alguma de melhora. E o mais engraçado é que, muito antes de os 22 carros largarem para disputar a primeira etapa, em Albert Park, muitos apontavam a continuidade da evolução dos bólidos da Mercedes e aconselhavam os ferraristas a trabalharem bastante no sentido de colocar no grid carros que estivessem em igualdade de condições com os da Red Bull.
Como se vê, as sugestões não foram acatadas.
Por último: Kimi Raikkonen na RBR em 2014. Ao que parece, em time que está ganhando se mexe, sim, senhor. Sai Mark Webber – um ótimo piloto, mas não soube aproveitar as excelentes condições à sua disposição para escrever seu nome entre os notáveis. Entra o Homem de Gelo – campeão em 2007 e presente na zona de pontuação há 26 corridas.

A comparação chega a ser até injusta.

sábado, julho 13, 2013

Conheça Lila Azam Zanganeh, a iraniana que virou musa da Flip

http://ela.oglobo.globo.com/vida/cultura-em-vida/conheca-lila-azam-zanganeh-iraniana-que-virou-musa-da-flip-9023203

Escritora bateu recorde de vendas com o livro “O encantador - Nabokov e a felicidade”

Lila Azam Zanganeh: assustada com o título de musa Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Lila Azam Zanganeh: assustada com o título de musaANA BRANCO / AGÊNCIA O GLOBO
RIO - Quando foi chamada de musa de Paraty, a escritora Lila Azam Zanganeh ficou com medo.
— Eu não sabia o que significava. Depois que me explicaram, eu perguntava por que me consideravam musa. Afinal, somos nós, os escritores, que precisamos delas — comenta Lila.
A iraniana de 36 anos, que fugiu para Paris aos 2 anos (“Peguei o voo com a minha mãe no dia que estourou a Revolução”), e que aos 20 escolheu NY para trabalhar (aos 23 anos já dava aula de Literatura e Cinema franceses em Harvard), bateu recorde de vendas com o seu livro “O encantador — Nabokov e a felicidade”, deixou homens e mulheres apaixonados (há quem diga que tenha sonhado com a moça), ganhou presentes (de chocolates e cartas até uma joia de um admirador mais ousado) e ainda mostrou que sabe cantar entoando “Trem das onze”, de Adoniran Barbosa, durante o bate-papo com Francisco Bosco na Flip. O segredo? Ela garante que são os olhos.
— Minha avó dizia que era a coisa mais importante na vida. O olhar sela uma troca, uma conexão. O segredo está nisso — ensina. — Além disso, sou eu mesma. Isso foi o que a minha mãe me alertou desde quando eu era pequena. Sigo esse conselho quase como se fosse algo espiritual.
Ela pode até não saber, mas é musa, sim. Daquelas que cativa pela simpatia e inteligência, tem um sorriso largo, sobrancelhas marcantes, que não precisa de maquiagem, apenas um lápis leve nos olhos, faz a própria trança no longo cabelo acobreado escuro, fala na altura certa, anda de salto nas pedras pé de moleque de Paraty, ou da orla do Rio, como alguém que caminha num piso lisinho, e que cruza as pernas longas e magras até enroscar.
— Acho cabeleireiro a coisa mais chata do mundo. E demora, não tenho tempo livre para gastar. Por isso sempre uso trança. É mais fácil, e perfeita para a umidade. Meu cabelo fica assim (imita uma juba de leão) se deixo solto. E, na verdade, não acredito nos produtos de beleza. Me arrumo em cinco minutos — admite ela, que tem uma tática para não comer besteira o dia todo: está sempre com um saquinho de castanha-do-pará na bolsa.
E ela ainda não se faz de difícil, algo típico das musas anteriores da Flip. Lila aceita todo o tipo de convite com empolgação. O nosso foi para, poucas horas antes de ela ir para o aeroporto, conhecer um tradicional botequim, o Jobi, no bairro que ela acha uma delícia, o Leblon. Alguma restrição alimentar? “Não”. Um chope? “Prefiro um suco para aproveitar o doce que só as frutas daqui têm”. Foram pedidos, então, os clássicos pastel de carne-seca, bolinho de camarão com catupiry e suco de abacaxi sem açúcar. Guardanapos de um lado, pimentinha do outro, o papo foi indo.
— Adoro a comida brasileira. A feijoada me lembra um prato clássico do norte do Irã. Durante a Flip, comi a moqueca vegetariana com palmito e banana do restaurante Banana da Terra. Tão boa que fui lá no dia seguinte e pedi a mesma coisa. Parecia criança com paladar infantil — conta, enquanto dá uma mordida no pastel. — Beber, não bebo muito. Tomei várias caipiroscas nessa viagem, mas nunca fico bêbada. Quer dizer, fiquei bêbada uma única vez na vida, foi de cachaça, na Lapa, há um ano.
Sem saber como explicar o sucesso arrebatador, ela tenta resumir tudo como um milagre. Difícil encontrar a palavra certa para descrever o frisson repentino de um livro que foi rejeitado repetidas vezes (ela ficou mais de três anos levando “nãos” e explicando que não queria escrever uma versão de Lolita iraniana, como pediam os marketeiros das editoras) virar best-seller da feira literária, e no embalo, alavancar a venda do livro de contos de Nabokov.
— O meu livro é esquisito, cada capítulo é uma ideia da felicidade de acordo com Nabokov, não imaginaria nunca esse sucesso. Achei o máximo que tenha alavancado também a venda do livro de contos dele — anima-se, avisando que a felicidade verdadeira está no olhar de quem vê. — No modo como levar a vida. É uma opção. Eu posso tanto ver esse lugar que estamos como algo cheio de carros, barulhento e poluído, ou uma mesa de botequim tradicional, cercada por árvores exóticas, e experimentando novidades. Decido por me maravilhar com tudo. Nabokov era assim.
Verdade. Quando seu Blackberry quebrou assim que chegou ao Rio, ficou sem poder acessar a internet e mandar mensagem. Teve que usar um celular antigo, que só faz ligação. Quase se desesperou. Antes chegar a esse ponto, pensou que seria maravilhoso, como “um presente do destino”, ficar sem um aparelho cheio de aplicativos. Está até pensando em aderir por um tempo a um celular sem internet.
— Nada é por acaso. Eu estava muito dispersa. Para ler ou escrever, preciso bloquear a internet, qualquer dúvida vira desculpa para pesquisar durante horas. Agora não vou poder nem checar pelo celular. Demoro muito para ler tudo que eu quero, não posso desperdiçar tempo — diz ela, que viaja com 20 ou 25 livros na mala. — Sei que não vou dar conta, mas é mania. Odeio tablets, gosto do espaço físico do livro, de anotar e guardar. São objetos de paixão.
Na mala de volta, duas aquisições brasileiras: “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera, que conheceu em Paraty e adorou, e “Paisagem com dromedário”, de Carola Saavedra, com quem se correspondia, e que conheceu esta semana na mesa O GLOBO Pós Flip, na Livraria da Travessa.
— É sempre difícil escolher o que vou ler. É algo que pode ficar comigo um mês. Estou lendo textos relacionados ao Renascimento italiano, tema do meu próximo livro, mas acho sempre bom ler o que há de novo, de autores contemporâneos. O livro do Daniel é o primeiro de prosa em português que comecei a ler, estou adorando. Vou ler também os escritos pelo João Paulo Cuenca, que virou um amigo desde que nos encontramos no Hay Festival de Cartagena — conta a escritora, que estuda português desde fevereiro, treinando com um professor da USP, com o namorado brasileiro que conheceu em NY e lendo poesias.
Fechando a conta e voltando para a praia, ela respirou fundo a maresia, comentando que fazia bem para a saúde. Em seguida, cantou a canção “Desafinado”, apenas uma do seu repertório de MPB.
— “Meu comportamento de antimusical” é uma frase linda — declara Lila, que canta música clássica e ópera desde os 16 anos.
Na hora de tirar as fotos, ela fez um pedido: era para tomar cuidado com a sombra que seus cílios enormes fazem embaixo dos seus olhos — Ufa! Ela é gente como a gente.
— Podem ficar parecendo olheiras nas fotos.
Ao fim da sessão, ela se surpreendeu:
— Fico sempre tão feia em fotografias! Até meu fotógrafo americano comenta. Só nas que fiz no Brasil fiquei bem.
Pronto. Já tem desculpa para voltar.


O que procuram esses jovens?

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-que-procuram--esses-jovens-,1052992,0.htm

13 de julho de 2013 | 2h 07

DOM ODILO, P. SCHERER* - O Estado de S.Paulo
Aproxima-se a Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro (JMJ-Rio 2013). Foram quase dois anos de intensa preparação desde que o papa Bento XVI anunciou, em julho de 2011, no final da Jornada de Madrid, que a próxima seria realizada no Rio!
No dia 18 de setembro sucessivo começou a movimentação para a JMJ-Rio 2013, com a acolhida da cruz da Jornada e do ícone de Nossa Senhora, em São Paulo. Iniciou-se, então, a peregrinação desses sinais de Jesus e de sua Mãe, que percorreram todas as 274 dioceses do Brasil, encontrando as realidades mais diversas vividas pelos jovens: igrejas, escolas e universidades, prisões, locais de recuperação de dependentes químicos, favelas e situações de degrado, como a "cracolândia", em São Paulo.
Agora esses mesmos sinais já estão no Rio de Janeiro, a esperar a chegada dos jovens peregrinos que para lá acorrerão em grande número, procedentes de todo o Brasil e também do exterior. Quase 200 países estarão representados! Dia 22 chegará o papa Francisco, peregrino também ele, para o abraço do Cristo Redentor e o encontro com essa multidão, que mostrará o rosto jovem da humanidade e da Igreja Católica.
As JMJs são pensadas e organizadas como peregrinações, com um significado primariamente religioso, sem deixar de ter múltiplos outros significados. Assim, também estão impostados os principais momentos do programa da Rio 2013, que se estende de 22 a 28 de deste mês. Haverá três manhãs de "catequeses", oferecidas em dezenas de línguas e em cerca de 200 locais diversos; elas proporcionarão aos jovens peregrinos a reflexão sobre alguns aspectos da sua vida, à luz da fé cristã. Não faltarão iniciativas culturais e de solidariedade social.
Sucessivamente, os encontros com o papa Francisco terão o mesmo objetivo: aprofundar a experiência do encontro da grande família humana, unida por laços comuns muito profundos, cujo movente será a experiência religiosa e eclesial, mas cuja base, de fato, é a nostalgia latente no coração humano (ou será utopia?) de ver a família dos povos reunida, reconciliada e vivendo em paz, malgrado todas as diferenças nela existentes.
Os pontos culminantes desta JMJ serão a grande vigília de jovens com o papa Francisco no sábado, dia 27, e a missa no "campo da fé" na manhã seguinte. Nesses momentos intensos, mais uma vez os jovens farão a experiência da peregrinação, com todos os esforços e sacrifícios que isso geralmente requer: sair de casa e pôr-se a caminho para alcançar uma meta; encontrar outros companheiros andando na mesma direção; conversar com algum desconhecido que se encontre no mesmo trecho e busca a meta comum; partilhar o pão e a água, socorrer quem já se cansou ou machucou o pé, festejar a chegada... Tudo isso não é uma parábola da própria vida?
Somos todos peregrinos e trazemos no mais íntimo de nós o desejo de chegar ao lugar do nosso descanso, à paz e felicidade tão sonhadas, meta que move nossos passos todos os dias, mesmo sem termos consciência disso. Os jovens da JMJ farão essa experiência de peregrinação na fé, ao encontro dos outros e de si mesmos, ao encontro de Deus, que os atrai de maneira sutil, mas irresistível, meta final da existência humana.
Mas esta peregrinação também é movida pela busca de fundamentos sólidos, que deem consistência e sentido ao convívio humano, em que as diferenças não sejam vistas como barreiras ou fossos intransponíveis, mas como riquezas a compartilhar. Não é também algo disso que se percebe nas manifestações de rua das últimas semanas, com grande adesão de jovens, que descem às ruas e se põem em marcha? Aonde querem chegar?
Protestam contra o que não está bem na política, na economia, no ordenamento social; acreditam que as coisas podem melhorar e têm vontade de contribuir para isso... Nem sempre os clamores estão plenamente afinados, mas é certo que revelam uma desarmonia profunda no convívio político e social brasileiro. Há a percepção de uma meta que não é simplesmente o vão livre do Masp, na Avenida Paulista, mas o Brasil e o mundo melhores do que estão sendo. Os jovens dão mostras de que não se satisfazem em navegar na rede nem se conformam com o tentador aceno das praias da corrupção, do degrado moral e cívico. São peregrinos da verdade e da justiça. Sinais de esperança!
A Jornada de 2013 já estava prevista há cerca de três anos e os jovens, por certo, não irão ao Rio de Janeiro para protestar contra o governo brasileiro nem darão vazão às insatisfações com a política de seus países de origem. Eles irão ao encontro do Cristo Redentor, que os espera com os braços em cruz para o amplexo da vida e da esperança. No final da sua peregrinação encontrarão a mesma cruz peregrina que foi antes ao encontro deles nos muitos espaços e ambientes onde vivem. Cruz de madeira, tosca, nada brilhante, como foi a de Cristo; como as cruzes que abraçamos cada dia...
Em torno dela se juntarão, às centenas de milhares, com o papa Francisco, para proclamar a sua fé no Deus da vida e da esperança; fé que também é necessariamente um compromisso pessoal e comunitário com a edificação de um mundo melhor, como eles bem o sabem sonhar, movido pelo amor, sem mais violência nem cruzes que esmagam!
E o que esperar desta JMJ? O mesmo que se espera de um campo semeado: quem pode garantir seus frutos? O tempo e a paciência os mostrarão. Sem semear não há esperança de colher. Vale a pena investir nos jovens.
E o Brasil terá muito fruto a colher. Serão centenas de milhares de jovens a percorrer o País, em direção ao Rio de Janeiro. As imagens de nosso povo e de nossa cultura, recolhidas nessa peregrinação, serão levadas para todo o mundo. E isso tem um valor inestimável! 
 * CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

Blockbuster do Renascimento chega a São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1310394-blockbuster-do-renascimento-chega-a-sao-paulo.shtml

13/07/2013 - 03h06

SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Numa versão reducionista da história, Florença criou o desenho e Veneza, a cor. Mas entre uma e outra simplificação, o Renascimento, movimento que mudou para sempre as artes visuais, na verdade se desdobrou numa ampla gama de escolas e estilos.
Foram dois séculos de renovação estilística que tiraram o mundo das trevas da era medieval e propagaram a luz da filosofia humanista --o mesmo facho luminoso, claro e preciso que recobre as figuras e construções das primeiras telas renascentistas.
Na mais cara mostra de artes plásticas do país neste ano --R$ 6,5 milhões de orçamento e obras avaliadas em R$ 600 milhões--, o Centro Cultural Banco do Brasil abre hoje em São Paulo um recorte de obras desse período, que vão de 1423 a 1573, num arco de 150 anos da produção de mestres como Michelangelo, Leonardo Da Vinci, Ticiano, Bellini, Rafael e Botticelli.

Exposição "Mestres do Renascimento", no CCBB

 Ver em tamanho maior »
Divulgação
AnteriorPróxima
"Juízo Universal, Pentecostes e Pregação de São Pedro, Ascensão de Cristo", tríptico de Fra Angelico, faz parte da mostra "Mestres do Renascimento", em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo
Estão lá, no quarto andar do museu, alguns dos primeiros experimentos dessa corrente, a ideia de perspectiva clara e absoluta, que esquadrinhava o mundo de acordo com preceitos matemáticos e geométricos muito precisos.
Num afresco de Botticelli, santo Agostinho é retratado estudando, a biblioteca atrás dele recriada em mínimos detalhes e seu rosto aceso, vivo.
"É uma luz claríssima, que toca todos os objetos no quadro", descreve Alessandro Delpriori, um dos curadores da mostra. "Esse é um bom modelo da escola florentina."
De fato, a terra onde Filippo Brunelleschi projetou a cúpula da catedral da cidade, serviu de berço para o movimento, com a nobreza querendo refundar ali uma nova Atenas, uma cidade movida à luz do rigor matemático.
Nos estudos de Michelangelo para dois portais romanos, isso fica claro pelo resgate que faz das estruturas da arquitetura antiga. São colunas gigantescas, inabaláveis.
Fra Angelico, florentino que trabalhou em Roma a serviço da Santa Sé, mostra bem a transição do período gótico, de figuras toscas e suntuosos fundos dourados, à claridade espartana da geometria.
É talvez nesse ponto que Rafael seja uma figura de transição. Sua perspectiva sem falhas não afoga a beleza da figura humana, muito menos sua carnalidade. É no vermelho profundo do manto e no rosto de doçura sublime de seu "Cristo Abençoando", de 1506, que o pintor de Urbino revela sua abertura às outras escolas renascentistas.
Editoria de Arte/Folhapress
COR E 'SFUMATO'
De certa forma, o rigor de Florença vai dando lugar a um derretimento dos traços e uma overdose de tons cada vez mais vibrantes na rota em direção ao norte, chegando ao ápice da cor em Veneza.
Na "Anunciação" de Giovanni Bellini, de 1489, as cores são estridentes. Embora o ambiente atrás das figuras siga as leis da geometria, é a intensidade da cor que parece importar. Também o tecido anguloso das roupas do anjo lembra papel amassado, de forte luminosidade, aceno a pintores nórdicos e flamengos, de traços mais duros.
Também no norte, em Milão, terra de Da Vinci, esse diálogo com os pintores nórdicos foi mais intenso, com a diferença que o autor da "Mona Lisa" soube reinventar a representação da paisagem com o "sfumato", técnica que dava a impressão de uma luz mais difusa, com personagens envoltos na atmosfera.
Embora sua "Leda e o Cisne", que está na mostra, ainda não tenha esse efeito, artistas do norte como Ticiano também souberam mergulhar personagens nessa luz mais natural, como se soprados por uma brisa solar.

quarta-feira, julho 10, 2013

O ÚLTIMO CONTRATO DE SENNA COM A LOTUS NA ÍNTEGRA

http://tazio.uol.com.br/blog/blog-do-tazio/o-ultimo-contrato-de-senna-com-a-lotus-na-integra/

Ayrton Senna, durante o GP do Brasil de 1987, com a LotusAyrton Senna, durante o GP do Brasil de 1987, com a Lotus
A internet não para de nos surpreender ao expandir horizontes e proporcionar coisas inimagináveis quando se trata de mundo real. Você, douto leitor, que está aí navegando pele rede, responda: quando, na sua vida, você achou que teria oportunidade de ler a íntegra de um contrato de Ayrton Senna com uma equipe de F1? Pois é, nem eu.
Pois você terá essa chance agora. Por indicação de um leitor, o jornalista Fábio Seixas encontrou o último acordo formal entre o piloto brasileiro e a equipe Lotus, válido para as temporadas de 1987 e 1988 da F1. O arquivo foi publicado pelo Legacy Tobacco Documents Library, site mantido pela Universidade da Califórnia e que agrupa uma série de documentos históricos relacionados à indústria de cigarros. Como se sabe, a equipe inglesa, naquela época, passou a ser patrocinada pela JR Reynolds, companhia dona da marca Camel.
Conforme Seixas pontua em seu texto, há vários pontos interessantes a serem destacados. O contrato é datado de 1º de janeiro de 87 e assinado por um advogado do futuro tricampeão, que tinha procuração para tal. As partes envolvidas são a Team Lotus International Limited e a Ayrton Senna da Silva Promotions, empresa criada por ele e com sede em Nassau, nas Bahamas, um paraíso fiscal (fugindo dos impostos brasileiros, hein?).
A validade era até o fim daquele ano, com a opção, conforme previsto no artigo 9.2, de renovação até o dia 31 de dezembro de 1988. Também já estava estipulada uma data para rescisão sem pagamento de multas: 8 de agosto de 87. Curiosamente, um dia depois, 9 de agosto, o nome de Senna já estava sendo vinculado à McLaren, no GP da Hungria. Como as partes estavam proibidas de negociar com terceiros antes desse período, pressupõe-se que Ayrton descumpriu o acordo ao iniciar as conversas com a concorrente de Ron Dennis anteriormente.
Como obrigações por parte do piloto, estão o direito exclusivo da Lotus em explorar seu “nome e fama”, o comprometimento de se mudar da Inglaterra por questões fiscais (por isso, ele foi morar em Mônaco), e a garantia de participar de todos os eventos solicitados por patrocinadores da equipe (Elf, Camel e Honda), desde que avisado com dez dias de antecedência. Senna só não era obrigado a participar de propagandas de cigarro.
Ayrton Senna e Nelson Piquet no pódio do GP dos EUA de 87: por contrato, Senna passou a temporada inteira sem usar o famoso boné do Banco Nacional
Senna e Nelson Piquet no pódio do GP dos EUA de 87: por contrato, Ayrton passou a temporada inteira sem usar o famoso boné do Banco Nacional
Além disso, ele ficou proibido de usar bonés com patrocinadores pessoais (como sempre fez na McLaren, em relação ao Banco Nacional), tendo sempre de vestir bonés com as marcas escolhidas pela própria equipe (nas cerimônias de pódio, seria sempre o da Goodyear). O contrato também o restringia de praticar três específicas modalidades esportivas – motociclismo, esqui e de asa delta -, e o comprometia a “manter um padrão físico que comensure com as demandas físicas cobertas pelas atividades deste acordo durante tempo integral”.
Em contrapartida, o time lhe pagou um salário total de US$ 1,5 milhão (R$ 3,4 milhões) naquela temporada, com previsão de aumento para US$ 1,65 milhão caso a opção de renovação fosse acionada. Havia ainda um bônus de US$ 4 mil por ponto marcado (o que justificaria a campanha consistente do brasileiro, que deixou de partir para o “tudo ou nada”, como fazia em anos anteriores. Ao longo do ano, ele anotou 57 pontos, ficando em terceiro lugar no Mundial de Pilotos e recebendo US$ 228 mil extras por isso). Para 88, a cifra seria aumentada para US$ 5 mil por ponto. Caso fosse campeão, Senna também seria contemplado com outra bonificação, de US$ 250 mil.
Senna ao lado de seu companheiro de Lotus em 87, Satoru Nakajima: o acordo do brasileiro garantia a ele tratamento de primeiro piloto
Senna ao lado de seu companheiro de Lotus em 87, Satoru Nakajima: o acordo do brasileiro garantia a ele tratamento de primeiro piloto
A Lotus também custeou US$ 40 mil para bancar as despesas de Ayrton com viagem e estadia durante as 16 etapas de 87, e firmou um seguro de vida para o piloto no valor de 50 mil libras (corrigido, o valor ficaria próximo a 100 mil libras atualmente, ou R$ 335 mil). Ainda, havia uma cláusula que previa a divisão de prêmios extras oferecidos pelos promotores de corrida, em 45% para cada parte. Os demais 10% iam para os mecânicos. Senna era liberado a estampar patrocinadores pessoais em seu capacete e macacão e, por fim, a equipe possuía prioridade sobre os troféus, mas aceitava dividi-los em 50% para cada lado.
A mais interessante das cláusulas, contudo, talvez seja a 4.3, que estabelece o seguinte: “[A Lotus se compromete a] usar seus maiores esforços para garantir que os carros oferecidos ao piloto [Senna] sejam sempre o mais semelhante possível daqueles oferecidos para qualquer outro piloto da Lotus na F1. Durante 1987 e 1988, o status do piloto [Senna] será o de número 1 e o piloto vai receber a correspondente prioridade (se aplicável) na alocação de equipamentos durante 1987 e 1988″. Ou seja: como qualquer piloto com ambições fortes (Schumacher, Prost ou Alonso), Senna também se resguardava contratualmente de sua posição dentro do time.
A interessante cláusula 4.3 do contrato
A interessante cláusula 4.3 do contrato
Há outra informação importante: o contrato garantia a presença da Honda como fornecedora de motores somente até o fim de 87. Dessa forma, essa incerteza sobre a permanência ou não dos propulsores japoneses provavelmente teve peso na escolha de Senna para se mudar à McLaren, levando consigo os nipônicos. Isso, claro, aliado ao ainda mais gordo salário que passou a receber em Woking, que só não foi maior porque Dennis ganhou um cara ou coroa e pôde pagar o salário que a equipe queria, não aquele que o brasileiro exigia. A Honda só seguiu com a Lotus em 88 por conta do ingresso de Nelson Piquet.
Para ler o contrato na íntegra, em inglês, clique aqui.

Leonardo Felix