domingo, outubro 17, 2010

Ensaios políticos de Vargas Llosa perdem a força diante de seus textos literários

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL

Casado com a literatura, Mario Vargas Llosa nunca escondeu que a política sempre foi sua amante. Lendo os ensaios reunidos em “Sabres e Utopias”, vê-se, no entanto, que o amor e compromisso com a “mulher” é bem maior e mais profundo do que as constantes escapadelas. Defensor ferrenho do liberalismo, o qual enxerga como expressão genérica da defesa da liberdade do indivíduo, Llosa chegou a se candidatar presidente do Peru, mas acabou mesmo coroado com o Nobel, o que talvez recoloque as coisas no lugar (quer dizer, isso se considerarmos que o prêmio é de fato literário).

Claro, a tese é discutível, e há quem sustente que a literatura e a política são indissociáveis na obra do peruano (mas isso pode ser dito sobre a obra de qualquer escritor). Mas um leitor atento de seus ótimos ensaios vai perceber que, ao falar de literatura, pura e simples, como exercício artístico de criar outras realidades, Llosa demonstra uma capacidade analítica tão apaixonada e inteligente, que fica difícil não notar que, diante desses textos, os escritos políticos empalidecem, mesmo os mais polêmicos, nos quais critica Fidel, Chavez e outros ícones da esquerda que um dia abraçou.

Não que o lado político seja desprezível (ocupa quatro quintos da coletânea), os ensaios literários é que são magníficos, e talvez devessem ser mais comentados. Pois é falando de Euclides da Cunha, Borges ou Guimarães Rosa que o autor de livros sensacionais como “Conversa na Catedral”, “Tia Júlia e o Escrevinhador” e “Pantaleão e as Visitadoras” consegue arrebatar o leitor. Seus comentários são pertinentes, perspicazes e também joviais, como se Vargas Llosa fosse descobrindo, maravilhado, a obra desses autores ao lado do leitor. Quem ler seu ensaio sobre “Grande Sertão: Veredas” e não sentir o impulso irreprimível de ler ou reler a obra-prima de Rosa é doente do pé.

Outro ensaio valioso, verdadeiro tesouro para quem gosta de pensar a literatura, é o escrito sobre Borges, em que ele explica com a clareza de um lago inexplorado, porque o "viejo brujo" deve ser considerado um escritor excepcional. Para Llosa, Borges tirou o complexo de inferioridade da literatura latino-americana e também revestiu a língua espanhola de uma nova roupagem. Na contramão da exuberância barroca e cores fortes usadas pela grande maioria dos autores nascidos em Espanha e América Latina, Borges dotou a língua de uma concisão irônica, erudita e divertida; “inteligente”, no sentido de propor jogos intelectuais, com seus elegantes labirintos e espelhos.

Ao falar do outrora grande amigo e hoje desafeto Garcia Marques e seu “Cem Anos de Solidão”, a obra que marcou o chamado "boom" da literatura latino-americana (do qual o próprio Vargas Llosa foi um dos expoentes), surpreende pela quantidade de detalhes observados com lupa generosa, e pela forma precisa como situa o livro no contexto literário da época. Mais que tudo, porém, fica clara a completa isenção de inveja ou competitividade, tão genuína é a admiração pelo colega. Isso também fica evidente nos demais textos. Sua vontade parece mesmo ter algo de juvenil, de dizer ao leitor, amigo imaginário, “olha como isso aqui é bom, você precisa ler!”

"Os Chefes" e "Os Filhotes"

Também lançado recentemente no Brasil, seu primeiro livro, a reunião de contos “Os Chefes”, que aqui veio acrescida da novela (no sentido de conto aumentado) “Os Filhotes”, dá bem a medida de como Llosa encarava a literatura com paixão de leitor. Seu estilo inicial reflete muito a forte influência de Faulkner, Flaubert e Balzac, o desejo puro de contar histórias. Não é por acaso que, como revela num de seus textos memorialísticos (“O País das Mil Faces”, presente em “Sabres e Utopias”), quando pequeno ele alterava ou estendia o final de seus livros favoritos, para que não terminassem tão cedo ou de forma frustrante. As narrativas de “Os Chefes” dão conta de sua infância e adolescência no Peru, repleta de aventuras e desafios, com a necessidade de afirmar a virilidade sempre em primeiro plano. Há um quê de influência do cinema também, algo de James Dean e “Juventude Transviada” nas histórias de lutas de canivete, brigas de gangue, disputas por namoradas e corridas suicidas de carro.

Já “Os Filhotes”, escrito bem depois, em 1967, quando já era um autor festejado, traz uma postura autoral mais aguda, com vozes que se misturam, impressões embaralhadas e um tema cômico a princípio, mas que se revela trágico ao longo das páginas. Um jovem estudante é atacado por um cachorro e tem seu mais precioso instrumento arrancado a dentadas. Cruelmente, como acontece em toda pré-adolescência, quando as identidades estão em formação, dão-lhe o apelido de Piroquinha. O nome é tão engraçado, que até mesmo os amigos não conseguem evitá-lo. Como é de esperar, Piroquinha cresce amargurado e se torna um vândalo autodestrutivo. O que torna a novela fascinante é a forma de contar, ao mesmo tempo ágil e profunda, tradicional e contemporânea. Essa é a marca que deve ficar de Vargas Llosa.

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