segunda-feira, novembro 16, 2009

Clarice Lispector, o sol escuro do Brasil

THE NEW YORK TIMES
Tomás Eloy Martinez

Há pouco mais de meio século, a força de transformação da literatura da América Latina assombrava os países centrais, que haviam alcançado a modernidade graças ao desenvolvimento de suas indústrias, suas descobertas tecnológicas, suas redes de comunicação, seus trens e aviões. Mas sua linguagem e sua capacidade de narrar a sociedade estavam apergaminhadas, cansadas, e supriam a falta de ideias e sangue novos com jogos teóricos que não levavam a lugar nenhum. Na América Latina, o afã de criar esse mundo novo expresso pela revolução cubana parece ter se concentrado na literatura.

Enquanto os países do Rio da Prata, México e Colômbia respiravam a plenos pulmões os novos ares, o gigante Brasil mantinha-se impermeável a tudo o que não vinha de si mesmo. O Brasil mudava de pele, mas se alimentava de sua própria música e de sua própria herança literária. Certa vez perguntaram a João Gilberto por que ele fazia tão poucos shows no estrangeiro, onde sua música tinha um sucesso clamoroso.

"Para quê?", respondeu. "No Brasil meu público é tão numeroso como no resto do mundo e, além disso, ele me escuta com mais felicidade".

Em meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo o de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que escreveu uma sucessão de obras mestras mediante o simples recurso de observar atentamente a paisagem interior dos pensamentos e dos sentimentos para contá-los de uma maneira incomum, inesperada. Um de seus maiores herdeiros é João Guimarães Rosa, que impressiona mais do que tudo por seu virtuosismo verbal e pelo ouvido finíssimo com que capta a música das vozes do sertão, no nordeste profundo de seu gigantesco país.

Entretanto, a única filha direta e legítima de Machado de Assis é Clarice Lispector, cuja obra misteriosa começa a difundir-se nos Estados Unidos com tanto ímpeto quanto a de Roberto Bolaño. O chileno foi consagrado pela revista The New Yorker, e o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Lispector com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo.

Moore adverte que a fama magnética de Lispector se deve em parte aos estudos sobre sua obra reunidos por Hélène Cixous, a quem as universidades francesas devem o apogeu dos estudos sobre a mulher. Na França, recorda Cixous, a extraordinária abstração da prosa de Lispector fez com que a vissem como uma filósofa. Quando ela assistiu a um encontro de teóricos sobre sua obra, abandonou a sala na metade da homenagem, dizendo que não entendia uma só palavra do jargão.

Uma das primeiras vezes que se ouviu falar de Lispector em Buenos Aires foi no final dos anos 70, quando circulou a lenda de que ela havia se queimado viva em sua casa no Rio de Janeiro.

Em 1969 o mítico editor argentino Paco Porrúa havia publicado na editora Sudamericana alguns de seus livros: os romances "A Maçã no Escuro", "A Paixão Segundo G.H." e "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", assim como os admiráveis contos de "Laços de Família". Lispector rompia com todas as convenções da arte de narrar e arrancava de cada palavra um tremor secreto, enigmático. Suas revelações eram como as de um teólogo oriental participando de uma dança ritual africana.

Quando a lemos, deslumbrados, na revista "Primera Plana", pensamos que era imperativo viajar para o Rio de Janeiro para decifrar seus segredos. Sara Porrúa, que na época era mulher de Paco, quis ser a primeira nessa busca.

As primeiras notícias que enviou dissipavam a fábula de que Lispector fora queimada viva. Sua cama havia se incendiado acidentalmente quando dormiu com um cigarro aceso. Mas a haviam resgatado a tempo. Sua estranha beleza tártara (os olhos amendoados e rasgados, as maçãs do rosto salientes, a constante expressão de angústia de seu rosto) havia desaparecido quando queimou o lado direito do corpo, imobilizando-lhe o braço. Nada, entretanto, apagava sua paixão por narrar o mundo.

Sara a encontrou mais algumas vezes e, com sua imagem intensa, inesquecível, perdeu-se nas selvas da Guatemala e transformou-se em personagem de Cortázar.

Dar uma ideia de sua imaginação só é possível através de algumas citações. O começo do romance "Uma Aprendizagem..." (1969) é uma frase que vem do nada. A porta de entrada desse livro é uma vírgula: ", estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos...".

Antes desse comentário doméstico e trivial, Lispector surpreendeu o leitor com uma advertência que é também uma afirmação de seu ser:

"Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte que eu. C.L."

E no final de "Água Viva", ergue a voz: "Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto".

Seu desmedido desafio à morte impregna muitas das crônicas reunidas em "Revelación del Mundo", que incluem todas as que escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Outras, inéditas, serão publicadas no ano que vem em espanhol sob o título de "Descubrimientos".

Lispector continua sendo um enigma velado que assombra em cada frase, em cada desvio da vida. Morreu aos 57 anos de um câncer nos ovários, depois de ter passado os últimos anos fechada na solidão de sua casa do Leme, perto das areias de Copacabana.

Seu autorretrato cabe em uma frase: "Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa".

Tradução: Eloise De Vylder

Tomás Eloy Martínez
Analista político e escritor, o argentino Tomás Eloy Martínez é autor de livros como "Vôo da Rainha" e "O Cantor de Tango".

sábado, novembro 14, 2009

O livro que Nabokov não queria que você lesse

RAQUEL COZER
DA REPORTAGEM LOCAL

Vera, mulher de Vladimir Nabokov (1899-1977), foi quem salvou "Lolita" quando o autor começou a pôr fogo nos manuscritos no quintal de casa, em 1950. Ele só via defeitos ali. Publicado cinco anos depois, o romance o consagraria. Agora, leitores de vários países terão acesso a "O Original de Laura", outra obra cujo destino seriam as chamas não fosse a interferência de Vera.

Com uma diferença. Nabokov não só não teve tempo de mudar de ideia quanto à qualidade desses últimos rascunhos como não pôde concluí-los, já que morreu antes. Seu derradeiro pedido à mulher foi que ateasse fogo aos papéis caso o romance não fosse finalizado. Sem coragem para queimá-los, Vera os guardou até morrer, em 1991. Dmitri, filho do casal, manteve desde então a dúvida sobre a publicação.

Em 2008, fechou com as editoras Knopf/Random House (EUA) e Penguin (Inglaterra). Dmitri alega que se trata de um romance "brilhante". A primeira crítica, feita em julho pela "Publishers Weekly" a partir de um trecho, foi negativa (leia ao lado) e alimentou os comentários sobre o interesse financeiro na decisão -sabe-se que, aos 75, debilitado, o filho de Nabokov precisa pagar internações e exames caros na Suíça.

O livro terá lançamento depois de amanhã, num evento em Nova York que contará com a presença do escritor inglês Martin Amis e do irlandês Brian Boyd, mais renomado biógrafo de Nabokov. No Brasil, sai no próximo final de semana, editado pela Alfaguara.

Em entrevista à Folha por telefone, da Nova Zelândia, onde vive, Boyd demonstra sentimentos ambíguos em relação ao lançamento. Ele foi consultado por Dmitri ao longo de todo o processo e chegou a ajudá-lo com ideias para a edição, mas ainda lembra a impressão que teve quando, em 1987, tornou-se a primeira pessoa fora da família a ver os rascunhos.

"Não fiquei bem impressionado. Quando Vera e Dmitri me perguntaram o que deveria ser feito dos manuscritos, falei para eles os destruírem. Tive medo... Não tinha gostado dos últimos romances dele e tive medo de que 'Laura' fosse o sinal evidente do declínio", diz. Boyd ressalva que, naquele momento, só conseguiu ler os rascunhos na frente de Vera, "o que pode ter influenciado no mal-estar em relação ao texto".

Biógrafo muda de ideia
O biógrafo -que hoje edita uma coletânea de cartas de Nabokov- diz pensar diferente agora. "Quando reli o material, em 2001, meu conceito melhorou muito. Não é uma história incrível, como "Ada ou Ardor", mas tem malícia, capacidade de envolver, um jeito de fazer as coisas acontecerem mais rápido do que o leitor pode lidar. Num ponto baixo de sua carreira, Nabokov descobre novas formas de narrar."

O "Original de Laura" tem semelhanças com "Lolita" -envolve a relação entre um homem maduro e uma garota. Flora, cuja vida sexual conturbada levou um ex-amante a escrever escandaloso livro ("Laura"), casa-se com um homem bem mais velho, Philip Wild. Ao longo do livro, Nabokov remete à morte de Wild. Os textos foram escritos em 138 cartões, com situações centrais a partir das quais Nabokov desenvolveria a história. O autor já estava com vários problemas de saúde nos meses em que os rascunhou.

Boyd diz que a edição tem a vantagem de deixar claro que não se trata de um trabalho final. A versão em inglês traz reproduções dos cartões que podem ser retiradas e devolvidas ao livro. No Brasil, o livro sairá com os fac-símiles, em inglês, e a tradução ao lado.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Após susto, Vasco vira, derrota o América-RN e confirma o título da Série B

Raphael Raposo
No Rio de Janeiro

A festa estava toda pronta no Maracanã, mas o América-RN veio para estragá-la. E até conseguiu ao fazer 1 a 0, ainda no primeiro tempo. Porém, mesmo perdendo pênalti (com Elton), o Vasco virou, fez 2 a 1, e, de forma antecipada, conquistou o título da Série B do Campeonato Brasileiro, na noite desta sexta-feira, pela 36ª rodada da competição. A última conquista do Cruzmaltino tinha sido o Estadual de 2003.

Elton e Alex Teixeira fizeram os gols do Vasco, enquanto Lúcio marcou para o América-RN. Com o triunfo, o time cruzmaltino chegou aos 76 pontos e não pode ser mais alcançado por ninguém. Já a equipe potiguar parou nos 42 e segue sua luta contra o rebaixamento à Série C do Campeonato Brasileiro.

"Parabéns para esta torcida maravilhosa. O nosso grupo também foi brilhante, mesmo com todas as dificuldades ao longo do ano. Só nós sabemos o que passamos para conquistar o título da Série B e o acesso à Série A", disse o técnico Dorival Júnior.

Na próxima rodada, o Vasco, mais uma vez no Maracanã, encara a Portuguesa. Já o América-RN recebe o Ipatinga, no Machadão, em Natal. As duas partidas serão realizadas no sábado, dia 21, às 17h (horário de Brasília).

Na partida contra o América-RN, o Vasco, finalmente, jogou com a camisa comemorativa pelo retorno à elite do futebol nacional. Ela deveria ter sido usada diante do Campinense, na última terça-feira, mas, para não confundir com o uniforme da equipe paraibana, o árbitro do duelo acabou vetando.

Jogando em casa e precisando de uma simples vitória para deixar o Maracanã com o título da Série B, o Vasco começou em cima do América-RN. Porém, com uma marcação forte, o time potiguar minou a equipe cruzmaltina e equilibrou as ações.

Não demorou muito para o América-RN, aos 13 minutos, abrir o placar por intermédio de Lúcio. A desvantagem deixou o Vasco nervoso. A situação piorou com a resposta vinda da arquibancada. Irritada, a torcida passou a vaiar o time, que não se encontrou mais. O primeiro tempo terminou mesmo 1 a 0 para os visitantes.

O Vasco voltou para o segundo tempo com Fumagalli no lugar de Ernani. E, na saída de bola, o meia sofreu pênalti de Leandro, que acabou expulso. Elton, aos três minutos, bateu, mas Rodolpho pegou, evitando o empate cruzmaltino.

Mesmo com o pênalti perdido, o Vasco não "baixou a guarda". O time, aproveitando a vantagem numérica, encurralou o América-RN. O jogo passou a ser de ataque contra defesa. O empate era questão de tempo e ele veio, de pênalti, aos 15 minutos, através de Elton.

A igualdade no placar fez o Vasco acreditar que a virada aconteceria a qualquer momento. Porém, somente aos 40 minutos, com Alex Teixeira, que o Cruzmaltino virou a partida, deu números finais ao confronto e carimbou o título antecipado da Série B do Campeonato Brasileiro.

VASCO 2 x 1 AMÉRICA-RN

Vasco
Fernando Prass; Fagner (Aloísio), Vilson (Philippe Coutinho), Titi e Ramon; Nilton, Souza, Ernani (Famagalli) e Carlos Alberto; Alex Teixeira e Elton.
Técnico: Dorival Júnior

América-RN
Rodolpho; Thoni, Leandro, Edson Rocha e Jackson; Julio Terceiro (Ramirez), Ricardo Oliveira, Somália e Juninho (Wilton Goiano); Lúcio e André Luís (Geovane).
Técnico: Ricardo Dia
Data: 13/11/2009 (sexta-feira) Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Árbitro: José Henrique de Carvalho (SP) Auxiliares: Marcelo Carvalho Van Gasse (SP) e Nilson de Souza Monção (SP)
Público: 50.237 (pagantes) e 52.985 (presentes) Renda: R$ 746.330,00
Cartões amarelos: Alex Teixeira (Vasco). Leandro, Ricardo Oliveira, Júlio Terceiro e Edson Rocha (América-RN).Cartão vermelho: Leandro, aos 27 segundos do segundo tempo (América-RN).
Gols: Lúcio, aos 13 minutos do primeiro tempo. Elton (pênalti), aos 15 minutos; e Alex Teixeira, aos 40 minutos do segundo tempo.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Definidos os grupos do Campeonato Carioca

Vinicius Castro
RIO DE JANEIRO

A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) definiu, nesta quinta-feira, os detalhes do Campeonato Carioca de 2010. A competição terá início em 16 e 17 de janeiro com a mesma fórmula dos últimos anos, sendo dividida em Taça Guanabara e Taça Rio. Os dois melhores do Grupo A e os dois melhores do Grupo B classificam-se para às semifinais.

O sábado de Carnaval e a Quarta-Feira de Cinzas terão jogos das semifinais da Taça Guanabara. Os clássicos também foram definidos. Na terceira rodada do primeiro turno, Botafogo e Vasco se enfrentam, no dia 24 de janeiro. No fim de semana seguinte, Flamengo e Fluminense duelam no Maracanã.

Na Taça Rio, Fluminense e Botafogo se encaram no dia 7 de março, Vasco e Flamengo se enfrentam no dia 14 de março, Botafogo e Flamengo duelam no dia 21 de março, e Vasco e Fluminense jogam no dia 28 de março.

O presidente da Ferj, Rubens Lopes, comentou o sorteio da tabela da competição:

- Tivemos um arbitral muito tranquilo e o critério foi muito bem definido. Ninguém pode reclamar.Trabalhamos com a utilização do Maracanã, mas se houver alguma mudança, o Engenhão vai sediar os clássicos - afirmou.

A novidade fica por conta de uma equipe de engenharia civil colocada à disposição dos clubes pela Ferj. Além dos laudos da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária, os estádios precisam estar aptos a receber as partidas através de um laudo da engenharia civil. A Ferj também está reformando todos os gramados com o auxílio de engenheiros agrônomos.

Por fim, Rubens Lopes celebrou o Campeonato Carioca:

- Sem dúvida é o melhor campeonato estadual do país - encerrou.

Confira abaixo os grupos e as estreias do quatro grandes (com datas ainda a serem definidas):

GRUPO A
Flamengo
Fluminense
Americano
Bangu
Boavista
Volta Redonda
Duque de Caxias
Segundo colocado da Série B

GRUPO B
Vasco
Botafogo
Macaé
Madureira
Friburguense
Resende
Tigres
Campeão da Série B

Jogos de estreia dos grandes (sem as datas definidas):

Flamengo x Duque de Caxias
Americano x Fluminense
Vasco x Tigres
Macaé x Botafogo

quarta-feira, novembro 11, 2009

Universidades desprezam escritores populares, diz crítica literária premiada

SÉRGIO RIPARDO
Colaboração para a Livraria da Folha

Os estudos acadêmicos costumam desprezar os autores de grandes tiragens. A avaliação é da crítica literária e professora universitária Marisa Lajolo, 65, que ganhou neste ano o prêmio Jabuti, o mais tradicional da literatura brasileira, na categoria "não-ficção".

"Monteiro Lobato: Livro a Livro" foi planejado e organizado pela professora da Unicamp e pelo professor João Luís Ceccantini, da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

"O Lobato é uma figura muito popular, mas a academia cuida muito pouco do Lobato. Ninguém se interessa pelos autores que todo mundo lê. As pessoas querem aqueles autores desconhecidos, encafuados, que alguém descobriu que era ótimo", disse Lajolo.

Monte sua biblioteca sobre Lobato

Para a crítica literária, seu livro chamou atenção neste ano por abordar a obra de um escritor famoso.

"A academia falou de um autor que todo mundo conhece e todo mundo leu. Isso deu um temperinho diferente ao livro."

"Monteiro Lobato: Livro a Livro" levou mais de quatro anos para ser organizado, contando com a participação de alunos de pós-gradução da Unicamp e da Unesp.

Os pesquisadores analisaram os originais e as edições dos livros infantis de Monteiro Lobato (1882-1948), bem como ilustrações e até cartas que o autor de "Reinações de Narizinho" recebia dos seus leitores.

Os capítulos dissecam as várias edições das obras de Lobato, trazendo detalhes sobre cada publicação e a respectiva correspondência registrada pelo autor de livros infantis, famosos com a adaptação para a TV, como a série "Sítio do Picapau Amarelo", exibida na Globo desde os anos 70.

Os países em desenvolvimento, principais vítimas do aquecimento climático

LE MONDE

Hervé Kempf

Diversos estudos confirmam que os países pobres serão as principais vítimas da mudança climática, ainda que sejam os menores responsáveis por ela, por não serem grandes emissores de gases de efeito estufa. Um estudo publicado no início de setembro deste ano pela Maplecroft, uma consultoria britânica especializada em riscos globais, mostra que os países mais vulneráveis ao aquecimento são a Somália, o Haiti, o Afeganistão e Serra Leoa. Dos vinte e oito países expostos a um "risco extremo", vinte e dois estão situados na África subsaariana.

Enquanto isso, em Manila, o Banco Asiático de Desenvolvimento apresentava os resultados de uma pesquisa que concluía que o derretimento das geleiras do Himalaia ameaça a segurança alimentar e a disponibilidade de água dos 1,6 bilhão de habitantes do sul da Ásia. Em Nova York, Rob Vos, diretor do departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, avaliou que "se não reduzirmos as emissões de gases de efeito estufa de forma significativa, os danos causados à economia dos países pobres serão dez vezes maiores do que aqueles registrados nos países desenvolvidos". Vos comentava o relatório publicado por seu departamento. Segundo as conclusões, seria preciso investir todos os anos na atenuação da mudança climática e na adaptação a seus efeitos, da ordem de 1% do produto interno bruto (PIB) mundial, ou seja, US$ 500 bilhões (R$ 855 bilhões).

Alguns meses antes, em maio de 2009, a ONU havia publicado um relatório da Estratégia Internacional de Redução de Riscos, lançado em 2000. O documento faz a primeira síntese dos conhecimentos sobre os desastres naturais que se produziram entre 1975 e 2008. Ainda que reconheça não ser completo, o texto representa um aglomerado único de conhecimentos.

Entre 1975 e 2008, ele lista 8.866 desastres que mataram 2.284.000 pessoas. A respeito das inundações, o risco de morte aumentou 13% entre 1990 e 2007. Pode-se dizer que o quadro não é uniformemente catastrófico. O número absoluto de perdas humanas ou econômicas aumenta no período como um todo, mas ele permanece proporcionalmente estável, pelo aumento demográfico e do PIB mundial.

Mas, segundo os especialistas da ONU, a situação deverá se deteriorar em razão da mudança climática e da degradação dos ecossistemas. Esta é um fator muito ignorado, pois estes últimos conseguem amortecer o impacto das catástrofes de origem natural. Quanto à mudança climática, ela aumentará o risco dos desastres. A vulnerabilidade das populações é um dos outros fatores que acentuam os riscos. A ação do poder público (normas antissísmicas, etc.) torna-se crucial: o Japão e as Filipinas sofrem com mais ou menos o mesmo número de furacões, mas estes provocam 17 vezes mais mortes nas Filipinas do que no Japão.


Tradução: Lana Lim

terça-feira, novembro 10, 2009

Barris de pólvora

Como se sabe, aqui em São Luís nós temos um sério problema com o sistema de transporte coletivo.
Nove entre dez ludovicenses sem dúvida alguma já passaram pela triste experiência de descer de um ônibus que ficou pelo caminho em razão de defeitos mecânicos. Na verdade, deveria ter colocado “dez entre dez”, mas tenho uma até certo ponto perigosa tendência para as concessões.
Querem mais uma situação capaz de tirar qualquer um do sério? Levante a mão quem já passou por isso: um ônibus aproxima-se da parada em que você se encontra e, mesmo não estando lotado, não atende ao gesto tradicional e passa direto. Nesse caso, se alguém tomar para si o trabalho de questionar o motorista, ele muito provavelmente terá apenas uma palavra como resposta-desculpa padrão: horário.
Outra: não se deixem enganar pelo número de coletivos que transitam, por exemplo, pela Praça Deodoro. São dezenas, surgindo um depois do outro - dependendo do horário, a fim de conduzir os ludovicenses (ou aqueles que sem mais o que fazer visitam nossa Ilha) para o trabalho ou de volta para casa depois de mais uma jornada cansativa. As aparências enganam - e revoltam.
Na verdade, o número de ônibus em circulação é muito menor do que se imagina. Até onde sei - e naturalmente espero ser corrigido -, São Luís conta com cerca de 900 anos. Muito pouco para uma cidade com mais de um milhão de habitantes (não importa o que digam o IBGE e Luís Fernando Silva).
Nós, os simples, sofremos na pele com essa quantidade risível de coletivos. Aqueles que, por alguma causa, motivo, razão e circunstância acharam por bem residir na Cidade Operária merecem um lugar especial no paraíso, por terem enfrentado e conseguido sobreviver a provações diárias.
É uma aventura nada auspiciosa. Quem acorda entre cinco e meia e seis horas da manhã levanta da cama sabendo que muito em breve travará dois combates que não lhe trarão glória nenhuma, caso tenha sucesso. O primeiro: conseguir entrar em uma dessas latas de sardinha ambulantes. O segundo: disputar, geralmente com algumas cotoveladas aqui e ali, qualquer espaço que lhe garanta uma viagem com um mínimo de conforto. Mas bem mínimo mesmo, porque as tribulações são muitas. Para deixar em apenas uma: os constantes entreveros entre passageiros, motoristas e cobradores. O que acaba transformando um ônibus em um barril de pólvora.
Mas por trabalhar em um jornal, é preciso que aqui haja o necessário contraditório. Os funcionários das empresas de transporte coletivo não são os culpados pela atual crise no setor (veja só, Érica, aprendi a lição: pesquei um pouco do jargão de economia). Os responsáveis, naturalmente, são seus patrões. Estes homens que, em sua egocêntrica teimosia, não renovam a frota e, confrontados com cobranças nesse sentido, ameaçam com demissões e a possibilidade de aumento nas passagens.
Motoristas e cobradores, no máximo, reagem mal às condições adversas nas quais se encontram. Ou você aceitaria numa boa trocar de lugar com um deles e passar a trabalhar com medo de seqüestros ou assaltos?
Como sou otimista, espero que a situação do transporte coletivo melhore o mais rápido possível. Caso contrário, as cenas lamentáveis ocorridas no Terminal da Cohama na segunda-feira (9) serão cada vez mais comuns. Doa em quem doer.